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CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

19
Set18

A Senhora dos Gatos


pequenos nadas

TESTEMUNHOS. A Senhora dos Gatos.

 

            Vivo há muitos anos no mesmo bairro. Ainda me recordo dos silêncios do princípio e da paisagem deslumbrante sobre o Mondego que lobrigava da minha varanda.

            Quase tudo se conhecia a quase todos.

            Hoje entro e saiu do elevador e encontro, em cada dia, a cada hora, gente diferente, a quem se dá o «bom dia» e se obtém ou não resposta, consoante os humores do parceiro de subida ou descida, – para quê «dar a saudação» se eu não conheço este gajo de lado nenhum –, pensará para si o meu companheiro de viagem.

            Na rua passam, a meu lado, pessoas que nunca vi, e, como não sou pessoa para perturbar com quem me cruzo, e porque não vejo vontade do outro caminhante, é mais um, ou uma, a esvair-se na espuma do tempo.

            No meio deste isolacionismo doentio, salve-se a Igreja de Monte Formoso e os centros de apoio que à sua volta gravitam, pelo mérito socializador desencadeado que se reproduz pela comunidade. E digo isto, sem sectarismo, já que não sou crente.

´           Estamos falando de pessoas e de instituições.

            Há uma delas, com quem me cruzo todos os dias, a quem me habituei a «dar a salvação», diga-se, sempre correspondido. Pergunto para os meus botões: “Mas que nome terá ela? Porque ainda não perguntei e ela a mim?”. A resposta é só uma: a sociedade, – de socialização individualista, egoísta –, transformou-nos em números, pessoas sem nome e rosto, para os pares sociais que ao nosso lado vivem e caminham. A socialização do local acabou. Viva a globalizada (?...), a das redes sociais. Aí estão os amigos, os amigos com semblante virtual com quem se fala e troca intimidades!

            Retomemos a mulher em apreço, que me levou a filosofar um pouco. Essa pessoa sem nome, quase todas as manhãs passa por mim, a caminho dos seus afazeres, chova ou faça sol. Fica-se pelo bairro ou segue a caminho da Baixa no autocarro ou a pé.

             Começo a observá-la, com melhor atento, e enxergo-a, todos os dias, a passear com imensa ternura o seu cão. Outras vezes, com comida e água segue a tratar dos gatos que por ali abundam. Conhece-os quase todos. Já reparei que visita alguns cães que estão nos quintais, para saber como estão e como vivem! Nada lhe escapa sobre os animais da zona.

             Noutro dia, dia de muito calor, senti-a preocupada com a necessidade de água para esses animais: Trazia um copo desse precioso líquido para dar a um gato que lhe pareceu muito desidratado. Eu estava por ali perto e perguntou-me se, por acaso, não o tinha visto. Caracterizou-me o animal e eu disse-lhe que iria estar atento. Esta foi a conversa mais longa que tive com essa Senhora. Estive para lhe perguntar o nome, mas não tive coragem.

             Esta mulher é uma verdadeira amiga dos animais. Trata-os, não os abandona. Será, porventura, a melhor dona de todas as que conheço.

             Hoje em bairros como este, já muito descaracterizados, vive-se com as figuras que emergem, por este ou por aquele motivo. Estas são o resto do meu bairro antigo. Para mim, esta Senhora, continua a ser conhecida como era, com toda a deferência e muita afeição. A Senhora dos gatos. Obrigada Senhora, sem nome mas com alma.

[ O Despertar, António Inácio Nogueira]

07
Set18

Nada se passa em Agosto? Ai, passa, passa.


pequenos nadas

Testemunhos. Nada se passa em Agosto? Ai, passa, passa.

 

            Durante o mês, que no meu tempo se designava «de férias», hoje nem tanto assim, dei-me conta de acontecimentos, ocorrências ou notícias que me levaram a pegar na pena e a passar ao papel, aqueles que achei, repetidamente, caricatos, outros porque bateram à porta da minha sensibilidade afectiva, também os surpreendentes ou os que me angustiaram.

I

            Entre a política e a justiça esgrimiram-se as arma do poder. Os dirigentes sindicais de diversos sectores da justiça declamaram, e, porventura com razão, da falta de meios para poder executar as suas tarefas, com dignidade, ao serviço do povo. Mas, vai-se tornando recorrente a inclusão no rol de papel higiénico. Começo a achar caricata esta constatação. Papel higiénico? A gestão de stocks de consumíveis não é da competência dos órgãos de gestão de qualquer organização? Oh senhores gestores de comarca, comecem por aí que é prioritário, – comprem logo no princípio do ano resmas de papel higiénico. Fazem um bom negócio, com certeza, com descontos que dão para comprar algumas folhas para a impressora. Se não houver papel higiénico, ai, ai, ai «rabinho». Ponto.

