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CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

17
Jan19

Salgueiro Maia


pequenos nadas

P`lo INTERESSE DESPERTADO

COM A DEVIDA VÉNIA AO AUTOR de N` BIGORNA, DAVID MARTELO.

http://www.a-bigorna.pt

Salgueiro Maia.jpg

 

CRÓNICAS DOS FEITOS POR GUIDAGE OU OS DIFÍCEIS CAMINHOS DA LIBERDADE

 

A acção decorre na Guiné no ano da graça de 1973, num Maio em fim de época de chuvas. A subunidade a que pertenço tem oficialmente a sua comissão terminada, está no que se chama “mata-bicho”. O dia 5 de Maio nasceu calmo; no entanto, cedo se notou uma azáfama anormal de meios aéreos. Pelas 07.00 ouviu-se forte tiroteio, pelo que, tendo-me dirigido ao rádio, ouvi grossa confusão de pedidos, de apoio aéreo, de apoio de artilharia, de evacuação, etc. Para cúmulo, tudo aquilo partia de um destacamento a cargo de um pelotão da minha companhia e sem eu ter conhecimento de qualquer acção das NT1 nessa zona. Face à confusão no rádio e ao desconhecimento do que se passava na zona, segui para o meu destacamento com o efectivo disponível, que era de cerca de 10 homens. No destacamento de C..., transformado em PC 2 avançado, amontoavam-se, sentados no chão, cerca de 150 homens que se encontravam de reserva; o ambiente era de nervosismo. Pouco depois de ter chegado, novo contacto do PAIGC com outro bigrupo das NT. Dos primeiros contactos resultaram 6 mortos para as NT, incluindo 3 milícias, vários feridos graves e o destroçar do bigrupo, que deixou no terreno os mortos com o respectivo material e equipamento, de que se salienta: 3 equipamentos completos, 1 metralhadora HK21 completa, 2 espingardas G 3, 1 emissor-receptor e outro material diverso. Os sobreviventes foram aparecendo no destacamento de C... cobertos pelos helicópteros e aviões que os foram sobrevoando até chegarem à estrada. Do segundo contacto, resultaram 1 morto e 3 feridos graves e a captura pelo PAIGC de um equipamento completo, 1 espingarda G 3 e um morteiro de 60. Ao contrário do primeiro contacto, os homens permaneceram no terreno, pois não sabiam como sair de lá, nem tão-pouco sabiam como garantir as evacuações dos mortos e feridos; pediam pela rádio para lhes acudirem. Face à situação, o comandante do batalhão manda avançar a companhia em reserva para acudir aos camaradas, mas, pura e simplesmente, a companhia recusa-se a avançar. Fico tão enojado com esta cena que, tendo como único pessoal sob o meu comando os 10 homens que tinham vindo comigo mais outra secção do destacamento de C..., disse-lhes que eu ia buscar os homens que estavam na mata, se houvesse mais alguém que não fosse cobarde podia ir comigo. As 2 secções minhas e mais 5 homens subiram comigo para 3 Unimogs 404 e, de imediato, fomos acompanhados por 2 autometralhadoras Panhard do esquadrão que actuava na zona e que, também voluntariamente, foram recuperar o pessoal que se encontrava perdido na mata. Para quem não conheceu a mata da Guiné, é difícil explicar como se consegue ir a corta-mato com viaturas tendo de encontrar passagem por entre as árvores, os arbustos, o capim alto, as ramagens com picos e, ao mesmo tempo, seguir uma direcção certa, rumo a cerca de 60 homens deitados no chão. Para fazer 7 km demorámos cerca de hora e meia, apesar de tentarmos ir o mais depressa possível. Depois de rotos pela vegetação e cansados de correr ao lado das viaturas, chegámos ao local de combate; ainda pairava no ar o cheiro adocicado das explosões; os homens tinham um ar alucinado, de náufrago que vê chegar a salvação, mas, em lugar de mostrarem a sua alegria, estão ainda na fase de não saber se é verdade ou não. 1 Abreviatura de «Nossas Tropas». 2 Abreviatura de «Posto de Comando». 