Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

08
Nov18

S. Martinho e as castanhas


pequenos nadas

           

DSC00228.JPG

DSC00229.JPG

 

Por estes dias de Novembro, três palavras vão enchendo o nosso léxico: Martinho, magusto e castanhas. Ligadas a todas elas estão o magusto de S. Martinho, o dia de S. Martinho e o Verão de S. Martinho, que encerram costumes antigos perdidos nas sombras do tempo.

 

            No calendário litúrgico, o dia de S. Martinho celebra-se a 11 de Novembro, data em que este Santo, falecido no ano de 397, foi sepultado em França, mais concretamente em Tours. S. Martinho foi, seguramente, durante toda a Idade Média o Santo mais popular desse País. O seu túmulo encontra-se em Tours desde o séc. V, chegando a ser o maior centro de peregrinação de toda a Europa Ocidental. A sua generosidade e humildade, coligadas a uma enorme fama de fazer milagres, transformaram-no num dos santos mais benquistos do povo. Foi esta personagem, membro do Exército Romano, monge, professor, missionário e evangelizador, bispo e Santo Padroeiro.

            São Martinho é Santo protector de diversas profissões de entre as quais estão os alfaiates, cavaleiros, curtidores, homens da restauração, produtores de vinho e soldados. Os alcoólicos e os pedintes também têm o seu favor.

            Foi ainda um patrono dos exércitos, já que a sua capa era, múltiplas vezes, transportada à frente das colunas militares como pendão de guerra.

            Igualmente alguns animais têm a sua tutela, como por exemplo, os cavalos e os gansos. É orago de uma série infindável de localidades em todo o mundo. Quatro mil igrejas são-lhe dedicadas em França, e o seu nome dado a milhares de localidades, povoados e vilas em inúmeros países do mundo. Em Portugal, similarmente, passa-se o mesmo de Norte a Sul do país. Aqui bem ao lado de Coimbra, está uma deles, S. Martinho do Bispo.

            Alves de Oliveira na Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, vol. 13 (Editorial Verbo), assegura-nos que Martinho era filho de um oficial do Exército. Aos 16 anos entrou para o Exército, ainda que a sua vontade já o inclinasse a ser monge. Em Amiens, provavelmente em 338, durante uma ronda nocturna e num Inverno de enorme rigor, deparou-se com um pobre maltrapilho. Não tendo à mão nada para lhe acudir, dividiu ao meio, com a espada, a sua clâmide e repartiu-a com o pobre desconhecido.        Diz o ditado que naquele momento se fez Sol. O povo crente assevera que, desde esse dia, se chamou Verão de S. Martinho ao tempo solarengo e ameno ocorrido nos primeiros dias de Novembro.

            O reputado etnólogo Ernesto Veiga de Oliveira, já falecido, descreve de forma picaresca, no seu livro As Festas. Passeio pelo Calendário (Fundação Calouste Gulbenkian, 1987), como se comemorava o S. Martinho. Para o autor é “… sobretudo a festa do vinho, a data em que se inaugura o vinho novo, se atestam as pipas, celebrada em muitas partes com procissões de bêbados de licenciosidade autorizada, parodiando cortejos religiosos em versão báquica, que entram nas adegas, bebem e brincam livremente e são a glorificação das figuras destacadas da bebedice local constituída em burlescas irmandades…”

            Os adágios populares não deixam dúvidas:

“- Em dia de S. Martinho faz magusto e prova o vinho.

- Em dia de S. Martinho lume, castanhas e vinho.

- No dia de S. Martinho vai-se à adega e prova-se o vinho.

- Mais vale um castanheiro do que um saco com dinheiro.

- Pelo S. Martinho, todo o mosto é bom vinho.

- Quem bebe no S. Martinho, faz de velho e de menino.

- Queres pasmar o teu vizinho? Lavra e esterca p’lo S. Martinho.

- Se o Inverno não erra caminho, temo-lo pelo S. Martinho.

- Pelo S. Martinho, deixa a água pró moinho.

- Pelo S. Martinho, mata o teu porco e bebe o teu vinho.”

            Há diversas tradições festivas associadas a esta data e que se relacionam com um espírito de convívio e de solidariedade. Aliado aos festejos do dia de S. Martinho está o tradicional magusto em que as castanhas imperam.

            Consideradas, actualmente, como uma iguaria de época, as castanhas, em tempo idos, desde a Pré-História, constituíram um nutriente alimentar relevante e um substituto do pão. Cozidas, assadas ou transformadas em farinha, as castanhas sempre foram um alimento muito popular.

            No nosso País foram sustentáculo alimentar até ao século dezassete, conjuntamente com o centeio, a cevada e o trigo, fundamentalmente, nas regiões periféricas e pobres do Norte e Centro onde os soutos eram abundantes. A introdução do milho e da batata foram reduzindo a sua importância na alimentação da população.

            Os magustos começavam no dia 28 de Outubro, dia devoto a S. Simão, e duravam até ao S. Martinho. Nesse dia, acontecia o magusto familiar em redor da lareira onde era suspensa, pela «trempe», o assador cheio de castanhas. Em casa da minha avó, na Beira Alta e na aldeia de Amoreiras do Mondego, celebrava-se esse dia, pois, segundo rezava o adágio popular, no “Dia de S. Simão, só não assa castanhas, quem não é cristão.

