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CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

18
Jul18

101 Anos, Parabéns Amigo!


pequenos nadas

 

 

          Meu Caro

 

            Parabéns e que faças muitos mais. Apesar da tua avançada idade, estás bem de saúde, andas pelo teu pé e tens ainda o vigor da velhice lúcida. Apesar de viveres num mundo em mutação célere, não te perturbam as ondas que nos inundam, o poder da cibernética, as redes sociais efusivas e quantas vezes decisivas, o ruído que perpassa o espaço, o caos e o acaso.

            Vejo-te sempre pronto a estudar. Tu és o paradigma do ditado popular, «aprender até morrer». É a tua forma de estar, numa época em que o homem é coagido a conciliar, num todo, o racional e o intuitivo. Tem de aprender a imaginar, raciocinar, recriar, praticar, descobrir, experimentar, investigar, inovar, acreditar e amar, qual caldeirada, por vezes, dissipada no cosmos e no nada. Como tu ainda consegues resistir e apresentas, sobre isso tudo, reflexividade tamanha!

            A era da informação está aí, e tu, meu caro amigo, encaras a nova problemática com lucidez, apesar da tua longa idade. Eu fico pasmado, de boca aberta até, ao ouvir-te falar da era digital, era do conhecimento, do virtual, do incorpóreo, do ciberespaço, do proconsumo, do sef-help, do vazio, da idolosfera, da infosfera, da tecnopolia, da irracionalidade.., palavras que eu próprio, desconhecia, vindo a saber, mais tarde, terem sido investigadas por Pierre Lévy.

            Encontrei-te sentado, no teu cadeirão puído pelo tempo, numa das últimas visitas que te fiz, daquelas habituais, sempre confortantes, pelo aprendizado havido e discutido. Vi-te com um livro nas mãos sobre cibercultura, nele basicamente marcada pelas redes telemáticas, pela navegação planetária da informação e por formas de sociabilidade on-line, temas que, só mais tarde, em trabalho de doutoramento aprofundei. Pasmei! Que posso mais esperar de ti? Que nos fales sobre a Internet realçando as relações à distância entre pessoas sem rosto? Sobre o novo sujeito comunicacional? Sobre o ciberespaço e os novos grupos humanos? Vá, fala, fala, sobre isto tudo…

            Sei também te incomodarem o terrorismo, as ameaças transnacionais e a segurança. Anda, anda, diz-me porquê?

            Tivemos, meu amigo velho, há muito pouco tempo, uma forte discussão sobre tudo isso. E o que tu sabias sobre a proliferação das armas de destruição massiva, o crime organizado transnacional, a degradação do ambiente! Por vezes, tive de me calar para não te exibir tanta ignorância!

            Só ainda não ouvi da boca o meu amigo, o que é invulgar na sua idade, uma palavra sobre o silêncio, baluarte erguido contra do ruído que perpassa a sociedade actual. Será desinteresse por um assunto, para mim tão caro, na provecta idade que respiro? Porventura esquiva-se à discussão sobre a problemática, sabendo que o silêncio já lhe dói, e a solidão o envolve?

            Recentemente, apresentei-lhe o problema. Comecei a dissertar, enquanto o meu amigo, de 101 anos, me escutava atentamente! …

            Argumentava eu:

            «Percebi que tinha uma enorme necessidade de silêncio. Então, falo com ele de modo a aproveitar todo o seu potencial. Sabes que a natureza fala comigo através do silêncio, e, quanto mais silencioso eu fico, mais ouço? O silêncio da natureza tem o máximo valor, para mim é claro, e é aí que me sinto mais à vontade. Tenho, no entanto, a convicção de que o silêncio é sobretudo uma ideia. Uma noção que cada um tem de criar para si. Eu já criei a minha!».

            Amigo, atenta-me só mais um bocadinho:

            «Andar a pé não é uma coisa transcendente, mas tem, para mim, o seu valor. Faço uma hora de caminhada diária, e, durante esse período, sou capaz de desligar-me do mundo e não ouvir ruído. Gosto da ideia de um Deus que esteja contido no silêncio. A poetiza Emily Dickinson ensinou-me que “o cérebro é mais vasto do que o céu».

            O meu amigo ouviu, ouviu, sempre em silêncio. De repente, levanta-se da sua cadeira, “com cara de poucos amigos”, fita-me bem nos olhos, prenúncio de que estava farto da minha retórica, e, lá vai disto:

            «Blá, Blá, Blá, pára lá com isso tudo. Já li o livro, Silêncio Na Era do Ruído de Erling Kagge, e está lá plasmado tudo o que o teu discurso proferiu. Será que não foste influenciado por ele? Digo-te, és muito egoísta, só falas do teu silêncio, e o dos outros? O dos deserdados da vida, dos sem – abrigo, dos refugiados que fogem da guerra e da fome, e de tantos outros… com elevados sinais de pobreza, multiplicando-se, neste mundo cada vez mais desigual Que preocupações por eles demonstras? Nenhumas, nada de nada».