2 Mando montar segurança à volta da zona; pergunto pelos feridos ao primeiro homem que encontro – tem um ar de miúdo grande a quem enfiaram uma farda muito maior que ele, parece de cera – olha-me como sem me ver e aponta-me com o braço. Sigo na direcção apontada, depressa vejo um bando de mosquitos e moscas, já sei que à minha frente tenho sangue fresco. Debaixo de uma árvore estão estendidos 5 homens; o capim está todo pisado; alguns dos homens estão em cima de panos de tenda; no chão estão várias compressas brancas empastadas de vermelho; o chão parece o de um matadouro, há sangue coalhado por todo o lado, a maioria do sangue vem de um dos homens que já está cheio de moscas. Dirijo-me para ele, está com cor de cera, está praticamente nu, olha-me como que em prece, ninguém geme, o silêncio é total. Trago comigo o furriel enfermeiro e um cabo maqueiro. Mando-os avançar assim como as macas. Dirijo-me ao ferido mais grave, o ferimento provém-lhe da perna, tem em cima dela várias compressas empastadas de sangue; tiro as compressas e vejo que o homem não tem garrote. Pergunto estupefacto porque é que lhe não fizeram um garrote. Alguém me respondeu que o enfermeiro está ferido. Começo a sentir raiva. Continuo a tirar as compressas, que foram postas a monte, sem sequer terem sido apertadas. O homem tem um estilhaço na zona da articulação do joelho. Vê-se a tíbia; toda a carne se encontra como que seca, envolvendo um buraco do tamanho duma laranja. Enquanto o enfermeiro lhe presta os primeiros socorros, quase 2 horas depois do ferimento, dou-lhe uma palmada no ombro e digo-lhe: «Já estás safo. Vamos evacuar-te», mas acreditando pouco no que estou a dizer. Os restantes feridos não são muito graves, para além de um que tem um buraco no peito e deve ter hemorragias internas. O dia começa a cair. Na zona não é possível fazer descer helicópteros. Resta a solução de, na caixa dos Unimogs, levar os feridos a saltarem, como fardos, em cada salto da viatura. Quando estamos para arrancar, ouvem-se várias explosões. Todo o mundo vai para o chão. Fico sem perceber, não ouço tiros de armas ligeiras. Na fracção de segundo em que, deitado no chão, tento perceber o que está a acontecer, começamos a ouvir como que o barulho de aviões a jacto. São os “jactos do povo”, foguetões de 122 mm que o PAIGC atira para a povoação, sede do batalhão. Como a guerra não é connosco, mando retirar. O ferido da perna é acondicionado com as roupas do morto e todos os panos disponíveis na caixa do Unimog. O cabo enfermeiro segue sentado a seu lado com um frasco de soro nas mãos. O morto é colocado ao lado, embrulhado num pano de tenda; tem o peito aberto, parece um porco no talho. Pouco depois de iniciar o regresso, o ferido na perna morre. Nunca falou ou gritou. Guardo dele uns olhos assustados a brilhar, numa pele branca e seca, a ficar vazia de vida porque, em 60 homens, ninguém sabia o mais elementar em primeiros socorros – fazer um garrote. Chego ao destacamento de C... Estão à minha espera uma coluna com ambulância para evacuar os feridos por terra, o médico do batalhão receita injecções e dá conselhos aos enfermeiros. Sigo no Unimog, que agora só tem cadáveres. Agradeço ao pessoal que saiu comigo a sua dedicação e digo-lhes que, mais que os agradecimentos, a nossa consciência nos recompensará. Mando preparar a minha secção para regressar ao meu destacamento. Enquanto se forma a coluna para Bissau e o meu pessoal se prepara, dou comigo a contemplar os mortos de olhos e boca aberta com aspecto de quem não compreende nada do que aconteceu. Mecanicamente, tiro os atacadores das 3 botas dos mortos, ato-lhes os queixos, as mãos em cruz, os pés juntos, com a água do cantil molho-lhes os olhos e fecho-lhos. Olho para a minha obra e também não entendo. Entretanto, os seus camaradas contemplam de longe mas não se acercam. Ainda agora, sempre que um Senhor General da Brigada do Reumático diz que «a guerra estava ganha», me vem à memória a morte estúpida daqueles homens e a vitória que eles ajudaram a reparar.

