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CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

28
Jan18

Letras grandes e letras pequenas


pequenos nadas

A

B  Q  O..M

a,b,c,d,e,f,g,h.

            Não sou jornalista. Pouco percebo sobre as suas técnicas. No entanto, sou leitor assíduo e diário de jornais e colaboro com um jornal centenário de Coimbra. Tais factos dão-me, pelo menos, a faculdade de ser crítico.

            Verifico, com frequência, que as primeiras páginas de alguns jornais são apelativas, mas quase sempre pouco consistentes em termos de veracidade factual. Tudo é explicitado em letras BEM GRANDES. A estratégia serve, quantas vezes, para cultivar a compra [os exemplos mais flagrantes são os jornais desportivos], incentivar os incautos e menos cultos à especulação e os mais cultos à indignação imediata.

            O que é mais grave é ler, noutro local, já a LETRA PEQUENA, o seguimento da notícia, e constatar que pouco mais informa ou já a desenvolve com um formato menos propagandístico ou desinformativo, deixando o leitor desvanecido.

            Há uma enormidade de casos, mas vou reportar-me a um exemplo que colhi, num dos jornais de Coimbra, em 8 de Janeiro de 2018.

            A LETRAS BEM GRANDES dizia-se na primeira página: “Câmara Municipal de Coimbra aprova hoje projecto para novo Portugal dos Pequenitos”. Ao ler fiquei preocupado e perguntei-me: para quê um novo, para quê desconjuntar uma obra já visitada por milhões de visitantes portugueses e estrangeiros…? um novo para fazer frente ao velho…? um novo para representar o presente, abandonando as memórias do passado, enjeitando o que é velho mas sempre novo?

            Levo os meus olhos a correr a página e, mais a baixo, o discurso da notícia serenou a minha consciência. Li então a letras muito mais PEQUENAS: “o executivo da Câmara de Coimbra deverá aprovar, hoje, o projecto da nova entrada para o Portugal dos Pequenitos, apresentado pela Fundação Bissaya Barreto”.

            Aliviado estou.

            A dicotomia letras GRANDES – letras PEQUENAS mete-se comigo, indigna-me. Olho para contratos bancários, de seguros, de energias diversas, empresas de televisão por cabo, internet e quejandas, e reparo nos discursos longos dos contratos, com linguagem hermética, cujo suporte está plasmado em letras MUITO PEQUENAS que muitos não conseguem ler nem entender.

            Indigno-me contra este comportamento dessas grandes empresas que tudo podem e ninguém afronta. Eu vou falando, dizendo, protestando, mas aonde chega a minha voz?

            No último contrato que me foi apresentado pela empresa fornecedora de energia, fui assoberbado com 14 páginas enviadas através da Internet, repletas de linguagem obscura e pouco cuidada. Comecei a pensar nas velhas e velhos deste país, arrumados nas periferias pobres e lúgubres, e escrevi aos responsáveis: “…indigna-me, veementemente, a forma como estes contratos são apresentados aos utentes. A linguagem imperceptível e misteriosa, para leigos, deixa-me com vontade de apresentar queixa às entidades reguladoras. Mas para quê? Que posso eu contra o poder inimaginável destas empresas? Que podem aquelas? E já agora, que podem os governos?

            Pergunto-me como será possível pessoas idosas, situadas nos subúrbios deste país dissemelhante, com baixas escolaridades e competências ao nível da compreensão textual, consigam assinar, responsavelmente, tanto papel com demência discursiva.”

            Não possuo a certeza, mas tenho a convicção de que mais uma vez são discriminadas. Não são só os fogos não!...OS FOGOS E TUDO O MAIS…

20
Jan18

Isabel de Aragão


pequenos nadas

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 São Rosas Senhor! …

            Esta semana fui a uma livraria, como faço habitualmente, e procurei o livro de Isabel Stilwell, “Isabel de Aragão Entre o Céu e o Inferno a Rainha Que Portugal Imortalizou Como Rainha Santa”, Edição Manuscrito de 2017. Folheei e fiquei surpreso com a quantidade de livros sobre mulheres rainhas que a autora já publicou. Menciono: “D. Filipa de Lencastre”, “D. Catarina de Bragança”, “D. Amélia”, “Ínclita Geração Isabel de Borgonha” e “D. Teresa”, mãe do primeiro Rei de Portugal que repousa na nossa Igreja de Santa Cruz.

