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CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

29
Jun18

Dois Livros


pequenos nadas

TESTEMUNHOS. Dois Livros.

 

          Acabei, há muito pouco tempo, de ler dois livros em simultâneo. Poderão, desde já, os leitores questionar o autor desta pequena crónica, de como é possível ler dois livros, quase concomitantemente. E fazem bem em fazê-lo, pois é-lhes lícito argumentar, esta forma pouco organizada de leitura – hoje leio um, amanhã leio outro –, levando, quiçá, a uma pouco reflectida análise da problemática versada em cada um deles. Porventura sim, mas também é verdade, e muito importante, numa leitura alternada, a procura do cruzamento de ideias e conteúdos. É mais fácil, depois, fazer a sua síntese ou contraditório, sendo para a minha idade, já provecta, uma boa exercitação da memória e da habilidade de raciocínio.

            Mas regressemos aos livros. Um deles designa-se por “Escravatura Perguntas e Respostas” – tema sempre actual –, da autoria de João Pedro Marques, construído em redor de 24 questões e respectivas respostas. Segundo o autor, todas elas permitem aos leitores, sentir que a “história da escravatura é muito menos linear do que parece à primeira vista, que é mais surpreendente do que lhe fizeram crer e que não se dá bem com apressadas e vesgas culpabilizações.” Ou desculpabilizações, acrescento eu. Assim foi, e é. Por outro lado, dá-nos a conhecer todos os arbítrios e desmandos que o ser humano é capaz de exercer sobre outro, despojando este de tudo, inclusive da sua própria vida. Ao ler o livro, ficamos mais sensíveis a observar e a reprovar, com veemência, todas as formas de escravatura contemporâneas – são tantas –, e a argumentar para as esvanecer e suprimir.

            O outro apelida-se “A Estranha Ordem das Coisas, a Vida, os Sentimentos e as Culturas Humanas”, uma obra do cientista António Damásio. Um livro com rigor científico e para pensar em profundidade, um ensaio para responder, além do mais, ao seguinte questionamento: “o que levou os seres humanos a criar culturas, esse conjunto impressionante de práticas e instrumentos onde se incluem a arte, os sistemas morais e a justiça, a governação, a economia política, a tecnologia e a ciência?” A resposta é dada, ao longo das páginas, de uma forma brilhante, intentando enfronhar-nos na origem das mentes, nos afectos, na construção dos sentimentos, na consciência, na mente cultural e muito mais. Adianta-nos que “os sentimentos monitorizaram o sucesso ou o fracasso das nossas invenções culturais e permanecem, ainda hoje, envolvidas nas operações subjacentes ao processo cultural, para o melhor e para o pior”. E António Damásio vai mais longe, quando acrescenta que a interacção favorável e desfavorável de sentimento e razão deve ser reconhecida, se quisermos compreender os conflitos e as contradições que afligem a condição humana, desde os dramas pessoais até às crises políticas.

            Muito do que foi acima postado, e pertença do livro de Damásio, está presente no âmago de toda a história trágica da escravatura, na de hoje e na de ontem. Então, caro leitor, sempre convirá – de quando em vez, sempre que o teor das obras se complementem –, fazer leituras cruzadas, como eu fiz. A aprendizagem, assim feita, por vezes torna-se mais holística.

Boas leituras.

[António Inácio Nogueira, in O Despertar]

27
Jun18

Testemunhos. Editorial Indignação


pequenos nadas

 

 

            Persisto indignado com o que aconteceu a este País recentemente. Não suporto a ideia de que se queimou uma parte significativa: as suas matas, reservas de fauna e flora únicas, as suas aldeias, quase desertificadas onde só velhos indefesos viviam, mas carregadas de beleza rural e memórias indissolúveis de vida, as pequenas indústrias que ocupavam os poucos jovens resistentes a este interior transformado em periférico e desertificado. Não aceito que o fogo tenha penetrado nas vilas e cidades e ferido as suas zonas industriais. E os mortos? Mais de cem! Como foi possível espalhar tanta dor e tanta mágoa?