DE SALGUEIRO MAIA

 

11
Jan19

P`ra Memória Futura: O Centenário do Armistício de um Selvático Morticínio.


pequenos nadas

 

            “Quando falo em memória, penso principalmente em falta de memória”, afirma-o Rui Tavares. Eis um pensamento de alerta. Desencadear uma guerra é fácil, mas acabá-la é complicado. Assim aconteceu com a I Guerra Mundial.

            Como expressa o estribilho, por todos conhecido, a I Guerra Mundial acabou à décima primeira hora do décimo primeiro dia do décimo primeiro mês de 1918. O mundo emudeceu. Num ápice, o silêncio tomou conta dos que não pereceram. Estupefactos ficaram. Logo após, veio a festa. A festa feita com o pouco que restou. Quase nada.

            Os nossos soldados haviam lutado aguerridamente nas trincheiras da Flandres ou perto de Verdun, onde os ratos, a fome, o frio e a metralha, transformavam a vida em morte anunciada. Todos os dias. Se pudessem colocar o olho de fora das valas tenebrosas, observavam, em redor, uma devastação inenarrável salpicada de cadáveres mutilados com corações desapegados.

            Partiram de Portugal mais de 100 mil homens para as diversas frentes de guerra. Mal treinados, mal equipados, mal fardados. Com a marmita vazia.

Cerca de 53 mil chegaram a França em 1917, e, dos excedentes, a maioria embarcou em direcção a África. De acordo com vários historiadores credenciados, morreram em França 1935 militares.

            A I Guerra Mundial, foi um morticínio. O seu balanço final calamitoso. Em 4 anos de guerra, foram mobilizados mais de 70 milhões de soldados. Morreram 10 milhões de pessoas e mais de 20 milhões ficaram feridas. O conflito originou mais de 10 milhões de refugiados, foram contabilizados mais de 6 milhões de prisioneiros. O número de órfãos atingiu também os 6 milhões. A pobreza que se seguiu é inclassificável. A destruição das cidades, vilas e aldeias, fizeram chorar lágrimas de sangue. Restavam destroços. Ao olhá-los, os sobreviventes pensavam que tinham aportado ao Inferno. Também ao fim de todas as guerras. Afinal só chegaram ao Inferno. Foi tudo em vão, dali a uns anos, viveu-se a II Guerra Mundial. E a III pode estar à nossa beira incrivelmente veloz, acessível a todos, a qualquer hora e em qualquer lugar, basta os humanos não repensarem os seus modos de agir e cuidar.

            A xenofobia, o racismo, o nacionalismo, estão a florescer na Europa e noutras partes do globo. Aonde vai levar este ressurgimento? Eu sei que todas as guerras começaram por aqui. Tenho medo. Sinto a Europa e parte do resto do Mundo, a fechar-se ao outro. Aos refugiados, por exemplo, o que me atira para memórias extremamente cruéis. Não pretendo viver, os anos que me restam, numa Europa Fortaleza de que tanto falava Hitler.

             Tenho horror às pátrias fechadas e às fronteiras com muros. Tenho aversão às fortalezas de Trump. A III Guerra pode passar por aqui. Morrer será doutra forma: porventura, sem canhões. Possivelmente sem armas nenhumas, apenas com algoritmos e folhas de Exel.

             Mas morre-se e despenha-se tudo. Tudo o que foi construído, com tanta euforia e certezas p`ra ficar de pé. Na era da robotização e do ciberespaço morre-se, mas, vertiginosamente, Haverá muito sangue, sangue incolor computacional.