            Regressemos ao livro sobre a Rainha Santa, mulher que casou em tenra idade com D. Dinis Rei de Portugal, (monarca agora tão falado, pois ligado ao Pinhal de Leiria) e junto dele governou durante longos anos. Após o enterro do Rei, a Rainha Isabel fixou residência em Coimbra e tomou o hábito da Ordem de Santa Clara. Morreu em Estremoz para onde se havia deslocado ao tentar o apaziguamento de um diferendo de guerra entre familiares íntimos. O cadáver regressou a Coimbra por desejo próprio em vida. Foi canonizada e o “venerando corpo incorrupto” jaz em Coimbra, cidade que a adoptou como Padroeira. O povo ama-a, será a palavra ajustada.

             Não sou historiador encartado para poder aquilatar do valor histórico do livro da Isabel Stilwell, no entanto, a sua leitura deixa-nos à descoberta e à curiosidade uma mão cheia de lugares por onde Santa Isabel andou e dá-nos a oportunidade de conhecer o motivo porque esteve em Bragança, Trancoso, Sabugal, Coimbra, Alenquer, Santarém, Leiria, Lisboa, Santiago do Cacém, Portalegre, Arronches, Estremoz, Santes Creus, Poblet, Saragoça, Tortos, Tarragona e Barcelona. Encontramo-nos em presença de um rico roteiro histórico – turístico que nos pode levar a, quando da visita a estas terras, querer conhecer o que andou por lá a fazer a Nossa Rainha.

            Os meus leitores perguntarão qual a razão deste artigo e da divulgação de acontecimentos que qualquer cidadão de Coimbra conhece. Eu direi.

          Na igreja de Santa Clara, de Coimbra, existe uma imagem da Santa Isabel, feitura do bem conhecido e talentoso Teixeira Lopes. Em meu entendimento, é um trabalho de muito merecimento artístico, tanto de escultura como de pintura.

          Ao longo da vida fui-me afastando do culto religioso. Hoje não o pratico, por motivos que são meus, íntimos. Mas aquela imagem, aquela mulher, por que mexe tanto comigo? Por que a visito e contemplo, sempre extasiado, quando desce à Cidade por altura da sua festa? Por que fico arrebatado com aquele baloiçar ritmado no cimo do seu andor? Por que me resto silencioso e reverenciado quando a vejo passar na Ferreira Borges ao som cadenciado dos «bastões», batendo no chão todos à uma: páás, páás, páás?

          A sua beleza serena, a posição de humildade curvada, a dádiva ao outro que a posição das mãos fazem lembrar e as rosas caindo, simbolizando a perfeição, a genuinidade, o amor ao próximo, o coração que bate pelo pobre, a paixão que assoma, a beleza da solidariedade, o ressurgimento da vida e do saber (São Rosas Senhor!...), aliviam-me a vida.

             Não raras vezes, frente a frente, lhe dediquei versos, como qualquer apaixonado:

 

Rainha, porquê este expatrio ingente,

Que invadiu a tua portuguesa gente?

Olhai-os, em redor,

Clamando tanta afeição presente,

E sê, como sempre clemente.

Oferta-lhes a tua razão de existir permanente,

De repente.

(…)

 

[06.07.2012]

 

Respondi à vossa inquietação? Espero bem que sim.

 

17
Jan18

Futebol


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 Duas finais de Taças de Portugal. Em Cima Taça ganha. Em Baixo Taça perdida.

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 [ Com a devida vénia a SAPO.pt]

 

Hoje vamos falar de futebol. Não vou esconder que me dá prazer a modalidade. Não tenho preconceitos como alguns que consideram ser «fã» um acto de deficiência cultural. Contudo, escondidos no «sótão», longe das vistas, apreciam os «prélios» do seu clube favorito.

          Fui sempre um amante do desporto em geral. Quando muito jovem o andebol, voleibol e atletismo eram os meus preferidos, e todos eles executava com regularidade. Quando regressei a Coimbra (terra onde nasci e deixei com tenra idade) para frequentar a Universidade, o futebol e o basquetebol tomaram conta das minhas preferências, sem no entanto os praticar. Tornei-me um adepto fervoroso da Académica. O futebol da Briosa era para mim uma paixão e cada jogo uma alegria vivida, debaixo de um nervosismo permanente. No extinto Estádio Municipal assisti a emocionantes jogos e no Estádio do Jamor a duas finais de Taças de Portugal inesquecíveis.