            O clima mudou, a seca é perigosamente avassaladora? O manto da floresta é uma autêntica granada? Os ventos fortes e «soões» transportam centelhas incendiárias a longas distâncias afogueando outros locais além? As matas possuem espécies vegetais que ajudam à propagação do incêndio? Há incúria humana de quem as habita ou vive delas? Tudo pode servir de atenuante para os contraditórios aos questionamentos expostos. Mas indulto não existe, já que há longos anos se conheciam as consequências, através de muitas das investigações realizadas, e as tecnologias de previsão disponíveis anteviam os piores cenários. Ah! Políticos destes País e dirigentes responsáveis pela segurança da administração pública e da sociedade civil, que fazeis vós?

            Gosto de visitar as livrarias, passear pelo meio dos livros, sentir a sua fragrância, olhar os escaparates publicitários, onde, às vezes, não vejo os melhores livros ou aqueles que foram feitos com muito trabalho investigativo (mas de autores pouco conhecidos...), mas enxergo «lixo editorial» exposto por motivos que todos conhecemos…

            No último Domingo, aguardando a hora do futebol da Académica, o meu clube (não escondo que gosto muito de futebol!), eis senão quando reparo num livro volumoso de 469 páginas ao módico preço de 4, 90 euro (!), edição Dom Quixote de 2006, sob o título “Portugal o Vermelho e o Negro” da autoria de Pedro Almeida Vieira, credenciado em ecologia, ordenamento do território, economia ambiental e poder local, jornalista em vários jornais de primeira linha e vencedor de diversos prémios de valor inestimável.

            Ao folhear o livro deparei-me com capítulos como o “Reino das Chamas”, “Fogo Libertário”, “Ondas de Inépcia”,“Culpar São Pedro, Pecar em São Bento”, “Os Anos do Carvão”, Das Fumarolas ao Fogo Infernal”, “O Striptese Florestal”, “No País do Faz-de-conta”, “Guerra Sem Norte, “O Império de Caos”, no “Reino do Fogo”, “Os Negócios Aéreos… e Invisíveis”, e também com documentos e tabelas bem elucidativas e com números incontroversos.

            Estamos, pois, perante um livro, de valia, que na altura do seu lançamento não foi apreciado (para quê lê-lo?). Agora, foi reposta a sua comercialização, num momento de procura previsível…em boa hora! Afinal, o que precisamos de saber está lá tudo, caros leitores! …

            À volta deste texto eu sentir-me-ia tentado a apresentar, há uns anos, enquanto professor que fui da Escola Superior de Educação, uma proposta de análise sociopolítica e cultural aos meus alunos. Eles seriam capazes de dissertar sobre o contexto e gizar um trabalho analítico em redor desta vasta controvérsia. Saberiam interrogar-se da razão porque estava tudo na mesma, na altura do desastre, e atrever-se-iam a aludir os culpados políticos e institucionais da catástrofe.

27
Jun18

Contadores de Histórias


pequenos nadas

Está muito frio em Coimbra. Eu vou de Monte Formoso, a pé, até à Baixa e sinto-o bem percorrendo o meu corpo; muito mais o sofro quando atravesso o emaranhado das suas ruas estreitas, onde nesta época do ano não assoma o Sol.

            Este frio faz-me lembrar o escano e os contadores de histórias da minha aldeia beirã. Para Luís Vale o escano estava associado à noite, ao Inverno e ao frio, aos ambientes interiores, ao espaço íntimo e privado das reuniões demoradas. Para o mesmo estudioso ele possuía uma vivência individual e grupal muito particular, de reunião e partilha, dizendo mais respeito em cada casa às relações de amizade, cooperação laboral e compadrio.

             Como diz Álvaro Campelo, a actualização do «dito» e do «acontecido» na palavra do emissor transformava o «palco» da lareira. Alexandre Parafita, realça a memória oral do povo como património valioso e inesgotável. Por tudo isto, o contador de histórias estava sempre presente. Era uma figura ancestral, preza ao imaginário de inúmeras gerações ao longo da História. As narrativas eram tecidas pela sua voz mágica, ao redor de lareiras que contribuíam para criar uma atmosfera de intensa magia.