Observação Importante

Portugal na 1ª Guerra Mundial-Uma História Concisa. Vários autores, 1162 páginas, poderá ser gratuito a pedidos para cphistoriamilitar@defesa.pt

 

25
Dez18

NATAL, NATAIS


pequenos nadas

 

       

DSC00249.JPG

 

   

  As memórias são um dos bálsamos da vida. A minha passagem pela Educação de Adultos, pela Animação Sociocultural e pala Sociologia, deram-me a certeza de que elas são fundamentais para assegurar e consolidar a coesão e a identidade dos povos. As memórias e o conjunto de cultos, que geralmente lhe estão associados, não ficam insensíveis no tempo. Antes evoluem e modernizam-se com novos elementos. Ajudam a dar pujança ao presente.

             As memórias, ao contrário do que muitos pensam, são um processo complexo de pensamento e acção. Não é só saudosismo ou retrocesso, é antes processo reflexivo. As memórias do Natal, por exemplo, estão em mim e na comunidade profundamente enraizadas. Apresentam-se como uma matriz complexa. Exprimem uma multiplicidade de valores sociais, culturais e económicos, como os da solidariedade e da paz. Da pobreza e da riqueza.

             Socorrendo-me de todas estas abordagens, as minhas memórias ajudam-me a compreender o que era e o que é, e porque era e é assim, e o que virá a ser. Desta forma, posso melhor fundamentar o presente e preparar o futuro. Por exemplo, questionar-me-ia se no meu tempo de menino havia o Natal dos pobres e o dos ricos. Tal como hoje, só que os pobres eram diferentes e os ricos também. Interrogar-me-ei, se no meu tempo de menino a solidariedade se exercia nesse dia e quase só nesse dia. Um dia chegava para aconchegar as consciências. Hoje tudo se repete, só que se exerce de outra maneira e utilizando outros instrumentos. Poder-se-ia perguntar se havia alguém, no meu tempo, celebrado no Natal, à volta da qual tudo se fazia. A resposta é afirmativa. E hoje? Também existe, construído pelo consumismo desenfreado. No meu tempo o Menino Jesus era o centro de tudo. Hoje é o Pai Natal.

            A consoada é de ontem e de hoje. Imutável no significado simbólico, com a complexidade dos vários tempos que acarreta. Ela joga um papel fundamental. É uma belíssima viagem aos torrões fantásticos da infância e à geografia afectiva dos lugares que guardamos como inatacáveis reservas de memória. Noite, geralmente fria, ontem e hoje, árvores despidas a altearem os ramos para o céu, campos, estradas, ruas, aldeias e cidades vazias, ontem e hoje. A consoada tem não sei quê de unção, de poesia, de inspiração, que a todos, faz reunir. Ontem e hoje.

             Mas há quem continue calcorreando caminhos sem destino, desertos. São os deserdados, os pobres e meninos de rua, os sem abrigo, os desalojados, um sem fim de seres humanos nesta Terra hipócrita e desigual. Ontem e hoje.

Por isso há NATAL e NATAIS.

            A todos dedico o poema que se segue. Aos que têm Natal, para que façam Natais todos os dias. Aos desprotegidos para que possam ter NATAL.

NATAL, NATAIS...

Não Haverá Natais Todos Iguais!...

 

O Natal, todos os Natais, embocam alegrados

Nos palácios dos abastados;

Nas habitações dos remediados;

Nas barracas dos deserdados.

E p’las ruas, sem portas, dos sem-abrigo,

Vagueia o Menino que lhes afaga o perigo.

 

Não há Natal, há Natais,

Pois não são todos iguais.

 

Há o Natal diletante;

Há o Natal abundante;

Há o Natal bastante;

Há o Natal humilhante.

E há o Natal do desventurado caminheiro,

Pr’a quem uma moeda é muito dinheiro.