II

                        O quiosque de jornais da D. Madalena e do Senhor Jorge, com quem comentava os frios da vida, e de onde levava os jornais para ler, fechou. No mesmo lugar encontra-se, hoje, outra actividade.

                        Ao entrar no Café Santa Cruz, olho para o meu lado direito, e, sofro um arrepio de desesperança, sinto-me despido, faltam-me aquelas figuras que cumprimentava todos os dias. Hoje, para dizer a verdade, nunca sei onde comprar os jornais, tal o devaneio. As personagens, aqueles rostos, entram na nossa vida, entranham-se, e, de repente, estão dentro de nós, para sempre. Consideramo-las insubstituíveis. Assim é, quando olho à direita, o que vejo? –, o nada, o vazio, a essência das coisas ditas importantes para mim. A outros, só interessa a modernidade.

 

III

            Foi inaugurado na Portagem um belo edifício. A frontaria é sóbria, mas imperial. Aí se encontram escritos os seguintes dizeres: “A Conserveira de Portugal, 1942, Comur.”

            Depois olha-se, da rua, para o seu interior, e temos ao nosso alcance um tecto arqueado, pintado com recortes que me pareceram ser da Biblioteca Joanina. (Confirmei esta minha probabilidade com um dos seus responsáveis, e, segundo ele, é uma homenagem a Coimbra, como cidade do saber). Das suas paredes emanam livros, nelas plantados, de tal forma, que alguns parece tombarem, a dizer a quem entra –, apanhai-me, pois aqui está a nossa sabedoria. Nos entremeios dos livros, deparamo-nos com uma variedade abundante de conservas –, cujo invólucro é primoroso a condizer com o restante cenário, de que se exalta a autoridade artística concentrada na parede frontal.

             O conteúdo das latas é variado, mas tudo da tradição portuguesa e “tentam homenagear o mar e os portugueses”. Diz um prospecto que me foi facilitado: “ …o mar que os portugueses um dia fizeram seu dá-nos hoje alguns dos mais maravilhosos sabores do mundo proporcionando experiencias gastronómicas únicas, possíveis pelos séculos de conhecimento que aqui se reúnem em torno de uma lata. Saberes e sabores seculares, abraçados numa maré histórica de reencontro do Mar com os seus heróis. Uma epopeia agora recontada pela Comur, a conserveira de Portugal.”

            E lá bem no cimo das paredes, descobrem-se bustos dos símbolos maiores da nossa cultua milenar: Bocage, Pessoa, Camões, Camilo, Eça, Saramago, Garrett.

            É entrar, contemplar, e, depois, comprar, pelo menos, uma lata, para apreciar o sabor das memórias e da sabedoria popular.

IV

            Muitas vezes tenho feito erguer a minha voz sobre o progressivo apagamento de Coimbra relativamente a outras cidades. Nunca me passou pela cabeça que tal facto pudesse arrastar consigo a minha Universidade. Pois foi o que aconteceu: a Universidade onde eu tirei o meu curso, deixou de estar incluída no club das 500 melhores universidades. Os resultados do ranking de Xangai assim o determinam, e, agora, pasme-se: -, Aveiro e Minho lá continuam. A surpresa foi Coimbra que ficou de fora. Triste estou.

 

V

            Gosto muito da Serra da Estrela, da sua paisagem soberba, onde sobressaiem os vales glaciares, lagoas, covões, as quedas de água corrente, gelada, cristalina que terminam em fontes. E que dizer dos barrocos notáveis que parecem ter sido cinzelados, criando ilusões de vida para além da morte, como, por exemplo, a «cabeça da velha». Por todos estes factos, não é estranho que, este ano, tenha ido passar, uns dias, à Pousada da Serra da Estrela.

             Deparei-me com um histórico hotel, projectado pelo arquitecto Cotinelli Telmo, na década de 20, construído a 1200 metro de altitude. É um emblemático edifício, considerado um dos mais notáveis do seu género na península ibérica para tratamento de tuberculosos. Foi durante muitos anos o sanatório dos ferroviários, incompreensivelmente, desprezado, pilhado, maltratado.

             Este edifício abandonado aos ratos e às cobras, com paredes desventradas por azulejos arrancados, e, um amontoado de banheiras e outros materiais de tratamento da tuberculose, quais pilhas de lixo, – foi por mim espreitado, boquiaberto, uma das vezes que por lá passei.

