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CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

30
Mai18

TESTEMUNHOS. As Palavras e o Tempo


pequenos nadas

 

Vou anunciar aquele que me inspirou na feitura deste artigo.

O largo Trindade Coelho, em Lisboa, ostenta a estátua de um clérigo jesuíta, Padre António Vieira (de todos conhecido pelo seu Sermão de Santo António aos Peixes). Nasceu na capital portuguesa em 1608 e faleceu na Baía, Brasil, em 1697. Foi uma das maiores personalidades do pensamento português: filósofo, escritor e orador privilegiado. Destacou-se como missionário em terras brasileiras, onde foi um activista na defesa dos direitos humanos, embora alguns hoje o considerem um “esclavagista selectivo”.

Possuía a convicção messiânica do Quinto Império, sonho maior do que uma Nação. A fé de que a morte continha em si a ressurreição. O sonhado Império da verdade resplandecente de paz e harmonia.

É considerado um dos melhores amantes de língua portuguesa de todos os tempos, de acordo com a esmagadora maioria dos entendidos, e um exímio pregador. Vieira foi um homem de acção, por isso, distinguia bem o “semeador do que semeia”, o “pregador do que prega”. Argumentava Vieira: “O semeador e o pregador é nome”, (…) “o que semeia e o que prega é acção; e as acções são as que dão ser ao pregador, (…) palavras sem obra são tiros sem bala, (…) para falar ao vento BASTAM PALAVRAS.

Para ele, o que se dizia tinha de ter repercussão prática no terreno. Leiam-no e aprendam com o Padre, políticos deste país, Não se bastem só em vocábulos e promessas!... Quão actuais estão as palavras sábias do jesuíta.

Há outra frase eloquente, de entre muitas, muitas outras, plasmadas nas pregações do Padre António Vieira «consubstanciadoras» do título que atribuí a este artigo. Dão-lhe voz e substância. Vieira proferia palavras de uma sonoridade admirável, com recursos retóricos sábios. Degustem-na, então, e retirem dela a sabedoria da vida. Apreciem-na e constatem aí o vínculo entre o ontem, o hoje e o amanhã.

“Se no passado se vê o futuro, e no futuro se vê o passado, segue-se que no passado e no futuro se vê o presente, porque o presente é futuro do passado, e o mesmo presente é o passado do futuro”. (Pe. António Vieira, Sermão de Quarta Feira de Cinza, pregado em Roma, na Igreja de S. António dos Portugueses, no ano de 1672.)

Admirável! Não se estranha que Fernando Pessoa apelidasse Vieira de imperador da língua portuguesa.

As palavras do século XVII, ditas por quem “semeia e prega”, permanecem actuais. Não fazem sentido, para quem só as considera parcas memórias desprovidas de ensinamentos. Para todos os que só se preenchem nas PALAVRAS.

[in O Despertar, António Inácio Nogueira]

25
Mai18

Testemunhos. Desabafos Sentidos Sobre Coimbra.


pequenos nadas

 

 

            Deparei-me com um livro, sob o título 1914: Ano da eclosão da I Guerra do jornalista e escritor Ricardo Marques, editado em 2014 pela 0ficina do Livro.

            O autor faz um retrato abrangente de Portugal em 1914 ilustrado, com os factos, as curiosidades e as estatísticas mais relevantes da vida social, da ciência, das artes, da política, do desporto ou até do crime. Ricardo Marques revela-nos um país que, apesar das drásticas diferenças em relação à actualidade, já evidenciava muitas semelhanças com aquilo que é hoje.

            Na introdução diz-se que se pretende construir hoje uma história com as histórias de ontem. Perceber que a vida de hoje, tão diferente em tudo, é por vezes tão igual ao que era.

            Ao folhear o livro fui encontrando múltiplos acontecimentos sobre Coimbra nas áreas atrás descritas. Fiquei surpreendido com as inúmeras referências feitas à Nossa Terra, a dar luz à importância que a urbe tinha no quadro nacional, à época – o que hoje não se verifica! Tenho pena de dizer isto assim com esta crueldade. É um desabafo sentido, magoado.