            O contador de histórias não era um mero reprodutor de narrativas, ele também gerava os seus relatos. Conforme a disponibilidade ambiental, ele fantasiava e acrescentava os seus contos, tendo como principal ferramenta a palavra que detém o poder de metamorfosear o comportamento humano.

            É desta forma que vou ao encontro dos meus avós, já falecidos há muitos anos, mas sempre recordados por mim. A minha avó era uma exímia contadora de histórias e gostava do escano, principalmente nas noites frias e ventosas da serrania. Sentava-me à sua frente e ela começava, sempre, com a frase “era uma vez”… sei lá um lobo, um pai, um pássaro, uma fada, e tantas outras coisas. Havia narrações relatadas que já vinham de tempos de outrora, embora ela, dotada de uma criatividade imensa, as contasse sempre de uma forma diferente. Outras inventava na hora para fazer a vontade a quem estivesse no escano. Adorava ouvir a minha avó… Não contava histórias lendo (onde havia livros para tal?), tudo provinha da sua cultura oral desenvolvida. Não contava de forma passiva, retórica, sempre no mesmo tom. Ela era incomparável nas atitudes gestuais, nos sons que emitia, na imitação dos falares dos animais, das bruxas e das fadas. Era uma verdadeira animadora.

            Entusiasmava sozinha, não precisava de materiais outros para motivar… e lá vinha o pedido, «ó vozinha» só mais uma, só mais uma.

            Hoje contam-se histórias aos meninos, não me atrevo a dizer que não bem narradas, mas há sempre materiais didácticos de apoio. Existem técnicas para a animação da leitura que se estudam e treinam nos cursos de animadores culturais ou socioeducativos, quer seja para crianças ou adultos.

            A minha avó não tinha à sua disposição materiais de apoio, toda ela era tudo no escano!

           Recentemente a imagem do contador de histórias retoma-se e vitaliza-se. Procuram-se cursos e oficinas técnicas para aprender a contar. Segue-se na direcção da profissionalização. As escolas chegam a reservar um espaço no currícula para este acontecimento. Às vezes até mesmo docentes e bibliotecários são preparados para exercerem esta actividade. O bom contador de histórias está de volta, e é novamente apreciado. Ainda bem.

 

[in O Despertar, António Inácio Nogueira]

21
Jun18

Testemunhos. Trump, quem não conhece?


pequenos nadas

 

          Toda a gente conhece Trump, pois então, o tal que se vagueia pelas redes sociais seguido por milhões de acusadores e, também, por milhões de acérrimos simpatizantes.

          Toda a multidão conhece Trump, olá, aquele que se ostenta, quase sempre, no seu sobretudo meia perna e naquela gravata vermelha que, de esguia, desce até á...

          Há alguém que não reconheça o Trump? Improvável. O actor, o ficcionista, o populista, o isolacionista, o quebra contratos internacionais (nos campos do comércio, do nuclear, do ecológico, etc).

            Não é aquele que tudo e todos atropela à sua volta? É, sempre que não lhe beijem a mão cardinalícia de construtor civil milionário – , vá-se lá saber como o conseguiu.

          Sim senhor, o Trump. Alguns apelidam-no de impostor, outros de cata-vento palavroso. Pois então o Trump, o homem que canta – desafinado –, o América first, first, first, para logo a seguir, num ápice, superintender à política do mundo, no fio da navalha, no limite entre a guerra e a paz.

             Pois… Trump, o megalómano, construtor de muros, defensor do Nós Sempre Sós e Grandes. Até… precisar dos pequenos.

            Eis senão, Trump, o todo poderoso politicamente iletrado, logo indesejavelmente político.

          Mas afinal, sabem o que faz Trump? Não sabem, mas eu digo. É o Presidente dos Estados Unidos da América, aquele que mandou implantar a embaixada do seu país na cidade de Jerusalém, deixando cair num baú de pólvora, palestinianos, israelitas e povos de muitos outros países daquela zona do mundo tão politicamente instável. A seu belo prazer, alterou a política de décadas e rompeu com o consenso internacional sobre Jerusalém.

          E, agora, vá lá, sejamos francos, Trump saberia alguma coisa sobre o passado e o presente desta cidade, eternamente disputada, cenário de paixões, perfídias, batalhas, conquistas e derrotas, dita uma taça dourada cheia de escorpiões (Muqaddasi)? Pouco saberia.