          A Académica praticava, nesses tempos, um futebol de causas. Não me esqueço da solidariedade expressa e praticada pela equipa de futebol a quando das lutas académicas. Este facto, mais me amarrava àquele clube. As equipas dos anos Sessenta da Briosa praticavam um futebol bonito, entusiasmante, o futebol tic-tac. Alguns adversários observavam a bola circulando de jogador para jogador da Académica, durante largos minutos, sem a «cheirarem» como se dizia no vocabulário futebolístico. O Barcelona inventou o tic-tac? A mais redonda mentira - já havia sido inventado!

          Hoje essa mística desapareceu e a Académica, dita OAF, profissionalizada, arrasta-se pelos campos na mais completa agonia, longe dos estudantes e da cidade. Continuo, mesmo assim, a ser seu adepto incondicional, tal como sou da Académica SF, na esperança de que um dia próximo, através do diálogo, seja possível retirar esses acrónimos.

          Dou comigo a pensar por que razão a população de Coimbra, mas fundamentalmente os nascidos neste rincão, não apoiam os clubes da terra. Faltam méritos à componente futebolística de uma Associação velhinha de 129 anos? E o outro clube da terra, o União de Coimbra, meu adversário, mas nunca meu inimigo, repleto de história, que tanto prestigiou a cidade, porque está quase desaparecido, militando no distritais?

          Não aceito, nunca aprovarei, a falta de afeição do povo desportista coimbrão pelas suas equipas de futebol, para se deixar enlear pelo clubismo apaixonado virado ao trio do poder em Portugal: Benfica, Porto e Sporting. Não embarco na histeria colectiva que parece tripartir os conimbricenses e os portugueses em geral.

           É impreterível meditar sobre o que nos falta para remar contra esta maré. Difícil de vencer, já que para além de inúmeros factores sociológicos, existe uma convicção messiânica, sonho maior do que uma Nação. Também os media não permitiriam que fosse de outro modo e a barreira cultural instalada muito menos.

          Perderam-se as memórias e foram apanhados pelos exércitos do Império dos Três, curiosamente, dois de Lisboa e um do Porto, onde se concentram outros poderes.

          Gosto de futebol e do seu imprevisto permanente, do rendilhado tecido pelos actores com a bola, das corridas desordenadas, da finta que é uma tela pintada na relva, as pausas de circunstância, as estratégias e as tácticas (des) construídas com o decorrer do jogo e logo (re) construídas para evitar a derrota próxima e indesejável, os remates falhados que a lei da física não entende, a bola ao poste, a defesa impossível a evitar o golo, as palmas, os assobios, os ruídos indeterminados e únicos. Os cânticos.

          Abomino o espectáculo medíocre, jogado e apresentado por artistas com ordenados principescos e por uma miscelânea de nacionalidades que não conhecem, nem sentem, a história e as raízes do clube onde jogam. Nunca sofrerão com a derrota, porque ignoram a mística e as memórias da camisola que envergam.

          Detesto no futebol observar o vazio das bancadas desertas que destroem e corroem por dentro todos os mitos e ritos deste desporto. Com público elevado, só os jogos dos três donos do Império, monopolizadores do futebol em Portugal. Uma das consequências é a vulnerabilidade que leva à queda precipitada dos clubes históricos que ainda tinham público permanente.

           E de que vivem estes clubes sem público? Vivem das transmissões televisivas, dos dizeres das camisolas, dos conluios tantas vezes obscuros com empresários locais, e das estratégias, das técnicas e das tácticas dos seus treinadores, cada vez mais preparados e cultos, para enfrentar sem medo, e, por vezes com êxito, os três detentores do poder.

          Vítimas do ostracismo imperante, os pequenos e os velhos clubes plenos de tradição, história e causas sucumbem aos pés do Império.

          E para finalizar pergunta-se: eu não posso ter simpatia por um dos Três Grandes do Império? Claro que posso, e tenho. Mas não mais do que isso. Sou Briosa, nunca relegaria para segundo plano um dos clubes que representa a minha terra, o meu torrão.

15
Jan18

Pinhal de Leiria: Do Imaginário Ao Inferno


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 [ A minha vénia ao SAPO pela fotografia]

 

No designado Pinhal de Leiria há mão apaixonada de D. Sancho I e D. Dinis, atingindo glória universal nos séculos XV e XVI com os Descobrimentos e a Expansão Marítima Portuguesa. Madeira e pez (alcatrão vegetal) construíram as caravelas que a tornaram possível.