            Como diz o escritor António Vilhena, “… Coimbra [pensa-se] … uma cidade especial, tem gente que sabe tudo, que tem opinião sobre tudo, que se julga especialista sobre todas as matérias, que gosta de fardas e de trajes, que funciona em circuito fechado, que tem a cabeça na torre da universidade, … Coimbra é uma cidade cheia de contradições …”. Redigo: a Coimbra que se julga ser, já não é o que pensa ser no panorama nacional. A Coimbra prestigiada do antes e do Estado Novo, com influência política na Capital do Império, e com uma Universidade possuidora do saber nacional, desapareceu e não se substituiu por nada. Hoje faz vassalagem a Lisboa (de todo inexplicável nalguns casos; recorde-se o ramal da Lousã e o Metro). Assim sendo mantém-se estática. Ultrapassa Lisboa no seu pior e está longe do seu melhor. Aveiro, Braga, Setúbal… onde já vão. Algumas outras cidades espreitam a oportunidade para a suplantar.

            A Coimbra dos afectos esvaiu-se, foi substituída por símbolos exteriores que não exigem atributos interiores e invisíveis que “são suporte de vida fora da efemeridade das aparências.” Os símbolos internos, ainda que se queiram adaptados à realidade actual, alguns deles de projecção nacional ou internacional, pouco se dão a conhecer.

            Coimbra perdeu a sua identidade e o sentido comunitário de pertença. Adoptou a globalização grotesca. Esvai-se ano a após ano. O património edificado e ambiental não recebe o trato conformado, o investimento industrial quase finou (“cerâmica”, “cervejas”, “ alimentar”… acabaram e foram substituídos por quê?), o cultural é pobre e mora sem animação e apoios, o desportivo retrata bem a decadência coimbrã. Dos clubes da cidade já pouco resta, quase tudo é Benfica, Sporting ou Porto. Exibem-se camisolas e cachecóis não da Académica ou União, mas dos clubes de Lisboa e Porto. Todas as outras modalidades já não têm representatividade. Eis a subserviência de uma cidade que soube fabricar uma cultura própria e a desbaratou inesperadamente.

            Poderão dizer que isto não importa nos dias que correm e numa sociedade aberta. Claro que interessa. Coimbra desaproveitou e olvidou a sua parecença, não soube conceber um futuro venturoso e de modernidade alicerçado nas memórias do passado e, por isso, vagueia sem produzir quase nada, – salvem-se escassas e reconhecidas excepções.

            E quem não se deixar embalar no enredo desta dança, sem ritmo, é apelidado de desusado!

            Coimbra deixou de se mostrar ao exterior. Enconchou-se em seu redor, pensando que o pensamento empreendedor antigo em redor da sua Universidade e de áreas de serviços, lhe dariam hoje a mesma projecção nacional e internacional. Enganou-se. Deixou-se invadir por organizações consumistas, grandes superfícies que se implantam como cogumelos, enormes pequenos «nadas» de crescimento, onde o reino é o do gastar e do trocar. À volta da Coimbra, outrora do Choupal, colhem-se frutos do intentar sério, criador de riqueza, muitas vezes, com os cérebros que produzimos cá dentro. Em redor temos diversos nichos de boas práticas, olhem só para Cantanhede!

            Ora! … Lograrão dizer alguns dos que continuam a privilegiar a cegueira: o autor destas palavras, o que quer é o regresso ao passado lúgubre. É um derrotista primário. Tem “A obsessão doentia pela tradição e pelo passado…um factor inibidor da modernização…” (veja-se Rui Bebiano no seu comentário “Coimbra em tempo de autárquicas” no Jornal As Beiras de 09. 09. 2017). Não, o que o feitor destas opiniões pretende é que se conheça o passado para, reflectidamente, sobre ele e com ele, se possa construir o futuro. Sem peias, não reverencial. Um porvir melhor, caros leitores.

            E já agora, em tempo de autárquicas, e «a talho de foice», pergunto: o que tem feito o poder local (de todos os partidos políticos), ao longo dos últimos anos, para inverter a situação? Cada qual que responda.