            Fiquei estupefacto, envergonhado… e, na primeira oportunidade, mudei de assunto. «Velho, vamos lá beber uma taça e “cantar os parabéns a você”».

            Assim foi.

            Ofereci-lhe, depois, um poema meu, feito a propósito, resultante da minha arte de «poetar», sem pretensões, que ele por vezes aprecia. Li-lho e ouviu, pareceu-me com interesse, tentando, porventura, percepcionar o seu conteúdo. Depois acrescentou: «está lá tudo, tudo o que diz respeito ao mundo actual, saibamos interpretá-lo!...».

 

 

A Torrente da Vida

 

Estrela candente destruída,

Corpo sem peso, liberdade,

Vazio, constelação sem vida,

Inércia, imponderabilidade.

 

Universo perdido,

Big-Bang oculto,

Pulsar pressentido,

Quark vulto.

 

Estrelas novas, nebulosas,

Acaso, caos, probabilidade,

Cometa azul, spin quase rosa,

Turbilhão, falsa verdade.

 

Moléculas multiplicadas,

Câncer, átomos visionários,

Constelações vendidas,

Planetas estacionários.

 

Orbital vazia, electrão expatriado,

Núcleo nu, protão p’ra frente.

Ruptura, futuro magoado,

Passado – presente, ligação doente.

 

Relação ciberespaço/energia,

Cibernética, virtual nascente,

Terror, incitação por magia,

Torrente, a vida da gente.

 

Despedi-me, do Bom e Sábio Velho, com um forte abraço, e disse: «Até sempre, amigo O DESPERTAR. Até para o ano. Espero estar presente no teu aniversário!»

[ António Inácio Nogueira, in O Despertar no seu último aniversário].

14
Jul18

Subida Para as Nuvens


pequenos nadas

 

DSC00011.JPG

 

Testemunhos: Acompanhei-os Até à Subida Para as Nuvens.

 

Há alguns dias atrás, encontrei o meu diário de campanha e dele reproduzi lembranças de guerra. De duas delas fiz a transcrição nas páginas deste jornal. Examinei-o até ao fim e encontrei outras narrativas. Não resisto a comungá-las com os meus leitores. A primeira descreve uma emboscada. Segue-se um ataque a um aquartelamento. A terceira conta, com emoção, a despedida aos meus soldados.

Prometo-lhes, caros leitores: - não voltarei a abordar temas de guerra.

I

Seguíamos tensos e em silêncio; sabíamos que a probabilidade de sermos emboscados era grande. Todos tinham os olhos nas bermas da estrada e na mata que as afaga. Ao chegar ao local designado por Matsanga, e estando a primeira viatura muito perto do aqueduto do rio Chinguissa, redobrou-se a atenção. Progredia-se pé ante pé, com o dedo trémulo no gatilho, sempre pronto para o uso a que já nos fomos habituando. Espreitávamos tudo, tentando descortinar algo que se mexesse e nos ameaçasse. Daí a instantes ouviu-se um estrondo junto à primeira viatura. Depois, uma rajada e, logo após, de um lado e outro da estrada, e numa extensão que nos parecia não ter fim, tiros, muitos tiros, uns que cantam outros que costuram e as granadas de RPG2 e de morteiro que silvam por cima das nossas cabeças. Agora são granadas de mão que nos enchem os olhos de pó e nos tiram a visão. Um tiroteio incrível que nos põe surdos e nos adormece a alma.

Mergulho num pedaço de tronco que encontro à mão e tento perceber o que se passa. Nesta guerra não é possível perceber nada. Não vejo quem dispara, não vejo o inimigo. Vejo apenas passarem, por cima da minha cabeça, balas e mais balas.

Não disse uma palavra. Não foi preciso dizer nada. Os meus homens, virados para a mata, disparam sem cessar, atiram granadas e dilagramas. As metralhadoras pesadas bailam em cima dos unimogues e as balas saem, floresta dentro, à procura do incerto.

Decorriam 5 minutos deste inferno em chamas, quando se ouviu o deflagrar de uma forte carga explosiva que destruiu o viaduto sobre o rio Chinguissa e abriu uma cratera de 7 metros de diâmetro. Estava obstruído, por completo, o itinerário de ligação a Miconge.

Pela minha cabeça passaram, à velocidade da luz, as hipóteses mais extravagantes. Tive medo. Vi o fantasma da morte em meu redor. Então, ficou bem claro para mim, que era preciso reagir mais, agora com mais intensidade, pois estávamos bloqueados.

Passados 7 minutos, o IN entra em debandada. Depois fica o silêncio. É um silêncio que dói. Um silêncio de vazios, de nadas. Vagueio de um lado para o outro, como um bêbado, e pergunto a todos se estão bem. Não há mortos nem feridos. Fico feliz e regresso a mim. Já não estou tão vazio, estou eufórico. Procuro ordenar o meu grupo e mantenho-o vigilante, dada a posição desfavorável em que nos encontramos. Disfarço, o melhor que posso, a luta interior que se passa dentro de mim. Apetecia-me abraçar todos esses homens. Eles são os heróis que a Pátria tão mal trata e a quem tão mal quer!...