            Foi recuperado, agora, com assinatura do arquitecto Souto Moura, mantendo a sua traça genérica. Magnifico trabalho, comento eu!

            Há coisas que nos acontecem, em Agosto, surpreendentes.

VI

            Mal eu acabo de pensar assim, e olhem que irrompe o incêndio devorador de Monchique: abate hectares de floresta, causa vários feridos e destrói casas. Tudo quase idêntico aos casos anteriores. Afinal aprendemos pouco, só de vez em quando.

VII

            Faleceu Arethya Franklin, a rainha do canto. Que falta me faz esta minha contemporânea e que exemplos me deu!

             Logo a seguir, desapareceu Kofi Atta Annan, o primeiro Secretário de Estado das Nações Unidas negro. Deixa um trabalho invejável realizado em prol da paz e da segurança.

            O colapso da ponte de Génova, com mortes e muitos outros estragos, é a incúria da técnica e a vergonha da política.

15
Ago18

A Vida e o Fim da Vida.


pequenos nadas

TESTEMUNHOS. A Vida e o Fim da Vida.

 

            Houve dois acontecimentos recentes que me tocaram sobremaneira.

O primeiro, pelo contentamento que me deu. O segundo, pela tristeza em que me envolveu.

I

            A dita cidade do conhecimento – que parece andar, em permanência, a questionar-se sobre a sua identidade e futuro –, como já o afirmei por diversas vezes, pode agora orgulhar-se de ter sabido organizar, com sucesso, os Jogos Europeus Universitários. E não foi coisa de pequena monta!

          Houve múltiplas organizações envolvidas, das quais destacamos, a universidade, câmara municipal, associação académica, alguns patrocinadores, um apoio significativo do estado, tendo a parceria contribuído com um orçamento de 5 milhões de euros.

            O evento desportivo utilizou 14 recintos e outros espaços, houve infra-estruturas desportivas requalificadas, daqui resultando, por exemplo, um reanimado estádio universitário e um ressurgido pavilhão Jorge Anjinho.

          Estiveram presentes cerca de 4000 atletas – que transmitiram à cidade um bom ambiente –, 1000 voluntários (valor de que não há registo em Portugal em eventos desportivos). Relacionado com estes números, há a realçar a entrada em competição de 300 universidades de 40 países, 500 treinadores e 300 árbitros. Houve 13 modalidades em disputa de medalhas durante duas semanas.

            As informações recolhidas afiançam que os jogos foram um modelo de gestão escrupulosa, o que é de salientar, já que se tratava do maior evento multidesportivo já realizado em Portugal. Só como exemplo, salienta-se a existência de uma central de informações a funcionar 24 horas por dia. Pena foi que uma informação mais aprimorada não passasse para o exterior, modo de fazer cooperar a população da cidade de uma forma mais empenhada. Jogos houve que bem mereciam outra participação dos cidadãos. Ou Coimbra está alheada de tudo, de quase tudo, desmotivada?

            E agora, caros leitores, vamos à última consideração: perante uma organização desta natureza e grandeza, não seria curial que a imprensa, rádio e televisão nacionais, propiciasse uma informação diária proporcional à `dimensão dos jogos? Parece não ter sido cumprido este desiderato. Ai se fosse em Lisboa!? …

            Mas fica o que importa. Parabéns à organização e aos patrocinadores. Congratulações à nossa Associação Académica de Coimbra pelo empenho organizativo demonstrado e pelo número significativo de medalhas conquistadas pelos seus atletas. Coimbra é Capaz. Vamos Coimbra…

            Obs: os números acima apresentados carecem, para serem rigorosos, de estudos estatísticos finais

II

          Não vou repetir tudo o que já se disse sobre João Semedo, o homem que tão cedo abalou, sabe-se lá para onde, aos 67 anos, acorrentado a uma doença grave e dolorosa, sabiamente enfrentada sem medo e perseverança. Assim pensando, vou sublinhar, apenas, os traços de vida que mais me impressionavam no João.

            Médico de profissão, viveu em permanente inquietação –, só assim se justifica que tenha efectuado um dos seus últimos discursos já sem cordas vocais (que vontade férrea)! Intervenção a recordar, sempre, demonstrativa de uma força de alma muito para além do que é habitual, a causar engulhos a todos os «videirinhos» que medram na política.

          Foi, pois, um homem dedicado à causa pública e portador de uma vontade cívica elevada até ao último suspiro, factos que lhe conferiram uma dimensão maior.

            Esteve sempre «com os de baixo», com os pobres, com todos os que não têm voz, porque não são poderosos. Falava por eles, uma opção de vida com uma componente de missão, porventura revolucionária. Era um homem combatente, um lutador persistente.