[ Jornal O Despertar, António Inácio Nogueira]

20
Mai18

Testemunhos. A Esperança Média De Vida, Exultação ou Pesadelo


pequenos nadas

 

 

            Portugal é um dos países que mais ampliaram a esperança média de vida, conclusão de um estudo internacional publicado na revista britânica The Lancet. Também segundo o estudo Burdên of Disease 2016, a esperança média de vida em Portugal, em 2015, cifrava-se em 83, 9 anos para as mulheres e 77, 7 anos para os homens. Temos que nos congratular com estes valores que ultrapassam os da escala global, inclusive o de muitos países ditos desenvolvidos. E o porvir?

            Ao discorde de alguns países que têm idosos saudáveis, a geração dos actuais idosos foi, em grande parte, muito castigada pela pobreza, pelo trabalho precoce, penoso e duro, pela falta de cuidados de saúde, pela emigração onde o dia-a-dia era de miséria, a opressão do regime em que se vivia, a guerra… Por tudo isto, Pedro Marques da Silva, vice - presidente da Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia, é categórico ao afiançar que, além de velhos doentes, “temos ainda muitos idosos frágeis, incapazes de cuidar de si” e com pouca capacidade motora. Hoje, apesar das modificações profundas encetadas, a pobreza continua a imperar, os modos de vida e a disponibilidade familiar para os acompanhar diminuiu, o que agrava a situação. A solidão mata-os e deprime-os, mas as formas de vida, de tratamento e acompanhamento, não serão melhores, por motivos diversos, em muitos lares e casas de repouso.

             Daqui a 63 anos, Portugal terá 7,478 milhões de habitantes, 2,8 dos quais idosos, segundo as Projecções do Instituto Nacional de Estatística.

            Quem vai cuidar de 2,8 milhões de velhos?

            Está pensada alguma política prospectiva para o apoio a prestar aos velhos no domicílio e em casas de repouso ou lares?

            Que formação necessitam os profissionais que a vão por em prática, cada vez em maior número, por certo, e se requerem cada vez mais bem preparados?

             Hoje raramente é exigida formação cuidada e específica (para os desempenhos a praticar) aos profissionais que actuam em muitos locais de acolhimento (com salários baixos e contratos precários), uma situação rara no quadro europeu. Não nos esqueçamos que a tendência do estado de saúde das pessoas que aí vão aportar, dada a longevidade, será cada vez mais complicado, a exigir, por isso, recursos humanos e materiais apropriados.

            Haverá as pessoas necessárias para cuidar de todos eles, dado o decréscimo da população activa e o seu número a crescer exponencialmente (com a agravante de serem cada vez mais velhos, doentes, frágeis e já inabilitados para tratar de si)?

            E existirão geriatras, nutricionistas, fisioterapeutas, enfermeiros, psicólogos suficientes e sabedores, já que nos dias de hoje a formação para tal está tão desfasada da realidade? E o que será nos tempos tremendos que se avizinham se não se proceder à reestruturação dos seus saberes?

            E o que fazer com os cuidadores informais, familiares ou não, que pretendem que os seus velhos permaneçam em casa? Para cumprir o seu papel está prevista a flexibilidade laboral, direito a ter redução de horário sem prejuízo para o seu emprego, por exemplo?

            Que disponibilidade e políticas para a formação de redes de pessoas (familiares ou outros) dispostas a dar o seu tempo para ajudar os doentes e dependentes? Sem eles os hospitais serão um pandemónio, maior tornando-se imprescindível plantar uma casa de saúde, lar, casa de repouso, centro de dia, em cada esquina.

            E em relação às demências, depressões profundas e Alzheimer o que dizer e fazer?

            Leonor Paiva Watson, em 19 de Setembro de 2017, numa crónica incerta no Jornal de Notícias, reporta-se à cimeira internacional Alzheimer Global Summit e às suas conclusões, para nos dizer, citando, que um em cada nove portugueses com mais de 65 anos terá Alzheimer e a tendência é para piorar. Uma outra ideia, também daí retirada, é que a evolução da doença – que não tem merecido a devida atenção – pode ser bastante “retardada recorrendo a terapia não farmacológica”. O Alzheimer, bem como todas as outras demências, afirmou-se na conferência, será um dos nossos problemas maiores. Por esse facto, alertou António Leuschner, precisam-se de mais equipamentos e recursos para os pacientes e seus cuidadores. Urge prospectivar os tempos que se aproximam a passos largos.