II

Agora, fazemos o caminho para Miconge, que havia sido fortemente atacado. Chego à porta do aquartelamento e encontro um cenário dantesco. Um espectáculo de destruição, como nunca tinha observado. São chapas de zinco pelo chão, casernas destelhadas, edifícios sem paredes ou parte delas perfuradas por tiros e granadas. Soldados com mãos atadas e pés entrapados, fardas rasgadas.

Casernas onde o caos impera. Malas abertas, semi destruídas, com cartas íntimas das mães e namoradas espalhadas pelo chão, que ainda não houve tempo ou vontade para recolher e guardar.

Mas olhem para eles! Estão firmes como rochas os meus soldados, e eu pergunto-me onde vão buscar estes homens esta força, esta coragem!...

III

O dia da partida chegou e, no aeroporto, depois das despedidas, fico a ver os meus homens caminharem à procura da porta de saída e da liberdade. Tenho um sentimento de perda que não sei explicar.

Era de noite e nesse dia chovia. O ar estava carregado de lágrimas flutuantes, já que as gotas de água que caíam eram finas, imitando o cacimbo do Maiombe. Ele veio despedir-se dos guerreiros e acompanhá-los na subida para as nuvens. Fiquei algum tempo no aeroporto, vendo as luzinhas do Boing desaparecer, por entre milhões de pingos de saudade.

Volto e vou para a Ilha de Luanda. Sento-me numa esplanada. Fico em silêncio horas a fio, porque me apetece ficar com os meus pensamentos. Alguém me pergunta em que penso, mas permaneço abstracto como se não tivesse ouvido. Passado duas horas, levanto os olhos devagar, uns olhos que dizem mudar de cor conforme os dias, e à noite parecem de gato, de mel. Hoje são de fel. Nessas duas horas reconstruí uma história que não voltarei a contar, ou, quem sabe, talvez um dia, muito mais tarde, a (re) escreva para deixar aos meus netos.

A minha guerra quase findou. Agora vou ficar mais um mês, a cumprir a última missão de qualquer Capitão – a Comissão Liquidatária – com a qual se fecha a contenda, se fazem contas com a guerra e com a tropa.

Para regressar à Metrópole é preciso que dezenas de “quadradinhos” sejam assinados e carimbados pelas respectivas repartições. Quando os “quadradinhos” estiverem preenchidos, estou quites e posso regressar. Por fim, eis a última assinatura!...

A carta de alforria está na mão.

Já estou no aeroporto aguardando o embarque. É estranho como há pouco, quando recebi a notícia da partida, estava eufórico e alvoroçado, e agora não encontro em mim o mínimo eco emocional. Deixar Angola, depois de mais de dois anos de vida sem ser vivida, deveria constituir um alívio e uma libertação. No entanto, nada disso está a acontecer.

Subi para o avião, esperei que chegasse a hora da partida e vi as luzes de Luanda a afastarem-se, desaparecendo na escuridão das noites de África. Não tive aquele sentimento emotivo que me acompanhou à chegada. Parece ser estranha esta reacção, mas talvez não o seja. Pensei tantas vezes na partida, que se me tornou quase indiferente.. Deixar Angola não é tudo, mas chegar a Lisboa é já quase tudo.

Afinal, Luanda do ar pareceu-me muito mais pequena, exageradamente pequena. Miúda demais para tanto sacrifício. Esta convicção deu-me a certeza de que não valia a pena pensar no passado, meditar Angola.

[in Despertar, António Inácio Nogueira]

11
Jul18

Coimbra entre mitos e desesperanç


pequenos nadas

TESTEMUNHOS. Coimbra entre mitos e desesperança.

 

            Em artigos anteriores tenho feito várias críticas e reparos sobre a nostalgia em torno do desenvolvimento da «minha» Cidade, nos seus diversos aspectos, que não ouso agora repetir. Também da sua «governança» que, ao longo dos tempos, não foi capaz de ajudar a superar a inércia forjada em redor de algumas forças bloqueadoras insistentes em não querer perder o poder no qual se enclausuraram.

            É sempre com muita mágoa que o faço.

            Coimbra não pode continuar a viver só dos mitos e dos ritos do passado. Não pensem os leitores que pretendo o conhecimento ligado ao poético e ao mágico, esvanecido nesta terra. Eu sei que, quando o simbólico deixa, nas várias versões, de representar na história e na vida uma interpretação de sentido descobrimo-nos a viver num mundo desencantado. Preserve-se e divulgue-se o património rico e diverso, cuide-se do ambiente circundante, importantes para dar força à sua – e nossa –, identidade, mas não se descure o presente, e, releve-se, também, o prospectivo. Para o bem ou para o mal, a composição da realidade já não se explica poeticamente, mas tem sim de ser sujeita ao crivo de uma racionalidade de tipo científico, aquela tida hoje como a única legítima e de futuro. [in Público, José Tolentino Mendonça.]