            Os magustos realizavam-se em todo o Minho, em Trás-os-Montes, nas Beiras, no Douro e noutras regiões, por vezes em grandes terreiros, nos soutos ou no meio da rua. Em muitos sítios iniciavam-se à tarde e duravam até noite além. As castanhas assavam-se em fogueiras e o vinho ou a jeropiga, circulava em cântaros ou garrafões, aliviando a sede aos participantes.

            Recordo os magustos realizados há mais de cinquenta anos, andava eu no Liceu da Guarda, por altura de S. Martinho, organizados com outros amigos da turma. Em grupo, e em grande alarido, caminhava-se da cidade para a zona dos «soitos» existentes à sua volta, fundamentalmente para os lados da Estação, bem acompanhados da água-pé e da jeropiga que alguns traziam de casa. Estes «soitos» desapareceram, completamente, submergidos pela construção desenfreada e desorganizada.

            Aí chegados, tratava-se de colher as castanhas varejando os ouriços, suspensos nos castanheiros, que caíam e deixavam tombar profusamente o acepipe. Depois dava-se-lhes um pequeno golpe e distribuíam-se em círculo, bem espalhadas. Tapavam-se com caruma e o lume ateado fazia o resto. Quando estavam assadas, começava o ritual em redor, encarvoando-nos uns aos outros, cantando e dançando já que a água-pé e a jeropiga também davam ânimo à festa.

            Vem esta ideia à coacção pela importância que ainda é reservada à castanha na sociedade portuguesa actual, comprada nas lojas, mercados, festas e feiras por esse País além, ou aos típicos vendedores de rua.

            Assada ou cozida, eis os resquícios da memória e da história.

António Inácio Nogueira

31
Out18

Fotografias de Peniche


pequenos nadas

DSC00178.JPG

 Vista do Forte de Peniche

DSC00179.JPG

DSC00187.JPG

 Os enormes suportes do Porto de Peniche

DSC00181.JPG

 A caminho da faina 1

DSC00189.JPG

 A caminho da faina 2

DSC00190.JPG

A caminho da faina 3

DSC00192.JPG

Gaivota do Porto de Peniche

DSC00193.JPG

Farol do Porto de Peniche 

Fotografias de Inácio Nogueira

 

 

21
Out18

Fotografar


pequenos nadas

 

Tenho muito gosto em participar e apoiar esta iniciativa.

Inácio Nogueira

 

Olhar para os álbuns de fotos antigos é uma janela para os bons momentos de outras épocas. Às vezes paro a olhar para as fotografias antigas em casa das minhas avós e vejo as (poucas) fotografias de festas que se faziam na altura, em que toda a gente se arranjava especialmente só para ir ao fotógrafo. Escolhiam as melhores roupas que tinham, preparavam as jóias mais vistosas, celebravam esse dia. Depois, os retratos guardavam-se cuidadosamente na sala de casa, como

medalhas preciosas.


Hoje em dia, claro, já não é tanto sim. Podemos fotografar ou gravar facilmente o que queremos - basta ter um telemóvel. Tirar uma fotografia é algo tão comum que temos a sensação de poder gravar todos os momentos da nossa vida. Mas quando estamos a viver momentos realmente especiais e que vamos querer recordar no futuro, como um casamento, uma festa ou um grande
evento empresarial, muitas vezes não chega.


Nessas ocasiões, contratar um fotógrafo profissional continua a ser a norma. Não só porque um profissional possui um equipamento melhor e mais adequado para tirar fotografias de qualidade, mas também porque têm preparação para escolher a luz, o ângulo e as perspectivas certas para imortalizar cada momento. Afinal de contas, quantas vezes é que as vossas fotografias saíram desfocadas, com uma mancha de Sol no canto da foto ou com cores que não faziam jus à realidade?


Mas tal como tirar fotos é cada vez mais fácil, contratar um fotógrafo no Porto ou em Lisboa também o é. Graças à nova plataforma Portuguesa Fixando, bastam uns minutos para criar um pedido, descrever o que precisamos e esperar para receber orçamentos de diversos fotógrafos na nossa zona. Ou seja, até ao próximo S. Martinho, toca a procurar! (Aproveito para vos deixar aqui um atalho
para procurar fotografias em Lisboa e fotografias no Porto, mas podem procurar um fotógrafo em
qualquer sítio).

18
Out18

Observação à margem


pequenos nadas

 

No dia 21 de Outubro pelas 14:30 H, no grande auditório do Convento de São Francisco,

vai proceder-se ao lançamento da Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea, Vol X.

O autor desta crónica e colaborador de O Despertar,

foi seleccionado para constar dessa Antologia com um poema que verteu para o papel no ano de 2004.

Este acontecimento é uma iniciativa das Edições Planeta.

04
Out18

Mercearias de Bairro


pequenos nadas

TESTEMUNHOS. JOÃO, o Fundador da Primeira Mercearia do Bairro Onde Resido.