            Foram apenas reflexões, porventura, achegas de quem prevê um futuro negro para as gerações próximas e futuras, se não existir uma viragem político social de fundo.

            É neste contexto complexo, e a necessitar de reflexão e acção, que pode entrar José Tolentino Mendonça, pois na Revista do Jornal Expresso escreveu um artigo, que intitulou o Verbo Milagrar, onde muito trata a velhice e seus problemas. A certa altura cita um provérbio norte-americano onde se afirma que ser velho não é divertido, dando propósito ao «milagrar» e afiançando que o adágio tem razão. Aproveita-o para produzir, de forma séria e muito lúcida, o conceito multifacetado do que é ser velho. O que mais me sensibilizou, podendo ser um alerta para os políticos e para todos os que pelos seus saberes podem construir um futuro melhor para todos eles, aqui vai reproduzido, com a devida vénia para o seu autor.

            Ser velho é lutar para estabelecer uma conversa com um quinto do vocabulário, ainda assim entrecortada por hesitações e esquecimentos, mas com os olhos a falarem cinquenta vezes mais, para quem os souber ouvir. Ser velho é sentir-se transferido para o interior de uma casa alheia e grande, desejando unicamente não se perder. Ser velho é não poder contar com ninguém a certas horas - horas longas que parecem não ter fim -procurando manter vivo, dentro dessa total incerteza, o inapagável fio do amor.”

            Obrigado José Tolentino por esta lição explicada e elucidativa.

[in O Despertar, António Inácio Nogueira]

10
Mai18

POESIA


pequenos nadas

 

            Nunca me atreveria a dissertar sobre qualquer assunto ligado à literatura. De poesia também não sei falar e, muito menos, sei dizer se ela tem algo a ver com literatura. Talvez esteja aquém e além dela, já que dificilmente se explica ou eu a sei decifrar.

            A poesia é para mim um mito e pouco sei da sua edificação linguística. Estou certo de que se levanta em cada palavra, como a nuvem electrónica arquitecta o átomo e nela há a probabilidade de encontrar um electrão. O átomo liberta ou absorve energia; a poesia liberta ou oprime. A poesia é um ritual efémero, ou uma construção perene, memorial.

            Dito de outra forma, talvez a poesia seja um modo de contar a vida, a vontade de viver ou não, as suas memórias, os imaginários, os estados de alma.

            A ideia poderá estar plasmada no primeiro verso, desenvolver-se depois e terminar no último, que pode ser uma revelação ou insignificância.

            O poeta para mim, o bom poeta, é um mágico, um dançarino que impõe um ritmo às palavras que escreve, em qualquer lugar, em qualquer momento, num papel amarrotado ou na palma da mão, por vezes nem ele entende porquê ali e agora.

            O poeta é um adivinho que, num acto repentista, exprime sentimentos, mágoas, alegrias. O poeta escreve impulsionado por alguém, por coisas, por tudo, por isso também, uma forma de meditação solitária e única, encantatória.

            Como viram não sei nada de poesia, apenas debito palavras, vazias de tudo ou nada. No entanto, para espanto de muitos, sou um «escrevinhador» de poesia, um não poeta.

            Rabisco em qualquer lugar, em qualquer suporte, quando o sentimento se empenha, ou a euforia e o seu contrário tomam conta de mim. Versejo por entre os dedos da poesia.

            Por exemplo: um dia, na Quinta de Santa Cruz, Entre-os-Rios, debrucei-me à janela do meu quarto, olhando o Douro que serpenteava, serenamente, ao fundo.

            Num pequeno papel fui escrevendo a contemplação.

 

Daqui te enxergo ó Douro,

Naquele teu incessante caminhar,

Sempre caminhante,

Que amanhece quem te olhar!

No teu silêncio desesperante,

Suportas sussurrante,

Muitas memórias ancestrais,

Desumanamente gestuais,

De homens e mulheres suando,

Nos teus «Comoros» enchadando.