Há uns anos tive oportunidade de conhecer a majestade do pinhal que engloba as matas do Urso, do Pedrógão e do Rei, com os seus arrifes, aceiros, talhões, e a cobertura predominante de pinheiro bravo (Pinus Pinaster).

Avistam-se, deslumbrantes, das torres de vigia (hoje desactivadas) para protecção de fogos florestais. Conheço uma situada junto à estrada Coimbrão-Pedrogão, e outra no designado morro do Ferreiro junto à Estrada da Lagoa da Ervedeira. Aos dois subi. O meu olhar perdeu-se no meio de uma bruma verde. Os pinheiros bravos, das matas do Pedrógão e do Urso, pareciam um mar verde infinito, silencioso e sem ondas alterosas. Ao longe, cheirava-se a brisa do mar que fazia ondular mansamente os pinheiros, dançando por entre fetos, rosmaninho, urzes brancas e rosadas, lentisco-bastardo e camarinhas. Estava perante um lugar emblemático, onde os odores a resina e a maresia se combinavam numa simbiose quase perfeita.

Este território de “flores do verde pinho”, onde D. Dinis sofreu de amores, todos o quiseram evocar e cantar. Até eu. O verde pinho, as ondas do mar, as águas das fontes e ribeiros, tudo respirava confidências de amor. Os suspiros do Rei Lavrador eram brisas que transportavam imaginários. O Rei foi “semeador de pinheiros e de amor”. Afonso Lopes Vieira chama a este pinhal “jardim” e “canção sem fim”. José Saramago também não resiste a esta mágica “dos cantares do verde pino”. Fernando Pessoa fala do “plantador das naus a haver” e no “rumor dos pinhais”, que levou o Rei-poeta a escrever o seu Cantar de Amigo.

No fatídico fim-de-semana que marcava a metade do mês de Outubro de 2017 quase todo ele sucumbiu, submergido pelas chamas ondulantes, ferozes e quentes que atravessaram o seu âmago. No dia 23 do referido mês fui ver o que sucedera ao «meu pinhal». Percorri as estradas que o atravessam e que tão bem conheço. Deparei-me de um lado e do outro e, a perder de vista, com uma paisagem dantesca, um inferno, um panorama negro de morte vestido, um holocausto personificado, um campo vasto de extinção. Os Pinus Pinaste escanifrados e encarvoados, milhares, mantinham-se erectos mas mortos. Pareciam batalhões de guardas fardados de óbito a provocarem a nossa incúria, o desprezo a que os votámos. Mas morreram de pé, eis a grande lição que nos deram.

O carro percorria devagar aquele antro de silêncio penoso. Silêncio negro. Depois uma tristeza tamanha me invadiu. Alguém, pensei para comigo, transportou do imaginário ao inferno o «meu pinhal». QUEM? Vamos todos procurar saber.

12
Jan18

Duas Mulheres: Adélia Pedrosa e Madalena Martins.


pequenos nadas

 

 

            Há mulheres e homens que me tocam e enlaçam por dentro para sempre. Às vezes não os conheço, mas basta-me a sua biografia, e o trabalho duro e honesto desenvolvido, para os ter como padrões de vida. São estas pessoas que me têm ajudado a viver e a ser quem sou. Não, de todo, os pseudo intelectuais de «meia tigela», os elitistas tacanhos, os protegidos de políticos e altas personalidades, feitos à medida para receber benesses e empregos, os produtos dos bastidores dos partidos que, ao longo da vida, nada produzem mas são bem falantes, pronunciados eruditos, bem vestidos, o bastante para se erguerem na classe social, os simpáticos que, por debaixo de uma capa de sorriso fácil, escondem muita hipocrisia e incompetência. Por último os de verbo fácil mas vazio de conteúdo.

            Em vez destes todos, prefiro a Adélia e a Madalena para exemplos de vida. Admiro as mulheres e os homens que produzem o seu destino.

 

Adélia Pedrosa

            Nasceu na Praia de Pedrógão em 1941, filha de Carlos Parracho e Maria José Pereira. Viveu e cresceu no meio da pobreza dos pescadores de então e sofreu na pele o frio dos invernos cavernosos. Seu pai era um desses pescadores e faleceu muito jovem, quando Adélia tinha apenas sete anos. Este facto fez com que a menina cedo começasse a trabalhar para coadjuvar a mãe nas finanças domésticas. Um dia disse adeus àquele infortúnio pardacento e, junto com os seus avôs adoptivos, viajou para o Brasil, ficando a residir no Rio de Janeiro. Aos dezassete anos fez a sua estreia no mundo do fado. Durante a sua vida gravou vários discos, tanto em Portugal como no Brasil, acompanhada pelos melhores músicos. Conheceu os fadistas célebres da altura e com eles cantou e gravou.