            Esta última vertente tem vindo a faltar na nossa Cidade: por medo de abandonar o passado, por subserviência a outros poderes, inclusive às suas cidades satélites, onde não se impõe, e, com as quais, em determinados aspectos, já não é capaz de competir.   Ao ter-se sumido a exclusividade e a supremacia universitária do passado, em alguns sectores do saber e da investigação, Coimbra perdeu, definitivamente, em número e qualidade, os cérebros que no passado eram quase da sua mestria. Há uma Coimbra subserviente que nada traz de Lisboa, nem quando os governos lhe são de feição politica. Assim sendo, resta – lhe desenvolver políticas de arrojo, por a inovação e a imaginação a funcionar, para atrair e accionar novas formas de agir, pensar e fazer frente.

            E caros leitores, em cada dia que passa, vejo Coimbra a afastar-se de muitas das cidades que lhe eram referência e às quais sobressaía.

            O Instituto Nacional de Estatística divulgou o valor das mercadorias exportadas por cada um dos 308 municípios portugueses até 2017. Percorri a lista, mas Coimbra não constava em situação evidente – por onde andas Coimbra? No designado «top» exportador (mais vendas ao exterior em 2017 em milhões de euros) brilham Braga, Aveiro, Guimarães, numa lista de 20 concelhos. No «top» valor maiores subidas (em milhões de euros entre 2013 e 2017), numa lista de 20 concelhos, encontram-se Braga, Guimarães, Leiria e Aveiro. No «top» dinamismo (maiores subidas em percentagem entre 2013 e 2017), Braga, Tábua, Évora, Nelas. [fonte Expresso / Economia, 9 de Junho de 2018].

            Mais acrescentar para quê? São muitas DESESPERANÇAS!

            Fico, por ora, expectante com a evolução das empresas ligadas às novas tecnologias. Em frente.

04
Jul18

De Tanto...


pequenos nadas

Testemunhos: De Tanto Engolir Lágrimas, Afogo-me Em Angústia.

 

            O último dia da vida de uma mulher ou de um homem não existe. Fora dos livros que narram… ninguém tem direito a um último dia, somente a uma interrupção acidental de vida… (leia-se Bruno Vieira Amaral no seu magnífico livro “Hoje estarás comigo no paraíso”).

            É olhando esta perspectiva que encaro o fim dos meus familiares próximos e dos meus amigos de uma vida, poucos. Por isso, quando tal acontece, de tanto engolir lágrimas, afogo-me em angústia.

            Sento-me na solidão que recorda os momentos vividos em conjunto, os ensinamentos que obtive dessa vivência, do amor ou amizade que cultivámos e foi penetrando os laços apertados da alma. Mesmo os instantes de dificuldades relacionais são revividos naquele momento e, são lenitivos para dar razão aos que acreditam que o fim não é o fim. É por tudo isso que nesses ápices de isolamento acompanhado, alcanço transformar pensamentos e sentimentos em palavras sentidas que transfiguram o Fim em vida.

Estes sítios, que vou levar-vos a (re) visitar, já são para muitos moradias de espíritos, revelações de outros seres. Mas não são o Fim. Com estas palavras vou despertar antigos fantasmas. Convocar o que resiste e fazer do antigo novo. Vou dar vida ao passado.

 

No dia da morte da minha mãe fui o primeiro a chegar à casa funerária. Estava com ela deitada à minha frente, quieta e gélida. Peguei num papel que tinha no bolso, escrevi-lhe e deixei o escrito preso a um ramo de flores. Desejei-lhe boa viagem para o Fim que era o início de qualquer coisa.

 

“Minha mãe!...

Já agora…

Que vais de viagem,

Faz-me um último favor.

Carrega contigo,

Os cravos e as rosas

Do nosso descontentamento,

E o peso…

De muito amor.”

 

             No dia do enterro do meu pai ao chegar perto da cova funda, comecei a sentir passar à minha frente não a morte mas o fio da sua vida.

            «Sobe a rua da Urbanização da Quinta do Sobreiro vagarosamente, agora usa bengala para melhor se equilibrar. A subida é difícil, e ele só há pouco tempo começou a sentir o embaraço. Mais um pouco e lá chegaria. Esbaforido com as pernas doentes e magoadas, lá abeirou. Aquele velho alcançava sempre, para ele era preciso chegar sempre.»

            E ao cair de cada pazada de terra sobre o seu caixão as palavras brotavam às golfadas. Chegado a casa escrevi-as num papel que ainda hoje guardo:

 

            “Hoje ouvi cair em cima do teu caixão pazadas de terra agreste. Não era não, daquela terra que tu domavas e que fazia florescer os teus pomares!... Era outra terra, que eu bem vi: muito mais madrasta e que vai devorar o teu corpo!