 

Nas tuas margens e encostas,

Geometricamente bem compostas,

Florescem a vinha e o vinho, vivo e brando,

Que enxagua as mágoas dos oprimidos,

E anima as festas dos não sofridos.

 

Ao olhar-te agora, (de) repente,

Da Quinta de Santa Cruz,

O teu silêncio envolvente,

Faz-me regressar ao nascente,

E, esquecer, que estou quase velho e no poente.

 

            Estado de alma? Sim. Poesia? Porventura, um arremedo da sua arte.

 

            Gosto de Inês de Castro e de tudo o que enovelou a sua existência mítica e trágica. Da História que a circula. Da Quinta das Lágrimas. Dos barcos de papel que, por águas transparentes, transportavam mensagens de amores proibidos. Das histórias de amor e desamor, furtivas, escondidas. Da morte que a fez Rainha.

 

Castro mito,

Castro rito.

Castro prosa,

Castro formosa.

 

Castro poema,

Castro problema.

Castro paixão,

Castro devoção.

 

Castro tragédia,

Castro comédia.

Castro Pedro,

Castro segredo.

 

Castro morta,

Pedro revolta.

Castro sepultada,

Castro desenterrada.

 

Castro dos trovadores,

Castro dos cantores.

Castro apesar de morta,

Castro ainda importa.

 

Castro escrita,

Castro teatro e revista.

Castro mãe,

Dos bastardos do rei.

 

INÊS DE CASTRO,

Ainda és Castro.

No túmulo finda,

Foste RAINHA.

 

Canto mitos no meu «poetar». Serei eu um poeta inteiro? Jamais.

[ in Jornal O Despertar, António Inácio Nogueira]

01
Mai18

TESTEMUNHOS. Ó Barca Serrana.


pequenos nadas

 Ó Barca Serrana.

 

            Quem se deslocar ao Parque Manuel Braga poderá deparar-se com uma Barca Serrana, junto ao Museu da Água, e bem perto da margem do Mondego por onde navegou.

            Já palmilhou o rio, levada pelos corpos suados de quem a fazia velejar. Hoje está ali, depositada, um pouco maltratada até, por falta de preservação adequada. A barca, elegante no seu porte, é fonte de observação e curiosidade de todos os amantes da cultura e património histórico do rio, que sempre pertenceu às memórias de Coimbra:- quer pelas grandiosas cheias invasoras, quer pelas secas que deixavam um areal imenso, atravessado, a custo, por pequenos fios de água. Por isso, o povo de Coimbra baptizou o seu rio, carinhosamente, de «Bazófias».

            Junto à barca foi colocado, em boa hora, um cartaz elucidativo que nos descreve, resumidamente, a sua história.

            “O rio Mondego foi no passado uma via fluvial muito importante”, elucida. Ensina depois: “As barcas serranas dedicavam-se ao transporte de mercadorias, num trajecto entre Penacova e a Figueira da Foz. O nome serrana deve-se ao facto de ir da serra carregada de lenha, carqueja e ramagem que era vendida para os fornos das padarias de Coimbra e Figueira da Foz. Para além destes produtos transportava também vinho, milho, azeite e carvão vegetal, terra e cal. Na volta vinha carregada de sal, peixe, arroz e louça.”

            A ideia pertenceu a alguém que não alinha só na demagogia do «presentismo». De louvar. Mas não chega: é preciso proteger e conservar, pois quem olhar para ela, observará que está um pouco doente.

            Eu tentei amenizar a sua febre compondo este tributo.

 

Barca serrana serena,

Parada junto ao Rio,

Em tarde amena.

Espreitas Coimbra,

No seu corrupio?

 

Barca tranquila d´antanho,

Que de velha já não vogas.

Outrora,

Corrias p’las águas, emproada,

P’los navegantes tocada,

Por vezes, manejando varais,

De longo tamanho.

Lá iam em pé,

Puxando, puxando, puxando,

Contra a maré.

Também suando,

Muito suando, suando.

Mas, ao destino chegando.

 

Hoje, estás doente parada,

Amarrada.

Lembras-me a Coimbra.

Deserdada,

Ultrapassada,

Maltratada,

Sem vida, adormecida.

 

(2018)

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