             Conheci a sua filha Adélia através dum blogue que possuía na internet. Foi por intermédio dela que fiquei a entender melhor o seu percurso biográfico e a ouvir e apreciar sua magnífica voz. Releva o seu reportório na interpretação do fado e de música folclórica portuguesa, fundamentalmente do Douro Litoral e Nazaré.

            Foi por intermédio de sua filha que lhe fiz chegar às mãos este poema É a minha homenagem à mulher que sofreu na carne as profundezas da miséria e soube dar a volta ao destino madraço que lhe haviam traçado. Intitulei-o Maria do Mar. Não sei se alguma vez foi cantado ou musicado. Pouco importa. Fica nele a mulher que admiro.

Maria do Mar

I

Pedrosa é nome que vem da Praia,

Maria nasceu do Mar.

Adélia é barco a vogar,

Na onda que se espraia,

E de azul desmaia,

Nos areais do Pedrógão pescador,

Outrora presente hoje mais distante.

Mas ó Maria, o distante bastante,

Para ainda o amares,

Nele pensares,

E também o cantares,

Com alma, memória e fervor.

II

E que cantas tu, Maria?

As vivências e as lembranças,

Das casas feitas de pobreza,

Que tu privavas, por dentro, sem surpresa?

Os homens e as mulheres tisnados pela maresia,

Lutando para sobreviver o dia-a-dia?

A beleza infinita dos areais sem par?

O vento sussurrante que entrava pelas ruas do lugar?

Pois é, Maria do Mar, tu cantas tudo: as esperanças,

E também as desesperanças.

Sabes, és como o pássaro dunar,

Que trilha a melodia do lar.

O ninho, pertença e lugar.

 

[Este poema foi recentemente escolhido para fazer parte da Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea, editada pela Chiado Editora]

 

Madalena Martins

            Madalena nasceu em Coimbra e tem 57 anos. É filha de gente humilde e pobre: - o pai «gasolineiro» e a mãe doméstica, para os seus e para os de fora, como mulher-a-dias. Viviam todos com pouco e honestamente, ou seja, com o que se podia. Montarroio era o lugar. A Madalena, antes e depois de se casar com o Jorge, era empregada de balcão de uma padaria/pastelaria. Em 1997 iniciou o trabalho na tabacaria, mister que nunca mais deixou.

            Antes de entrar no Café Santa Cruz, olha-se para o lado direito e enxerga-se um pequeno quiosque dedicado à venda de jornais, revistas nacionais e estrangeiras, e à prestação de serviços diversos, como a venda e carregamento de cartões e o pagamento de água e de luz.

            Desde que frequento aquele café de acolhimento diário, sempre me lembro de olhar e ver, no seu espaço minúsculo, a Madalena Martins, labutando no seu quiosque de amor.

            Aquele ar sorridente, acenando com a mão à minha entrada, a que eu correspondia, era o meu lenitivo matinal.

            A nossa amizade cimentou-se e, de manhã, quando ia comprar o jornal, sempre trocávamos algumas palavras sobre a vida que por vezes é madrasta e não ajuda os mais pobres e os que mais merecem pelo trabalho árduo e honesto que desenvolvem.

            Esta conversa alegrava-me a alma e dava-me alento para o resto da dia, numa altura em que andava doente e qualquer palavra sábia, como a sua, fazia correspondência a um medicamento milagroso.

            O seu estado de saúde também já não era dos melhores e veio a agudizar-se, quiçá resultado daquela vida árdua, permanentemente de pé numa área apertada, quer fizesse calor ou frio, durante anos a fio. Eu também tentei com algumas palavras, não tão sábias como as dela, dar-lhe o ânimo que às vezes é necessário comunicar a todas as pessoas, por mais fortes ou vulneráveis que sejam.

            Vi nela uma mulher de rara honestidade, humilde mas com um carácter indómito, mulher e mãe apaixonada, solidária com o desencanto de vida das pessoas mais necessitadas. Também a vi ser firme quando alguém beliscava o seu carácter ou a sua honestidade.