 

Não há Natal, há Natais,

Pois não são todos iguais.

 

Há quem tenha prendas na árvore de Natal;

Há quem tenha uma árvore decorada menos-mal;

Há quem nela dependure apenas a vida tal e qual;

E há quem não tenha vida sequer para tal.

Farrapo solitário que se arrasta na desesperança,

À procura das migalhas que caem na roda-viva da dança.

 

Não há Natal, há Natais,

Pois não são todos iguais.

 

Há meninos que torvelinham em redor de presentes e iguarias;

Há meninos que têm um brinquedo e algumas outras alegrias;

Há meninos que se têm a si próprios e que degustam bugiarias;

Há meninos que adormecem cedo p’ra cearem sonhos e grosserias.

E, lá fora, os meninos de rua assomam às janelas do velho casario,

Enfarinhando na boca mancheias de nada, só vazio.

 

Não há Natal, há Natais,

Pois não são todos iguais.

 

Há velhos aconchegados com um Natal ameigado;

Há velhos sozinhos comendo a filhó do passado;

Há velhos desatados da vida p’ra quem está tudo acabado;

Há velhos desabrigados sorrindo à morte.

E por detrás de uma cortina e de uma réstia de luar,

Está o ancião e o Menino coando a noite a regelar.

 

Não há Natal, há Natais,

Pois não são todos iguais.

 

Natal, Natais,

Ouvi todos os vindouros Natais:

Enquanto a palavra estiver ao lado dos tais,

E as verdades e valores não forem sempre mais,

Jamais haverá Natais todos iguais!...

 

António Inácio Nogueira

 

09
Dez18

O ARTISTA


pequenos nadas

Testemunhos

            O artista é, de um modo geral, uma pessoa envolvida na criação do fazer artístico. Esta definição simplista que tem variado, consideravelmente, ao longo dos séculos e nas diferentes culturas, está intrinsecamente ligada ao conceito de arte, também controverso e mutável. Cientistas credenciados têm falhado na tentativa de enquadrar o que se entende por artista dentro de parâmetros bem determinados e de valor universal (veja-se Wikipédia). Artista é também definido, pelo dicionário Priberam, como pessoa que pratica uma das belas artes, interpretando, por exemplo, uma obra musical, teatral, cinematográfica, coreográfica e muitas outras, exprimindo nelas o sentimento da arte e do belo. Também deixa aberta a porta, à designação pejorativa de manhoso, finório e impostor. Estas explicações vagas permitem que se exorbite para o artista da bola, artista de rua, de artes marciais, circenses, ginástica… E assim sendo, porque não qualificar o artista da ciência, da política, da informática, da economia e tantos outros.

          E arte, sendo obra do artista, como se definirá então? Será uma das melhores maneiras do ser humano expressar os seus sentimentos e emoções? Podemos entender a arte como a actividade humana ligada às manifestações de ordem estética ou comunicativa, praticada por intermédio de uma enorme variedade de linguagens, com o intuito de expressar emoções e ideias? Ou ainda a manifestação de alguma habilidade especial, a propagação de uma novidade, ineditismo, inovação, ou, a invenção de coisas que dêem uma resposta a um dado problema? (veja-se Wikipédia).

            Ó meus amigos (!), não se aproveitou tudo o que foi explanado para falar, nos dias de hoje, em nota artística nas diversas modalidades desportivas? O Ronaldo não é um artista? E o Trump? Então porque não chamar, por diversos motivos, artista a um primeiro-ministro? Até se deve sentir vangloriado, desde que não caiba no «gozo» sarcástico daqueles que não perdem a oportunidade para lhe atirarem a pedra: «saíste-me cá um artista! …»

          Quando o nosso Primeiro-ministro António Costa foi apelidado de artista pelo ex-presidente da República Cavaco Silva, nas suas memórias (que não são, por hábito, muito inovadoras), fiquei perplexo, o que me levou a indagar o significado de tal palavra, como acima se prova. Mas reparem, ela não é nenhuma invenção de Cavaco Silva, pois remonta ao século XVI. O nosso ex-presidente fala de Costa como um artista que possui a arte de “nunca dizer não aos pedidos que lhe eram [são] apresentados.” Ou seja, poderá ser manhoso, finório ou impostor, como consta da definição já arriba plasmada.