          Trump, na sua ligeireza, nada deveria ter estudado ou lido sobre Jerusalém. Caso o tivesse feito, teria comprovado as intermináveis batalhas por Jerusalém, os massacres, as mutilações, as guerras, o terrorismo, os cercos e as catástrofes – ao longo dos séculos –, que transformaram este local num campo de batalha quase em permanência (Simon Montefiore).

            Mas não leu e a tragédia pode estar ali, ao virar da esquina…

[O Despertar, António Inácio Nogueia]

14
Jun18

Praia de Pedrógão


pequenos nadas

Testemunhos: Praia de Pedrógão. A MINHA praia.

 

Comecei a ir para o Pedrógão, a única praia do concelho de Leiria, há 52 anos, altura em que iniciei o namoro com a minha mulher que, por sua vez, colocou os pés no areal branco, muito mais cedo do que eu, há 72 anos – uma vida.

Há coisas que me marcam. Uma imagem, um cheiro, um som, uma palavra, um silêncio.

Este lugar tinha tudo isso e abraçou-me até aos dias de hoje. O seu Mar imensamente azul e aquele Sol que sempre nasce tímido, mas se encosta ao azul das águas, deslumbrado e deslumbrante, foram, quantas vezes, os meus companheiros!... Com esse mesmo Sol que desaparece em paz na linha do horizonte, por entre tons de vermelho e de amarelo vivos, rememorei momentos de felicidade simples.

No Pedrógão passei muitos dos meus tempos de lazer, mas também de reflexão. Aqui escrevi as partes mais importantes dos livros que tenho vindo a publicar, (des) lembro o dia de amanhã, o azedo da vida, o egoísmo mesquinho de alguns e a perfídia perversa de tantos outros.

Esse sítio é, para mim, o porto de abrigo onde atraco o meu barco viageiro para refazer forças... é a box onde encosto o carro da vida quando finalizo mais uma corrida…

Quando era jovem, e só vinha no mês de Agosto, a chegada era um alvoroço mas a partida dolorosa. Sentado no paredão da esplanada pensava, olhando o mar, como teria começado tudo aquilo, quem teria sido o primeiro habitante e porque teria escolhido aquele sítio de sonho entregue às gaivotas, aos ventos e às espumas. Olhava-as acima do mar e da costa, brancas, ligeiras, finas. Elas voavam, puras e livres, como eu gostava de ser!...

Respirava fundo e armazenava, para o resto do ano, as últimas brisas e aromas, sonhos de amor. Aspirava a fragrância da inesquecível maresia que saracoteava pela aragem morna. Levava tudo comigo. O Atlântico e o barco da Xávega que parecia vogar por uma floresta de estrelas.

Hoje, tudo se passa da mesma maneira, só o fôlego do respirar o mundo já me abarca e sufoca, por via da idade que não se compadece com a utopia e o sonho.

Devo muito a esta terra e às gentes que conheci.

Foram os seus antepassados que lançaram a rede pela primeira vez e construíram as primeiras barracas. Povoaram dunas e deram vida ao local. Enfrentaram a fúria do primeiro mar. Afinal, eles começaram tudo e não encontraram nada.

Muito do que senti, ainda sinto, está plasmado em três livros editados sobre o Pedrógão. Um deles, do grande escritor Aquilino Ribeiro, é uma pérola preciosa, uma obra de valor inestimável da literatura portuguesa que todos deveriam ler. A Batalha Sem Fim, assim se designa a obra, deve ser meditada por todos os pedroguenses. Outros dois há que também é de conveniência conhecer e descobrir por dentro. Refiro-me ao da escritora Adelaide Félix, Hora de Instinto e ao escrito pelo autor destas palavras, Praia de Pedrógão: Locais, Gentes e Memórias. Todos farão, para sempre e inequivocamente, parte do património da praia.