            Hoje passo, olho e sinto a falta daquele aceno. Vou comprar o jornal e, apesar da presença dos seus familiares de uma delicadeza tocante, tais como a filha Rita e o marido Jorge, sinto um vazio irregenerável.

            Aguardo o seu regresso como aguardo sempre o de quem me faz falta. Quero-a ver retornar firme como dantes; agradecida mas nunca serviente, por qualquer gesto ou acção que lhe façamos, ás vezes sem nos custar muito.

            Preciso do seu adeus. Sabem, caros leitores, há pequenas coisas, pequenos gestos, pequenos nadas que para mim, para alguns de nós, são grandes e inigualáveis, quando comparados com os aparatos fictícios e as simpáticas falsas de tanta gente que em meu redor enxameiam.

            Venha, a Baixa precisa de si e, o seu palácio revestido de jornais apela pela Lena todos os dias.

            Dirão, a Madalena é porventura, uma mulher igual a muitas outras. Que seja. É, no entanto, diferente de quase todas pelo seu espelho de alma.

[ Do autor do Blog, in O DESPERTAR, Jornal centenário de Coimbra]

10
Jan18

De Tanto Engolir Lágrimas, Afogo-me Em Angústia.


pequenos nadas

 

 

            O último dia da vida de uma mulher ou de um homem não existe. Fora dos livros que narram… ninguém tem direito a um último dia, somente a uma interrupção acidental de vida… (leia-se Bruno Vieira Amaral no seu magnífico livro “Hoje estarás comigo no paraíso”).

            É olhando esta perspectiva que encaro o fim dos meus familiares próximos e dos meus amigos de uma vida, poucos. Por isso, quando tal acontece, de tanto engolir lágrimas, afogo-me em angústia.

            Sento-me na solidão que recorda os momentos vividos em conjunto, os ensinamentos que obtive dessa vivência, do amor ou amizade que cultivámos e foi penetrando os laços apertados da alma. Mesmo os instantes de dificuldades relacionais são revividos naquele momento e, são lenitivos para dar razão aos que acreditam que o fim não é o fim. É por tudo isso que nesses ápices de isolamento acompanhado, alcanço transformar pensamentos e sentimentos em palavras sentidas que transfiguram o Fim em vida.

Estes sítios, que vou levar-vos a (re) visitar, já são para muitos moradias de espíritos, revelações de outros seres. Mas não são o Fim. Com estas palavras vou despertar antigos fantasmas. Convocar o que resiste e fazer do antigo novo. Vou dar vida ao passado.

 

No dia da morte da minha mãe fui o primeiro a chegar à casa funerária. Estava com ela deitada à minha frente, quieta e gélida. Peguei num papel que tinha no bolso, escrevi-lhe e deixei o escrito preso a um ramo de flores. Desejei-lhe boa viagem para o Fim que era o início de qualquer coisa.

 

“Minha mãe!...

Já agora…

Que vais de viagem,

Faz-me um último favor.

Carrega contigo,

Os cravos e as rosas

Do nosso descontentamento,

E o peso…

De muito amor.”

 

             No dia do enterro do meu pai ao chegar perto da cova funda, comecei a sentir passar à minha frente não a morte mas o fio da sua vida.

            «Sobe a rua da Urbanização da Quinta do Sobreiro vagarosamente, agora usa bengala para melhor se equilibrar. A subida é difícil, e ele só há pouco tempo começou a sentir o embaraço. Mais um pouco e lá chegaria. Esbaforido com as pernas doentes e magoadas, lá abeirou. Aquele velho alcançava sempre, para ele era preciso chegar sempre.»

            E ao cair de cada pazada de terra sobre o seu caixão as palavras brotavam às golfadas. Chegado a casa escrevi-as num papel que ainda hoje guardo:

 

            “Hoje ouvi cair em cima do teu caixão pazadas de terra agreste. Não era não, daquela terra que tu domavas e que fazia florescer os teus pomares!... Era outra terra, que eu bem vi: muito mais madrasta e que vai devorar o teu corpo!

Olha…, mas deixa lá!...

            Eu não vou esquecer a tua inteligência, a tua sagacidade, o teu engenho, a tua inventividade, e o amor que tinhas por mim, que tão bem sabias resguardar para que eu nunca o entendesse.

            Olha pai, já estou a ouvir as tuas músicas. O teu trompete toca sozinho e tão bem! Tudo isto de que te falo, ela não vai comer, não, porque está comigo, guardado nas minhas entranhas e memórias.

            Para sempre. Prometo-te.”

