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CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

18
Jul18

101 Anos, Parabéns Amigo!


pequenos nadas

 

 

          Meu Caro

 

            Parabéns e que faças muitos mais. Apesar da tua avançada idade, estás bem de saúde, andas pelo teu pé e tens ainda o vigor da velhice lúcida. Apesar de viveres num mundo em mutação célere, não te perturbam as ondas que nos inundam, o poder da cibernética, as redes sociais efusivas e quantas vezes decisivas, o ruído que perpassa o espaço, o caos e o acaso.

            Vejo-te sempre pronto a estudar. Tu és o paradigma do ditado popular, «aprender até morrer». É a tua forma de estar, numa época em que o homem é coagido a conciliar, num todo, o racional e o intuitivo. Tem de aprender a imaginar, raciocinar, recriar, praticar, descobrir, experimentar, investigar, inovar, acreditar e amar, qual caldeirada, por vezes, dissipada no cosmos e no nada. Como tu ainda consegues resistir e apresentas, sobre isso tudo, reflexividade tamanha!

            A era da informação está aí, e tu, meu caro amigo, encaras a nova problemática com lucidez, apesar da tua longa idade. Eu fico pasmado, de boca aberta até, ao ouvir-te falar da era digital, era do conhecimento, do virtual, do incorpóreo, do ciberespaço, do proconsumo, do sef-help, do vazio, da idolosfera, da infosfera, da tecnopolia, da irracionalidade.., palavras que eu próprio, desconhecia, vindo a saber, mais tarde, terem sido investigadas por Pierre Lévy.

            Encontrei-te sentado, no teu cadeirão puído pelo tempo, numa das últimas visitas que te fiz, daquelas habituais, sempre confortantes, pelo aprendizado havido e discutido. Vi-te com um livro nas mãos sobre cibercultura, nele basicamente marcada pelas redes telemáticas, pela navegação planetária da informação e por formas de sociabilidade on-line, temas que, só mais tarde, em trabalho de doutoramento aprofundei. Pasmei! Que posso mais esperar de ti? Que nos fales sobre a Internet realçando as relações à distância entre pessoas sem rosto? Sobre o novo sujeito comunicacional? Sobre o ciberespaço e os novos grupos humanos? Vá, fala, fala, sobre isto tudo…

            Sei também te incomodarem o terrorismo, as ameaças transnacionais e a segurança. Anda, anda, diz-me porquê?

            Tivemos, meu amigo velho, há muito pouco tempo, uma forte discussão sobre tudo isso. E o que tu sabias sobre a proliferação das armas de destruição massiva, o crime organizado transnacional, a degradação do ambiente! Por vezes, tive de me calar para não te exibir tanta ignorância!

            Só ainda não ouvi da boca o meu amigo, o que é invulgar na sua idade, uma palavra sobre o silêncio, baluarte erguido contra do ruído que perpassa a sociedade actual. Será desinteresse por um assunto, para mim tão caro, na provecta idade que respiro? Porventura esquiva-se à discussão sobre a problemática, sabendo que o silêncio já lhe dói, e a solidão o envolve?

            Recentemente, apresentei-lhe o problema. Comecei a dissertar, enquanto o meu amigo, de 101 anos, me escutava atentamente! …

            Argumentava eu:

            «Percebi que tinha uma enorme necessidade de silêncio. Então, falo com ele de modo a aproveitar todo o seu potencial. Sabes que a natureza fala comigo através do silêncio, e, quanto mais silencioso eu fico, mais ouço? O silêncio da natureza tem o máximo valor, para mim é claro, e é aí que me sinto mais à vontade. Tenho, no entanto, a convicção de que o silêncio é sobretudo uma ideia. Uma noção que cada um tem de criar para si. Eu já criei a minha!».

            Amigo, atenta-me só mais um bocadinho:

            «Andar a pé não é uma coisa transcendente, mas tem, para mim, o seu valor. Faço uma hora de caminhada diária, e, durante esse período, sou capaz de desligar-me do mundo e não ouvir ruído. Gosto da ideia de um Deus que esteja contido no silêncio. A poetiza Emily Dickinson ensinou-me que “o cérebro é mais vasto do que o céu».

            O meu amigo ouviu, ouviu, sempre em silêncio. De repente, levanta-se da sua cadeira, “com cara de poucos amigos”, fita-me bem nos olhos, prenúncio de que estava farto da minha retórica, e, lá vai disto:

            «Blá, Blá, Blá, pára lá com isso tudo. Já li o livro, Silêncio Na Era do Ruído de Erling Kagge, e está lá plasmado tudo o que o teu discurso proferiu. Será que não foste influenciado por ele? Digo-te, és muito egoísta, só falas do teu silêncio, e o dos outros? O dos deserdados da vida, dos sem – abrigo, dos refugiados que fogem da guerra e da fome, e de tantos outros… com elevados sinais de pobreza, multiplicando-se, neste mundo cada vez mais desigual Que preocupações por eles demonstras? Nenhumas, nada de nada».

            Fiquei estupefacto, envergonhado… e, na primeira oportunidade, mudei de assunto. «Velho, vamos lá beber uma taça e “cantar os parabéns a você”».

            Assim foi.

            Ofereci-lhe, depois, um poema meu, feito a propósito, resultante da minha arte de «poetar», sem pretensões, que ele por vezes aprecia. Li-lho e ouviu, pareceu-me com interesse, tentando, porventura, percepcionar o seu conteúdo. Depois acrescentou: «está lá tudo, tudo o que diz respeito ao mundo actual, saibamos interpretá-lo!...».

 

 

A Torrente da Vida

 

Estrela candente destruída,

Corpo sem peso, liberdade,

Vazio, constelação sem vida,

Inércia, imponderabilidade.

 

Universo perdido,

Big-Bang oculto,

Pulsar pressentido,

Quark vulto.

 

Estrelas novas, nebulosas,

Acaso, caos, probabilidade,

Cometa azul, spin quase rosa,

Turbilhão, falsa verdade.

 

Moléculas multiplicadas,

Câncer, átomos visionários,

Constelações vendidas,

Planetas estacionários.

 

Orbital vazia, electrão expatriado,

Núcleo nu, protão p’ra frente.

Ruptura, futuro magoado,

Passado – presente, ligação doente.

 

Relação ciberespaço/energia,

Cibernética, virtual nascente,

Terror, incitação por magia,

Torrente, a vida da gente.

 

Despedi-me, do Bom e Sábio Velho, com um forte abraço, e disse: «Até sempre, amigo O DESPERTAR. Até para o ano. Espero estar presente no teu aniversário!»

[ António Inácio Nogueira, in O Despertar no seu último aniversário].

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