Olha…, mas deixa lá!...

            Eu não vou esquecer a tua inteligência, a tua sagacidade, o teu engenho, a tua inventividade, e o amor que tinhas por mim, que tão bem sabias resguardar para que eu nunca o entendesse.

            Olha pai, já estou a ouvir as tuas músicas. O teu trompete toca sozinho e tão bem! Tudo isto de que te falo, ela não vai comer, não, porque está comigo, guardado nas minhas entranhas e memórias.

            Para sempre. Prometo-te.”

 

Uns anos mais tarde afoguei-me em angústia de tantas lágrimas engolir pelo meu neto. Um oceano revolto. Aquilo que eu sofri para dentro nesses vales interiores onde se fundiam os poentes! Sonhei então que nenhuma pessoa é só uma vida. Nenhum lugar é apenas um lugar.

            Sonhei o futuro e não a morte. E escrevi.

 

A flor que foi menino

Aquela flor em botão que eu vi murchar,

Na réstia dos meus anos, sempre vou zelar.

Todos os dias quinze, dos ventos a vou abrigar,

P’ ra suas pétalas ver desabrolhar.

 

E, depois, sempre cuidar,

Com elas conversar, brincar,

Histórias contar.

Intensamente cheirar,

P’ ra me perfumar.

À bola jogar;

P’ la Académica gritar;

P’ la Internet brigar;

P’ lo mandar estudar, amuar.

Mas sempre voltar, repetidamente, gostar.

 

A flor tornou-se criança,

O menino de sua mãe,

E meu também.

A dezasseis disse adeus e desapareceu...

Mas eu sei onde o encontrar,

Pois então!

No quarto das «tralhas», a jogar

Ao pião,

Aquele lugar escondido do meu coração.

 

            Já por diversas vezes escrevi num impulso, perante os meus amigos, aquele FIM que é o princípio de qualquer coisa. A família colocou aqueles papéis emoldurados junto à urna. Estou certo que lhes deu o alento da vida e não da morte.

29
Jun18

Dois Livros


pequenos nadas

TESTEMUNHOS. Dois Livros.

 

          Acabei, há muito pouco tempo, de ler dois livros em simultâneo. Poderão, desde já, os leitores questionar o autor desta pequena crónica, de como é possível ler dois livros, quase concomitantemente. E fazem bem em fazê-lo, pois é-lhes lícito argumentar, esta forma pouco organizada de leitura – hoje leio um, amanhã leio outro –, levando, quiçá, a uma pouco reflectida análise da problemática versada em cada um deles. Porventura sim, mas também é verdade, e muito importante, numa leitura alternada, a procura do cruzamento de ideias e conteúdos. É mais fácil, depois, fazer a sua síntese ou contraditório, sendo para a minha idade, já provecta, uma boa exercitação da memória e da habilidade de raciocínio.

            Mas regressemos aos livros. Um deles designa-se por “Escravatura Perguntas e Respostas” – tema sempre actual –, da autoria de João Pedro Marques, construído em redor de 24 questões e respectivas respostas. Segundo o autor, todas elas permitem aos leitores, sentir que a “história da escravatura é muito menos linear do que parece à primeira vista, que é mais surpreendente do que lhe fizeram crer e que não se dá bem com apressadas e vesgas culpabilizações.” Ou desculpabilizações, acrescento eu. Assim foi, e é. Por outro lado, dá-nos a conhecer todos os arbítrios e desmandos que o ser humano é capaz de exercer sobre outro, despojando este de tudo, inclusive da sua própria vida. Ao ler o livro, ficamos mais sensíveis a observar e a reprovar, com veemência, todas as formas de escravatura contemporâneas – são tantas –, e a argumentar para as esvanecer e suprimir.

            O outro apelida-se “A Estranha Ordem das Coisas, a Vida, os Sentimentos e as Culturas Humanas”, uma obra do cientista António Damásio. Um livro com rigor científico e para pensar em profundidade, um ensaio para responder, além do mais, ao seguinte questionamento: “o que levou os seres humanos a criar culturas, esse conjunto impressionante de práticas e instrumentos onde se incluem a arte, os sistemas morais e a justiça, a governação, a economia política, a tecnologia e a ciência?” A resposta é dada, ao longo das páginas, de uma forma brilhante, intentando enfronhar-nos na origem das mentes, nos afectos, na construção dos sentimentos, na consciência, na mente cultural e muito mais. Adianta-nos que “os sentimentos monitorizaram o sucesso ou o fracasso das nossas invenções culturais e permanecem, ainda hoje, envolvidas nas operações subjacentes ao processo cultural, para o melhor e para o pior”. E António Damásio vai mais longe, quando acrescenta que a interacção favorável e desfavorável de sentimento e razão deve ser reconhecida, se quisermos compreender os conflitos e as contradições que afligem a condição humana, desde os dramas pessoais até às crises políticas.