 

Uns anos mais tarde afoguei-me em angústia de tantas lágrimas engolir pelo meu neto. Um oceano revolto. Aquilo que eu sofri para dentro nesses vales interiores onde se fundiam os poentes! Sonhei então que nenhuma pessoa é só uma vida. Nenhum lugar é apenas um lugar.

            Sonhei o futuro e não a morte. E escrevi.

 

A flor que foi menino

Aquela flor em botão que eu vi murchar,

Na réstia dos meus anos, sempre vou zelar.

Todos os dias quinze, dos ventos a vou abrigar,

P’ ra suas pétalas ver desabrolhar.

 

E, depois, sempre cuidar,

Com elas conversar, brincar,

Histórias contar.

Intensamente cheirar,

P’ ra me perfumar.

À bola jogar;

P’ la Académica gritar;

P’ la Internet brigar;

P’ lo mandar estudar, amuar.

Mas sempre voltar, repetidamente, gostar.

 

A flor tornou-se criança,

O menino de sua mãe,

E meu também.

A dezasseis disse adeus e desapareceu...

Mas eu sei onde o encontrar,

Pois então!

No quarto das «tralhas», a jogar

Ao pião,

Aquele lugar escondido do meu coração.

 

            Já por diversas vezes escrevi num impulso, perante os meus amigos, aquele FIM que é o princípio de qualquer coisa. A família colocou aqueles papéis emoldurados junto à urna. Estou certo que lhes deu o alento da vida e não da morte.

09
Jan18

Não é o Fogo do Amor que Arde em Camões


pequenos nadas

 

 

            O fogo radiou enfurecido por entre pessoas, casas, pomares, vinhas, arvoredo, pinhais e eucaliptais, em redor de Pedrógão Grande e concelhos limítrofes.

            As chamas devoraram tudo à sua passagem, lançando foguetes luzentes que multiplicavam os focos de incêndio a distâncias consideráveis do lugar de partida. Eram labirintos luminosos que depressa se transformavam em línguas de fogo longas e devastadoras. Dizem ter sido a origem da catástrofe uma trovoada seca que afogueando o local, se alastrou sem controlo de imediato.

             E olhem as casas, quantas casas destruídas, culturas, animais, o sustento e o abrigo das famílias esvaído em segundos!

            Perscrutem os velhos que viram uma vida de trabalho destruída em segundos, já não sendo capazes de enfrentar a luta e o monstro, como outrora fizeram sem medo, quantas vezes, para sobreviver e cuidar dos filhos. No termo deste desalento são obrigados a abandonar o tecto onde desejavam morrer, não sabendo se o voltam a contemplar.

            Estradas de morte, onde perecem os que os que ainda possuem forças para fugir ao flagelo, apanhados pelo monstro que cospe chamas de sangue. Corpos que já transpiram de morte, carros destruídos qual cemitério de latas, onde no seu interior jazem famílias inteiras carbonizadas, que ainda tiveram tempo de se juntar num abraço final. Os filhos aconchegam-se aos pais, pedindo a protecção última que nunca lhes foi negada; os pais enlaçam os filhos num derradeiro gesto de resguardo. A família viajou junta para a eternidade.

            Aquela estrada da morte mostra-nos um espectáculo dantesco, onde só já restam latas amalgamadas e um imaginário de morte. É tudo preto em redor, uma das colorações da morte. Os velhos pais que nela perderam os filhos, vão ficar mais periféricos, mais isolados, mais pobres, mais desprotegidos.

            Servirá este martírio para alguma coisa? Para quê? Para os políticos nacionais e locais de todos os tempos fazerem melhor? Para a comunidade em geral ser mais preventiva com os seus haveres? Ou vem aí o esquecimento costumeiro de quem quer olhar o futuro sem aprender com o passado, em defesa de uma modernização sem nome e sem rosto. Estou certo de que será tudo improvisado na hora fatídica e pouco mudará.       Estão a chegar, como afirma Rui Tavares no Público de 21 de Junho de 2017, os especialistas instantâneos em incêndios…. Eu não sabia que eram tantos. Afinal para quê?

            Um dia se fará História sobre a floresta em Portugal, que devia ser centralidade de vida, mas foi, quase sempre, de morte. Afinal somos fogo, energia e vida. E se lêssemos poesia, porventura… rasgaríamos as normas e procederíamos mais.