            A defesa do Serviço Nacional de Saúde foi uma das suas grandes missões em parceria com o criador do SNS, também recentemente falecido. Ainda há pouco tempo, travou uma das últimas batalhas com a feitura e apresentação de uma nova lei de bases que refundasse o serviço de saúde pública.

            Tinha admiração por este homem. Pela frontalidade e elegância no debate. Pela intensidade da convicção. Pelo respeito que nutria pelos contrários.

          Em pouco tempo morreram dois dos políticos que mais admirava: um António, outro João. Até.

[ António Inácio Nogueira, in O DESPERTAR]

10
Ago18

Para Ficar Por Cá Mais Uns Tempos!


pequenos nadas

TESTEMUNHOS. Para Ficar Por Cá Mais Uns Tempos!

 

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 Pombas na Rede Rota - Rio Mondego.

 

 

 

            Estive para não escrever nada sobre o acontecimento que vou expor. Depois de reflectir bastante, resolvi dá-lo a conhecer aos meus leitores.

            Já lá vão uns dias.

            No passado dia 15 de Julho de 2018, em plena Avenida Fernão de Magalhães, fui acossado por uma dor forte, excessivamente aflitiva, que me pareceu ter começado no ombro esquerdo alastrando, apressadamente, de tal sorte que toda a zona do coração ficou tomada. Pressenti que perdia o equilíbrio e a respiração tornava-se ofegante e difícil. Nunca tinha sido confrontado com tamanha intensidade de dor, não a sei descrever, era insuportável. Cambaleando dirigi-me à praça de táxis que fica junto à Rodoviária, e pedi a um taxista que me transportasse a Monte Formoso, onde, de certo, se encontraria a minha mulher para me levar, com a rapidez possível, ao serviço de urgência da Idealmed. Seriam 11 horas da manhã. Por aí.

            Os serviços fizeram um acolhimento rápido, eficiente e desembaraçado –, medicação imediata, exames e oxigénio necessários, consulta por um cardiologista que decide chamar o INEM e colocar de alerta os serviços de cardiologia dos HUC. A ambulância chegou breve: Pareceu-me bem equipada e com pessoal muito competente. Entro nas urgências e sou encaminhado, de imediato, aos serviços de cardiologia.

             Aí terei a melhor das surpresas, face à minha apreensão de encontrar um serviço menos eficiente, porventura anárquico, pois as notícias postas em jogo sobre o SNS, ultimamente, não deixavam prever coisa boa: sem o número de profissionais suficientes e competentes, estruturas físicas em estado de degradação…

            Cheguei perto das 18 horas. O que encontro eu, o que vejo eu!...Uma equipa jovem, eficiente, competente a decidir. Gente solidária, proferindo palavras certas ditas nos momentos certos, gestos acolhedores e animadores.

            Após uma análise cuidada aos documentos que lhe haviam sido apresentados pelo INEM, que relatavam a história da situação médica do eu paciente, foi enunciada uma deliberação, – sou levado para sala de intervenções, a fim de efectuar um cateterismo. Fico nas mãos de médicos que se vêm a revelar competentes, dando-me um permanente ânimo explicando o que vão fazer e para quê. Intervenção bem sucedida. Passo para o lugar de estabilização. Às 21 horas tenho alta.

            Põem-me na mão um conjunto de relatórios circunstanciados que marcam a história desse dia, deixando-me perplexo pela minúcia que encerram. Sou medicamentado pela jovem cardiologista que acrescentou na despedida: «foi tudo muito rápido, senão a coisa podia ter sido complicada». Agradeci e saí para convalescença em casa, pensando para com os meus botões: «desta safei-me e bem!»

            Sortudo dirão uns, milagre dirão outros, ou, foste no momento feliz. Não sei como classificar o instante, afirmo que foi um ensejo venturoso. É que no momento em que SNS está debaixo das críticas generalizadas, eu só posso deitar foguetes. Obrigado a todos, taxista, família, médicos, enfermeiros, auxiliares –, não os apresento pelo nome não vá algum sumir-se nas profundidades da minha memória.

            Repito o ensejo já acima descrito. Diz-se mal do SNS, pela sua organização, falta de profissionais de saúde competentes, má gestão, carências financeiras, instalações degradadas. Aceito as críticas só por quem conhece as debilidades, as viveu e reflecte sobre elas. Eu apanhei a sua parte boa e eficiente. Porventura encontrei o oásis no meio do deserto Um oásis no deserto, Para Ficar Por Cá Mais Uns Tempos!

[in O Despertar, António Inácio Nogueira]

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