            Muito do que foi acima postado, e pertença do livro de Damásio, está presente no âmago de toda a história trágica da escravatura, na de hoje e na de ontem. Então, caro leitor, sempre convirá – de quando em vez, sempre que o teor das obras se complementem –, fazer leituras cruzadas, como eu fiz. A aprendizagem, assim feita, por vezes torna-se mais holística.

Boas leituras.

[António Inácio Nogueira, in O Despertar]

27
Jun18

Testemunhos. Editorial Indignação


pequenos nadas

 

 

            Persisto indignado com o que aconteceu a este País recentemente. Não suporto a ideia de que se queimou uma parte significativa: as suas matas, reservas de fauna e flora únicas, as suas aldeias, quase desertificadas onde só velhos indefesos viviam, mas carregadas de beleza rural e memórias indissolúveis de vida, as pequenas indústrias que ocupavam os poucos jovens resistentes a este interior transformado em periférico e desertificado. Não aceito que o fogo tenha penetrado nas vilas e cidades e ferido as suas zonas industriais. E os mortos? Mais de cem! Como foi possível espalhar tanta dor e tanta mágoa?

            O clima mudou, a seca é perigosamente avassaladora? O manto da floresta é uma autêntica granada? Os ventos fortes e «soões» transportam centelhas incendiárias a longas distâncias afogueando outros locais além? As matas possuem espécies vegetais que ajudam à propagação do incêndio? Há incúria humana de quem as habita ou vive delas? Tudo pode servir de atenuante para os contraditórios aos questionamentos expostos. Mas indulto não existe, já que há longos anos se conheciam as consequências, através de muitas das investigações realizadas, e as tecnologias de previsão disponíveis anteviam os piores cenários. Ah! Políticos destes País e dirigentes responsáveis pela segurança da administração pública e da sociedade civil, que fazeis vós?

            Gosto de visitar as livrarias, passear pelo meio dos livros, sentir a sua fragrância, olhar os escaparates publicitários, onde, às vezes, não vejo os melhores livros ou aqueles que foram feitos com muito trabalho investigativo (mas de autores pouco conhecidos...), mas enxergo «lixo editorial» exposto por motivos que todos conhecemos…

            No último Domingo, aguardando a hora do futebol da Académica, o meu clube (não escondo que gosto muito de futebol!), eis senão quando reparo num livro volumoso de 469 páginas ao módico preço de 4, 90 euro (!), edição Dom Quixote de 2006, sob o título “Portugal o Vermelho e o Negro” da autoria de Pedro Almeida Vieira, credenciado em ecologia, ordenamento do território, economia ambiental e poder local, jornalista em vários jornais de primeira linha e vencedor de diversos prémios de valor inestimável.

            Ao folhear o livro deparei-me com capítulos como o “Reino das Chamas”, “Fogo Libertário”, “Ondas de Inépcia”,“Culpar São Pedro, Pecar em São Bento”, “Os Anos do Carvão”, Das Fumarolas ao Fogo Infernal”, “O Striptese Florestal”, “No País do Faz-de-conta”, “Guerra Sem Norte, “O Império de Caos”, no “Reino do Fogo”, “Os Negócios Aéreos… e Invisíveis”, e também com documentos e tabelas bem elucidativas e com números incontroversos.

            Estamos, pois, perante um livro, de valia, que na altura do seu lançamento não foi apreciado (para quê lê-lo?). Agora, foi reposta a sua comercialização, num momento de procura previsível…em boa hora! Afinal, o que precisamos de saber está lá tudo, caros leitores! …

            À volta deste texto eu sentir-me-ia tentado a apresentar, há uns anos, enquanto professor que fui da Escola Superior de Educação, uma proposta de análise sociopolítica e cultural aos meus alunos. Eles seriam capazes de dissertar sobre o contexto e gizar um trabalho analítico em redor desta vasta controvérsia. Saberiam interrogar-se da razão porque estava tudo na mesma, na altura do desastre, e atrever-se-iam a aludir os culpados políticos e institucionais da catástrofe.

27
Jun18

Contadores de Histórias


pequenos nadas

Está muito frio em Coimbra. Eu vou de Monte Formoso, a pé, até à Baixa e sinto-o bem percorrendo o meu corpo; muito mais o sofro quando atravesso o emaranhado das suas ruas estreitas, onde nesta época do ano não assoma o Sol.

            Este frio faz-me lembrar o escano e os contadores de histórias da minha aldeia beirã. Para Luís Vale o escano estava associado à noite, ao Inverno e ao frio, aos ambientes interiores, ao espaço íntimo e privado das reuniões demoradas. Para o mesmo estudioso ele possuía uma vivência individual e grupal muito particular, de reunião e partilha, dizendo mais respeito em cada casa às relações de amizade, cooperação laboral e compadrio.