Ao longo destes tempos já duráveis, em que convivi de perto com esta terra, pude acompanhar ocasiões de desenvolvimento eufórico, com repercussões futuras irreparáveis, e outras de acabrunhamento e desprezo. Momentos de crescimento anárquico, hoje à vista quando se olha em redor para o edificado descaracterizador do local. Tombaram-se edifícios que podiam preservar a história da terra.

O poder político de diversas personalidades que aqui passavam férias, teve muita influência, nalgumas circunstâncias, quer para o bem quer para o mal. Mas o que mais incomodou quem amava esta terra, foi o desapego do Poder Local em períodos, por vezes longos, acarretando a sua única praia ao atraso social, cultural e económico. Mandatos houve em que se evidenciou um desprezo fatal e outros em que subsistiu um olhar mais atento. Valeram, muitas vezes, as vozes reivindicativas de algumas associações locais, organizações de cidadãos, que não se conformavam com a situação, tais como a Sociedade de Defesa e Propaganda da Praia do Pedrógão e a Associação Cultural e Desportiva da Praia do Pedrógão.

No entanto, toda esta gama de desinteresses fez-se sentir, mormente em tempos mais remotos, no quinhão mais pobre – o Casal Ventoso. Hoje começo a reconhecer mudanças significativas, fazendo-o ombrear com a praia das ditas elites do antigamente.

[ Despertar, António Inácio Nogueira]

09
Jun18

TESTEMUNHOS. Futebol D’a Minh’Alma


pequenos nadas

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TESTEMUNHOS. Futebol D’a Minh’Alma

 

          Os acontecimentos ocorridos, e que ainda acontecem, em redor de um dos clubes, designados por «Grandes», no nosso país, não podem calar a minha indignação. São graves, indiciadores de terrorismo clubista, indo muito além da tal paixão exacerbada existente no futebol. Não foi nada que muitos não tenham previsto, dado o comportamento agressivo das autoproclamadas «claks» e a impunidade que os «Três Grandes», em simpatizantes e adeptos, sempre usufruíram.

            São «Grandes» mas, concomitantemente, muito «Pequenos» se, como agora por aí se propala, exercem a ditadura do poder, executam práticas organizativas e de gestão imbuídas na promiscuidade e actos que encorpam corrupção e ilicitudes graves.

            Abordava apenas os mais falados e comentados: transferências de jogadores fraudulentas cometidas por um grupo de agiotas que exploram e sugam os verdadeiros actores e obreiros do futebol – os jogadores –, fugas capciosas ao fisco, sacos azuis com dinheiro oriundo de proveniências dúbias, dividas de milhões, muitas vezes perdoadas ou trocadas por outros serviços, ajudando à falência de alguns grandes bancos, suportadas ou a suportar pelo povo português. Fala-se também dos Presidentes respectivos que servem os clubes para cultivar poder e populismo, com reflexo nos seus negócios, apoiando-se em momentos complexos nas designadas «claks», por vezes braços armados ao seu serviço.

            Estes clubes «Grandes», porventura, tão «Pequenos», participam na alienação do povo adepto através da participação em programas desportivos demagógicos, de má imagem, utilizando aí palavras que incitam à guerra permanente entre pares. Fala-se da sua influência nos órgãos de comunicação, conselhos jurisdicionais e de disciplina do desporto, magistrados, no aliciamento de jogadores das equipas adversárias, compra de resultados. Tudo, muitas vezes, com impunidade, já que a promiscuidade da política, do poder económico e dos órgãos de comunicação com o futebol, e predominantemente com os «Três Grandes», são fortes e de interesse mútuo.

            Para além de tudo isto, estou certo de que, o poder dos «Grandes» foi destruindo o interior do país futebolístico, tornando-o cada vez mais pobre no apego da população aos seus representantes desportivos. Tudo é Benfica, Porto, Sporting. As designadas Casas desses clubes, disseminam-se como cogumelos, para melhor dominarem, ajudando à mobilização de adeptos com o intuito de alcançar vitórias sobre os ditos clubes pequenos da terra, cada vez mais pequenos e mais pobres, sucumbindo mesmo, apesar da história tida no futebol português. Custa ouvir dizer na televisão, antecedendo um jogo Marítimo – Sporting, “eu sou do Marítimo, mas hoje sou do Sporting”. É a total subserviência a um dos monopolistas do futebol Português.