          Senhor Primeiro-Ministro, não se importe de ser artista, – excepto se a palavra for associada a desígnios malévolos. Mas isso, só o próprio que assim escreve sabe… está fechada a sete chaves nas catacumbas das memórias.

Testemunhos. O Artista.

            O artista é, de um modo geral, uma pessoa envolvida na criação do fazer artístico. Esta definição simplista que tem variado, consideravelmente, ao longo dos séculos e nas diferentes culturas, está intrinsecamente ligada ao conceito de arte, também controverso e mutável. Cientistas credenciados têm falhado na tentativa de enquadrar o que se entende por artista dentro de parâmetros bem determinados e de valor universal (veja-se Wikipédia). Artista é também definido, pelo dicionário Priberam, como pessoa que pratica uma das belas artes, interpretando, por exemplo, uma obra musical, teatral, cinematográfica, coreográfica e muitas outras, exprimindo nelas o sentimento da arte e do belo. Também deixa aberta a porta, à designação pejorativa de manhoso, finório e impostor. Estas explicações vagas permitem que se exorbite para o artista da bola, artista de rua, de artes marciais, circenses, ginástica… E assim sendo, porque não qualificar o artista da ciência, da política, da informática, da economia e tantos outros.

          E arte, sendo obra do artista, como se definirá então? Será uma das melhores maneiras do ser humano expressar os seus sentimentos e emoções? Podemos entender a arte como a actividade humana ligada às manifestações de ordem estética ou comunicativa, praticada por intermédio de uma enorme variedade de linguagens, com o intuito de expressar emoções e ideias? Ou ainda a manifestação de alguma habilidade especial, a propagação de uma novidade, ineditismo, inovação, ou, a invenção de coisas que dêem uma resposta a um dado problema? (veja-se Wikipédia).

            Ó meus amigos (!), não se aproveitou tudo o que foi explanado para falar, nos dias de hoje, em nota artística nas diversas modalidades desportivas? O Ronaldo não é um artista? E o Trump? Então porque não chamar, por diversos motivos, artista a um primeiro-ministro? Até se deve sentir vangloriado, desde que não caiba no «gozo» sarcástico daqueles que não perdem a oportunidade para lhe atirarem a pedra: «saíste-me cá um artista! …»

          Quando o nosso Primeiro-ministro António Costa foi apelidado de artista pelo ex-presidente da República Cavaco Silva, nas suas memórias (que não são, por hábito, muito inovadoras), fiquei perplexo, o que me levou a indagar o significado de tal palavra, como acima se prova. Mas reparem, ela não é nenhuma invenção de Cavaco Silva, pois remonta ao século XVI. O nosso ex-presidente fala de Costa como um artista que possui a arte de “nunca dizer não aos pedidos que lhe eram [são] apresentados.” Ou seja, poderá ser manhoso, finório ou impostor, como consta da definição já arriba plasmada.

          Senhor Primeiro-Ministro, não se importe de ser artista, – excepto se a palavra for associada a desígnios malévolos. Mas isso, só o próprio que assim escreve sabe… está fechada a sete chaves nas catacumbas das memórias.

[ António Inácio Nogueira]

21
Nov18

Momentos de reflexão


pequenos nadas

 

TESTEMUNHOS. Dois Momentos de Reflexão.

 

Primeiro Momento

Há uns anos li um texto de Paulo Tenreiro e fiquei a saber o que são “campos sociais semi-autónomos”. Entendi que são todas as “áreas da vida social com capacidade interna para produzir regras e costumes e, simultaneamente, vulneráveis às regras e decisões provenientes do espaço mais amplo que as rodeia.”