             Como diz Álvaro Campelo, a actualização do «dito» e do «acontecido» na palavra do emissor transformava o «palco» da lareira. Alexandre Parafita, realça a memória oral do povo como património valioso e inesgotável. Por tudo isto, o contador de histórias estava sempre presente. Era uma figura ancestral, preza ao imaginário de inúmeras gerações ao longo da História. As narrativas eram tecidas pela sua voz mágica, ao redor de lareiras que contribuíam para criar uma atmosfera de intensa magia.

            O contador de histórias não era um mero reprodutor de narrativas, ele também gerava os seus relatos. Conforme a disponibilidade ambiental, ele fantasiava e acrescentava os seus contos, tendo como principal ferramenta a palavra que detém o poder de metamorfosear o comportamento humano.

            É desta forma que vou ao encontro dos meus avós, já falecidos há muitos anos, mas sempre recordados por mim. A minha avó era uma exímia contadora de histórias e gostava do escano, principalmente nas noites frias e ventosas da serrania. Sentava-me à sua frente e ela começava, sempre, com a frase “era uma vez”… sei lá um lobo, um pai, um pássaro, uma fada, e tantas outras coisas. Havia narrações relatadas que já vinham de tempos de outrora, embora ela, dotada de uma criatividade imensa, as contasse sempre de uma forma diferente. Outras inventava na hora para fazer a vontade a quem estivesse no escano. Adorava ouvir a minha avó… Não contava histórias lendo (onde havia livros para tal?), tudo provinha da sua cultura oral desenvolvida. Não contava de forma passiva, retórica, sempre no mesmo tom. Ela era incomparável nas atitudes gestuais, nos sons que emitia, na imitação dos falares dos animais, das bruxas e das fadas. Era uma verdadeira animadora.

            Entusiasmava sozinha, não precisava de materiais outros para motivar… e lá vinha o pedido, «ó vozinha» só mais uma, só mais uma.

            Hoje contam-se histórias aos meninos, não me atrevo a dizer que não bem narradas, mas há sempre materiais didácticos de apoio. Existem técnicas para a animação da leitura que se estudam e treinam nos cursos de animadores culturais ou socioeducativos, quer seja para crianças ou adultos.

            A minha avó não tinha à sua disposição materiais de apoio, toda ela era tudo no escano!

           Recentemente a imagem do contador de histórias retoma-se e vitaliza-se. Procuram-se cursos e oficinas técnicas para aprender a contar. Segue-se na direcção da profissionalização. As escolas chegam a reservar um espaço no currícula para este acontecimento. Às vezes até mesmo docentes e bibliotecários são preparados para exercerem esta actividade. O bom contador de histórias está de volta, e é novamente apreciado. Ainda bem.

 

[in O Despertar, António Inácio Nogueira]

21
Jun18

Testemunhos. Trump, quem não conhece?


pequenos nadas

 

          Toda a gente conhece Trump, pois então, o tal que se vagueia pelas redes sociais seguido por milhões de acusadores e, também, por milhões de acérrimos simpatizantes.

          Toda a multidão conhece Trump, olá, aquele que se ostenta, quase sempre, no seu sobretudo meia perna e naquela gravata vermelha que, de esguia, desce até á...

          Há alguém que não reconheça o Trump? Improvável. O actor, o ficcionista, o populista, o isolacionista, o quebra contratos internacionais (nos campos do comércio, do nuclear, do ecológico, etc).

            Não é aquele que tudo e todos atropela à sua volta? É, sempre que não lhe beijem a mão cardinalícia de construtor civil milionário – , vá-se lá saber como o conseguiu.

          Sim senhor, o Trump. Alguns apelidam-no de impostor, outros de cata-vento palavroso. Pois então o Trump, o homem que canta – desafinado –, o América first, first, first, para logo a seguir, num ápice, superintender à política do mundo, no fio da navalha, no limite entre a guerra e a paz.

             Pois… Trump, o megalómano, construtor de muros, defensor do Nós Sempre Sós e Grandes. Até… precisar dos pequenos.

            Eis senão, Trump, o todo poderoso politicamente iletrado, logo indesejavelmente político.

          Mas afinal, sabem o que faz Trump? Não sabem, mas eu digo. É o Presidente dos Estados Unidos da América, aquele que mandou implantar a embaixada do seu país na cidade de Jerusalém, deixando cair num baú de pólvora, palestinianos, israelitas e povos de muitos outros países daquela zona do mundo tão politicamente instável. A seu belo prazer, alterou a política de décadas e rompeu com o consenso internacional sobre Jerusalém.

          E, agora, vá lá, sejamos francos, Trump saberia alguma coisa sobre o passado e o presente desta cidade, eternamente disputada, cenário de paixões, perfídias, batalhas, conquistas e derrotas, dita uma taça dourada cheia de escorpiões (Muqaddasi)? Pouco saberia.

          Trump, na sua ligeireza, nada deveria ter estudado ou lido sobre Jerusalém. Caso o tivesse feito, teria comprovado as intermináveis batalhas por Jerusalém, os massacres, as mutilações, as guerras, o terrorismo, os cercos e as catástrofes – ao longo dos séculos –, que transformaram este local num campo de batalha quase em permanência (Simon Montefiore).