            «Deita água na fervura», agora, um dos meus leitores:

“Ah! Mas apesar de tudo o que acabou de dizer, os «Três Grandes» ganham quase todas as competições internacionais em que entram e, nas suas equipas, prevalecem, em grande maioria, jogadores portugueses, e estes factos são de valorizar!”

            Desengane-se caro leitor, nem uma coisa nem outra, tristemente o digo.

04
Jun18

Futebolez» «e Pequenez


pequenos nadas

 

 

            Tinha um artigo em composição para apresentar esta semana, aos meus leitores. Fica na gaveta até próxima oportunidade. Hoje vou prestar a minha homenagem ao advogado, político, poeta e notável homem público, falecido recentemente –, António Arnaut.

            Homem corajoso, defensor acérrimo da democracia e dos direitos do homem. Possuía palavra arguta, e pronta, para denunciar abusos, tanto os cometidos pela sua família política, como os dos seus opositores, sempre que, sendo populistas, radicavam em promessas vãs e irrealistas ou ultrapassavam os ditames da ética política.

             Foi fundador do PS e era seu presidente honorário. Era poeta que eu apreciava, prezado autor de ficção, historiador, deixando, deste modo, legado na literatura portuguesa.

            Conheci-lhe muitos detractores, tanto da sua política como da sua vida pessoal e profissional, os tais navegantes do Restelo velho que ele combatia com a sua contra argumentação reflectida, sempre construída pelo seu saber – saber empenhado.

            Foi o compositor e fundador do SNS, saído da sua pena e da sua cabeça, talvez o maior conseguimento do após 25 Abril, porventura, o seu melhor poema, como se afirma no jornal Público. Por convicção, foi tratado e acolhido, durante a sua doença fatídica, numa instituição servidora do SNS.

            Era filho de um sapateiro, o tal homem do povo. Não provinha de famílias abastadas ou da burguesia vigente. Talvez por ter vivido essa experiência, aprendeu a ir à frente e para a frente, não retrocedia nas suas convicções, não esteve constrangido por pressões e interesses. Nunca se imiscuiu, nem tirou partido daquelas mordomias que a promiscuidade entre a política e o poder económico têm vindo a proporcionar a alguns. Era maçom, foi seu Grão-mestre e assumia esta condição com vaidade. Era um “agnóstico cristão”, na convicção de Alexandra Campos.

            Antes da sua doença, passava por este homem, quase todos os dias, na Baixa de Coimbra, e, devido a esses repetidos encontros, começámos a dizer «Bom Dia» ou «Boa Tarde» um ao outro, por cortesia. Trocávamos sorrisos e afáveis saudações. Sentia-me bem e reconfortado ao passar por esta personagem.

            Para além de escrever hoje em sua homenagem, dorido no corpo e na alma, pela sua perda, faço-o, também, porque a revolta se apoderou de mim. No dia da sua morte, o telejornal de um canal de televisão (o dos outros deveria ter seguido o mesmo alinhamento, calculo eu), iniciou a emissão com um quarto – de – hora dedicado aos problemas do Sporting, como se estes estremecessem o país e fossem de prioridade máxima, quase iminência de catástrofe. Ficou para lugar bem secundário, a referência à morte deste homem de coragem a quem o país muito deve. Eis emergente alguma da comunicação social que temos, onde o «futebolez» desesperadamente impera, à procura das audiências sôfregas e imbuídas de uma pequeneza cultural que dói. Por outro lado, revela-se um atrevimento incomodativo e uma cumplicidade, sem limites, com o «futebolez» (assim digo, porque o futebol joga-se nos campos com os artista da bola). E nem o Miguel Sousa Tavares, comentador do dia, se redimiu (com pena minha, pois nutro por ele admiração, pela sua capacidade intelectual, e por ter em comum com este homem que nos deixou, a coragem e o sem medo de dizer o que pensa e desafiar os poderosos), pois nada disse.

            A história o contemplará, e lhe fará justiça, espero. O «futobolez» e a pequenez sucumbirão.

            Até sempre e obrigado António Arnaut.

[ Jornal O Despertar, António Inácio Nogueira]

 

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