Rasgo normas

Rasgo normas

Rasgo convenções

Não quero saber das formas

Só quero as emoções

Em que me transformas

Num universo de sensações.

 

Sinto um fogo a aquecer

O meu corpo, a minha pele

Não é o fogo da paixão

É o calor do sol a arder.

O fogo que queima meu corpo

Não é o fogo do Amor

Que arde em Camões

É o calor do aquecimento global.

É o resultado das queimadas, da poluição.

É o ser humano entrando em combustão.

 

(Marinalva da Silva Almada e Maria Sousa)

07
Jan18

A Morte do Meu Gato


pequenos nadas

   

 

 Cheguei a casa, por volta das 12 horas, após a minha caminhada matinal. Sabia que o meu gato VIP se achava moribundo. Por esse facto, logo que entrei, fui ao seu encontro. Percepcionava encontrá-lo deitado no seu cesto, estrategicamente colocado junto à mesa redonda da marquise, coberto pela camilha, e recebendo os calores reconfortantes oriundos da braseira eléctrica.

            Descobri-o estendido, quase em posição de morte: a cabeça na almofada do cesto, e o resto do corpo na tábua da braseira, como que afagando os últimos calores reconfortantes das agonias do adeus. Com a consternação e a atribulação de quem se despede de um ente querido, facto que jamais cogitei me viesse a acontecer com um gato, olhei-o. Os seus olhos azuis estavam vazios de esperança; o seu já frágil coração desprendia convulsões que geravam suspiros profundos. Era a forma de encontrar os últimos alentos para prolongar a existência. Sentindo-o desconfortável aninhei-o no cesto, onde tantas sestas dormiu, para aí serenamente dar início à viagem sem retorno. Inesperadamente, puxou pelas últimas energias e voltou à posição inicial, bem esticado entre a tábua e o berço. Peguei-o e transportei-o para o escritório. Deitado a meu colo, olhava-me enquanto eu escrevia no computador tentando decifrar, pelo barulho do teclado, se lhe endereçava a última mensagem. Os seus olhos vidrados e já frios, pelo aproximar da morte, ainda me fitavam.

            Agradecia a vida que lhe proporcionei. Depois, estendeu-se bem, colocou as patas em jeito de resignação, deu dois suspiros profundos e morreu. Os seus olhos continuavam a olhar-me, com um misto de humildade e altivez.

            Morreu um dos meus companheiros fiéis.

            Não é ficção, é uma história verdadeira e sentida.

[ Veja-se este artigo e muitos outros escritos pelo autor do blog no Jornal O Despertar de Coimbra]

 

 

06
Jan18

Dois Bilhetes Para O Centeno


pequenos nadas

bilhetes.jpgO nosso Centeno (não me vai levar a mal que o trate com esta

afectuosidade) gosta de futebol e tem, como é natural, o seu club preferido. Que mal tem? Nenhum.

No entanto, ser Ministro das Finanças e Presidente de uma organização prestigiada na União Europeia, impõe-lhe algum recato e o

melhor comportamento cívico-político.

Será verdade que solicitou dois bilhetes,  destinados a si e ao  seu filho para, na tribuna de honra do Estádio da Luz, poder  ver um

tal Benfica-Porto? Foram-lhe oferecidos pelo Benfica? Depois ficam apreensivos com e-mails.

 O facto, a juntar a muitos outros da mesma igualha, deixa-me apreensivo sobre a possível promiscuidade entre futebol e política,

ao arremedo do que provadamente existe entre a política (políticos) e os grandes grupos económicos.

A ser verdade, a um Ministro das Finanças não fica bem esta atitude, pois lida com o dinheiro de todos nós e tem a responsabilidade de

o distribuir. Ao Ronaldo das Finanças, como já foi designado, não lhe arroga o direito de não jogar, mas meter golos virtualmente falando.

Vou falar na mulher de César? Não já se torna ridiculo.

(fotografia Sapo)

 

 

04
Jan18

Tiro de Marcelo


pequenos nadas

Marcelo Rebelo de Sousa vetou a Lei de Financiamento dos Partidos Políticos, cozinhada, por todos eles sem excepção, na escuridão das

catacumbas da Assembleia da República.

O obus acertou em cheio.

Os Partidos Políticos deste país, tem de se convencer que fazem parte de uma comunidade sobrecarregada de impostos.

  É, pois, seu dever ético - político pagar, tal como todos os outros membros.

A verdade é um dos pilares maiores da democracia, não é Senhores Deputados?

cravos.gif

 

 

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