 

            Já ouvi dizer a vários historiadores e sociólogos que um bairro é (era) uma unidade funcional que gera (va) sentimentos de confiança e princípios de parecença comuns, entre os seus habitantes, ofertando-lhes a possibilidades de se associarem numa comunidade local. O bairro onde moro era assim quando o conheci, hoje o que é?

            Na minha modesta opinião, várias transformações concorreram para a sua evolução histórica, social e urbana, caracterizando-se, presentemente, como um novo perfil de sítio urbano. Ostenta, como muitos outros, claras singularidades de uma região urbanizada em consequência de diversos interesses ou mudanças sociais profundas.

            Debrucemo-nos, agora, sobre as mercearias do bairro, assunto central do nosso artigo.

            A primeira mercearia original, bairrista, foi fundada em 1965. Era um pequeno e modesto estabelecimento, pertencente à família João dos Santos. Possuía uma riqueza intrínseca pelos serviços comunitários que fornecia. Ainda existia o rol, o livro dos fiados e a distribuição porta a porta, preceitos e normas que vigoravam nas mercearias, gregárias.

            A nota de registo foi efectuada em 19 de Novembro de 1965 na Conservatória do Registo Comercial de Coimbra. O Grémio dos Retalhistas de Mercearia do Centro, certificou a inscrição da firma João dos Santos com o nº23523, por deliberação tomada na reunião de direcção de 26 de Novembro de 1965, e, atribuiu-lhe a categoria de retalhista de mercearias com estabelecimento público. Neste contexto, mercearias, vinhos a retalho, louças e panos poderiam ser transaccionados naquele espaço, que se apresentava exíguo. O Grémio Concelhio dos Comerciantes de Artigos de Escritórios, Tabacaria e Quinquilharias de Coimbra, em Abril de 1968, concede a necessária autorização para o estabelecimento sito em Monte Formoso – Ingote – Coimbra, poder transaccionar mercearia, vinhos, aguardentes, produtos hortícolas, tabacos, artigos de papelaria, plásticos, confeitaria, detergentes, águas minerais, refrigerantes, salgados e fumados, louças, alumínios, uma gama de produtos diversificada que bem caracterizava este tipo de estabelecimentos, adicionando-lhes a disponibilidades de venda. Aparece, pela primeira vez, o nome do sítio Monte Formoso, o que não deixa de ser curioso e necessitaria de conhecimento e aprofundamento teórico. A expansão da construção civil no monte e as magníficas paisagens que os seus habitantes usufruíam das suas janelas e varandas, albergando, bem perto, o Mondego a serpentear pelo seu vale, estará ligada à designação?

            Diz o Senhor João em entrevista amavelmente concedida ao colunista: “ … em 1965 era uma casa pequena, tipo empresa familiar, onde eu e a esposa, conhecida por D. São, trabalhávamos arduamente. A mercearia chamava-se Ingote, para abarcar os três Ingotes: o de Cima, o do Meio e o de Baixo. Habitantes fixos eram raros, mas despontava em força a construção civil, com os seus inúmeros trabalhadores. Eu vendia para esse pessoal, de várias empresas que aqui laboravam, vinhos e petiscos.”

            Continua o Senhor João o seu discurso: “… a minha, era a única casa quando começaram a chegar os habitantes em 1969, lembro-me muito bem da D. Helena cabeleireira ter sido das primeiras a chegar… foi também das minhas primeiras clientes. Nessa altura, eu ia a casa das pessoas distribuir o pão e o leite, porta a porta, por volta das 5 ou 6 da manhã. Às 8 horas abria a porta e as pessoas começavam a vir abastecer-se.”… “ Eu tinha hortaliças, peixe e carne frescas.” E depois de discorrer, entusiasmado, sobre muitas outras coisas, que não cabem num artigo desta natureza, ainda nos diz… “eu tinha uma caixa do correio e vendia selos aos meus clientes”.

            “A fase difícil veio a seguir”, diz o Senhor João com ar amargurado, “pois começaram a abrir outras casas, um vai vem de fechos e aberturas… fecharam e eu fiquei.” Qual o segredo para se manter aberto, indaguei eu? “A estrutura familiar, o acompanhar a actualização, muitas horas de trabalho, cultivar a prestabilidade aos clientes, população e fornecedores.” O Senhor João continua entusiasmado: “Se reparar, presentemente, tem outro nome, onde a palavra Marçano impera, suponho, não tenho certezas, de que foi o Miguel, o meu filho, em homenagem ao pai, que colocou este nome”.

             Aqui, o Senhor João, que foi marçano na cidade do Porto desde pequeno, fica com a voz «tremelicada» de emoção –, e lá vai dizendo: “trabalhava-se desde muito novo, a vida era complicada… muita pobreza e às vezes labuta sem horas.”

            O certo é que, com outro nome, com a concorrência de grandes superfícies, e outras lojas no local, foi sobrevivendo. E eu não tenho dúvidas –, o que o fará manter aberto será a sua integração na comunidade e a prestação de serviços e afabilidades que combatam a sociabilidade do isolamento.

             Pela minha parte, Bem-haja SENHOR JOÂO!...

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D