Estamos em presença de uma situação de pluralismo jurídico, dentro do próprio Estado. Assim sendo, na minha modesta opinião, a instituição militar constitui-se como um «campo social semi-autónomo» em virtude das suas funções específicas que todos conhecemos de grande riqueza conceptual (a razão de ser diferente), – uma ordem constitucional paralela em confronto com a sociedade civil.

 Mas porquê toda esta verborreia teórica? Os meus leitores já perceberam. Queremos chegar ao problema de Tancos, ilustrativo de tudo o que dissemos atrás. A posição clássica das instituições militares tendentes a questionar qualquer ponto de vista que não surja do seu perímetro institucional, dá razão a todos aqueles que criticam, «acerrimamente», a actual disputa entre a polícia judiciária e a sua congénere militar, tornando o caso caricato. A prisão de elementos da polícia judiciária militar, a demissão do Ministro da Defesa e do Chefe de Estado-maior do Exército, o ambiente opaco, pérfido e desleal vivido, e, a cada dia, avolumado, as mentiras, os silêncios… «metamorfoseiam» este caso num melodrama fantástico.

O que se vive em redor de tudo o que toca o roubo das armas de Tancos é absolutamente insustentável e deplorável. Tal estado de coisas, faz-nos interrogar sobre o estado das Forças Armadas e da sua organização.

Umas forças armadas que não sabem guardar as suas armas, estão desregradas … é por isso que já se fala na conscrição e no serviço militar obrigatório.

 

 

Segundo Momento

Nos últimos tempos fomos invadidos por notícias boas, dando-nos conta de que a esperança média de vida de homens e mulheres continua a aumentar a passos largos.

Por mera casualidade, e, no dia em que saiu um desses resultados, estava a ler o livro de Yuval Harari, “ Sapiens de Animais a Deuses História Breve da Humanidade” da editora Elsinore. Vertendo os olhos nele, vim a encontrar respigos da problemática em apreço, referente a épocas remotas, que resolvi transmitir aos meus leitores, para poderem constatar o salto dado pela civilização, nessa área, fruto de muitas conquistas.

Eduardo I de Inglaterra (1237-1307) e sua esposa a rainha D. Leonor, tiveram vários descendentes. «Os seus filhos usufruíam das melhores condições, dos melhores cuidados que podiam ser oferecidos na Europa medieval. Viviam em palácios, comiam tanto quanto queriam, tinham bastantes roupas quentes, lareiras bem fornecidas, a água mais limpa disponível, um Exército de criados e os melhores médicos.» Afirma Harari que a rainha deu á luz 16 crianças entre 1255 e 1284. E agora atentem: 10 dos seus 16 filhos morreram durante a infância, apenas 6 sobreviveram para lá dos 11 anos e só três ultrapassaram os 40 anos. Não há dúvida que a situação mudou muito, graças a múltiplos factores que não vamos aqui escalpelizar. E vai mudar muito mais…

Diz-nos Yuval Harari: “…os engenheiros genéticos conseguiram, recentemente, aumentar em seis vezes a esperança média de vida das minhocas. Poderão fazer o mesmo pelo homo-sapiens…”. E adianta: “… alguns académicos sérios sugerem que em 2050 alguns dos seres humanos se tornarão «amortais», não imortais, porque continuarão a poder morrer de acidentes ou outros incidentes fatais…”. Na sua ausência tornar-se-ão indefinidamente. Até.

Observação À Margem

No dia 21 de Outubro pelas 14:30 H, no grande auditório do Convento de São Francisco, vai proceder-se ao lançamento da Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea, Vol X.

O autor desta crónica e colaborador de O Despertar, foi seleccionado para constar dessa Antologia com um poema que verteu para o papel no ano de 2004.

Este acontecimento é uma iniciativa das Edições Planeta.

Artigo de António Inácio Nogueira, in Jornal O DESPERTAR

 

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