            Mas não leu e a tragédia pode estar ali, ao virar da esquina…

[O Despertar, António Inácio Nogueia]

14
Jun18

Praia de Pedrógão


pequenos nadas

Testemunhos: Praia de Pedrógão. A MINHA praia.

 

Comecei a ir para o Pedrógão, a única praia do concelho de Leiria, há 52 anos, altura em que iniciei o namoro com a minha mulher que, por sua vez, colocou os pés no areal branco, muito mais cedo do que eu, há 72 anos – uma vida.

Há coisas que me marcam. Uma imagem, um cheiro, um som, uma palavra, um silêncio.

Este lugar tinha tudo isso e abraçou-me até aos dias de hoje. O seu Mar imensamente azul e aquele Sol que sempre nasce tímido, mas se encosta ao azul das águas, deslumbrado e deslumbrante, foram, quantas vezes, os meus companheiros!... Com esse mesmo Sol que desaparece em paz na linha do horizonte, por entre tons de vermelho e de amarelo vivos, rememorei momentos de felicidade simples.

No Pedrógão passei muitos dos meus tempos de lazer, mas também de reflexão. Aqui escrevi as partes mais importantes dos livros que tenho vindo a publicar, (des) lembro o dia de amanhã, o azedo da vida, o egoísmo mesquinho de alguns e a perfídia perversa de tantos outros.

Esse sítio é, para mim, o porto de abrigo onde atraco o meu barco viageiro para refazer forças... é a box onde encosto o carro da vida quando finalizo mais uma corrida…

Quando era jovem, e só vinha no mês de Agosto, a chegada era um alvoroço mas a partida dolorosa. Sentado no paredão da esplanada pensava, olhando o mar, como teria começado tudo aquilo, quem teria sido o primeiro habitante e porque teria escolhido aquele sítio de sonho entregue às gaivotas, aos ventos e às espumas. Olhava-as acima do mar e da costa, brancas, ligeiras, finas. Elas voavam, puras e livres, como eu gostava de ser!...

Respirava fundo e armazenava, para o resto do ano, as últimas brisas e aromas, sonhos de amor. Aspirava a fragrância da inesquecível maresia que saracoteava pela aragem morna. Levava tudo comigo. O Atlântico e o barco da Xávega que parecia vogar por uma floresta de estrelas.

Hoje, tudo se passa da mesma maneira, só o fôlego do respirar o mundo já me abarca e sufoca, por via da idade que não se compadece com a utopia e o sonho.

Devo muito a esta terra e às gentes que conheci.

Foram os seus antepassados que lançaram a rede pela primeira vez e construíram as primeiras barracas. Povoaram dunas e deram vida ao local. Enfrentaram a fúria do primeiro mar. Afinal, eles começaram tudo e não encontraram nada.

Muito do que senti, ainda sinto, está plasmado em três livros editados sobre o Pedrógão. Um deles, do grande escritor Aquilino Ribeiro, é uma pérola preciosa, uma obra de valor inestimável da literatura portuguesa que todos deveriam ler. A Batalha Sem Fim, assim se designa a obra, deve ser meditada por todos os pedroguenses. Outros dois há que também é de conveniência conhecer e descobrir por dentro. Refiro-me ao da escritora Adelaide Félix, Hora de Instinto e ao escrito pelo autor destas palavras, Praia de Pedrógão: Locais, Gentes e Memórias. Todos farão, para sempre e inequivocamente, parte do património da praia.

Ao longo destes tempos já duráveis, em que convivi de perto com esta terra, pude acompanhar ocasiões de desenvolvimento eufórico, com repercussões futuras irreparáveis, e outras de acabrunhamento e desprezo. Momentos de crescimento anárquico, hoje à vista quando se olha em redor para o edificado descaracterizador do local. Tombaram-se edifícios que podiam preservar a história da terra.

O poder político de diversas personalidades que aqui passavam férias, teve muita influência, nalgumas circunstâncias, quer para o bem quer para o mal. Mas o que mais incomodou quem amava esta terra, foi o desapego do Poder Local em períodos, por vezes longos, acarretando a sua única praia ao atraso social, cultural e económico. Mandatos houve em que se evidenciou um desprezo fatal e outros em que subsistiu um olhar mais atento. Valeram, muitas vezes, as vozes reivindicativas de algumas associações locais, organizações de cidadãos, que não se conformavam com a situação, tais como a Sociedade de Defesa e Propaganda da Praia do Pedrógão e a Associação Cultural e Desportiva da Praia do Pedrógão.

No entanto, toda esta gama de desinteresses fez-se sentir, mormente em tempos mais remotos, no quinhão mais pobre – o Casal Ventoso. Hoje começo a reconhecer mudanças significativas, fazendo-o ombrear com a praia das ditas elites do antigamente.

[ Despertar, António Inácio Nogueira]

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