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CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

21
Nov18

Momentos de reflexão


pequenos nadas

 

TESTEMUNHOS. Dois Momentos de Reflexão.

 

Primeiro Momento

Há uns anos li um texto de Paulo Tenreiro e fiquei a saber o que são “campos sociais semi-autónomos”. Entendi que são todas as “áreas da vida social com capacidade interna para produzir regras e costumes e, simultaneamente, vulneráveis às regras e decisões provenientes do espaço mais amplo que as rodeia.”

Estamos em presença de uma situação de pluralismo jurídico, dentro do próprio Estado. Assim sendo, na minha modesta opinião, a instituição militar constitui-se como um «campo social semi-autónomo» em virtude das suas funções específicas que todos conhecemos de grande riqueza conceptual (a razão de ser diferente), – uma ordem constitucional paralela em confronto com a sociedade civil.

 Mas porquê toda esta verborreia teórica? Os meus leitores já perceberam. Queremos chegar ao problema de Tancos, ilustrativo de tudo o que dissemos atrás. A posição clássica das instituições militares tendentes a questionar qualquer ponto de vista que não surja do seu perímetro institucional, dá razão a todos aqueles que criticam, «acerrimamente», a actual disputa entre a polícia judiciária e a sua congénere militar, tornando o caso caricato. A prisão de elementos da polícia judiciária militar, a demissão do Ministro da Defesa e do Chefe de Estado-maior do Exército, o ambiente opaco, pérfido e desleal vivido, e, a cada dia, avolumado, as mentiras, os silêncios… «metamorfoseiam» este caso num melodrama fantástico.

O que se vive em redor de tudo o que toca o roubo das armas de Tancos é absolutamente insustentável e deplorável. Tal estado de coisas, faz-nos interrogar sobre o estado das Forças Armadas e da sua organização.

Umas forças armadas que não sabem guardar as suas armas, estão desregradas … é por isso que já se fala na conscrição e no serviço militar obrigatório.

 

 

Segundo Momento

Nos últimos tempos fomos invadidos por notícias boas, dando-nos conta de que a esperança média de vida de homens e mulheres continua a aumentar a passos largos.

Por mera casualidade, e, no dia em que saiu um desses resultados, estava a ler o livro de Yuval Harari, “ Sapiens de Animais a Deuses História Breve da Humanidade” da editora Elsinore. Vertendo os olhos nele, vim a encontrar respigos da problemática em apreço, referente a épocas remotas, que resolvi transmitir aos meus leitores, para poderem constatar o salto dado pela civilização, nessa área, fruto de muitas conquistas.

Eduardo I de Inglaterra (1237-1307) e sua esposa a rainha D. Leonor, tiveram vários descendentes. «Os seus filhos usufruíam das melhores condições, dos melhores cuidados que podiam ser oferecidos na Europa medieval. Viviam em palácios, comiam tanto quanto queriam, tinham bastantes roupas quentes, lareiras bem fornecidas, a água mais limpa disponível, um Exército de criados e os melhores médicos.» Afirma Harari que a rainha deu á luz 16 crianças entre 1255 e 1284. E agora atentem: 10 dos seus 16 filhos morreram durante a infância, apenas 6 sobreviveram para lá dos 11 anos e só três ultrapassaram os 40 anos. Não há dúvida que a situação mudou muito, graças a múltiplos factores que não vamos aqui escalpelizar. E vai mudar muito mais…

Diz-nos Yuval Harari: “…os engenheiros genéticos conseguiram, recentemente, aumentar em seis vezes a esperança média de vida das minhocas. Poderão fazer o mesmo pelo homo-sapiens…”. E adianta: “… alguns académicos sérios sugerem que em 2050 alguns dos seres humanos se tornarão «amortais», não imortais, porque continuarão a poder morrer de acidentes ou outros incidentes fatais…”. Na sua ausência tornar-se-ão indefinidamente. Até.

Observação À Margem

No dia 21 de Outubro pelas 14:30 H, no grande auditório do Convento de São Francisco, vai proceder-se ao lançamento da Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea, Vol X.

O autor desta crónica e colaborador de O Despertar, foi seleccionado para constar dessa Antologia com um poema que verteu para o papel no ano de 2004.

Este acontecimento é uma iniciativa das Edições Planeta.

Artigo de António Inácio Nogueira, in Jornal O DESPERTAR

 

08
Nov18

S. Martinho e as castanhas


pequenos nadas

           

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Por estes dias de Novembro, três palavras vão enchendo o nosso léxico: Martinho, magusto e castanhas. Ligadas a todas elas estão o magusto de S. Martinho, o dia de S. Martinho e o Verão de S. Martinho, que encerram costumes antigos perdidos nas sombras do tempo.

 

            No calendário litúrgico, o dia de S. Martinho celebra-se a 11 de Novembro, data em que este Santo, falecido no ano de 397, foi sepultado em França, mais concretamente em Tours. S. Martinho foi, seguramente, durante toda a Idade Média o Santo mais popular desse País. O seu túmulo encontra-se em Tours desde o séc. V, chegando a ser o maior centro de peregrinação de toda a Europa Ocidental. A sua generosidade e humildade, coligadas a uma enorme fama de fazer milagres, transformaram-no num dos santos mais benquistos do povo. Foi esta personagem, membro do Exército Romano, monge, professor, missionário e evangelizador, bispo e Santo Padroeiro.

            São Martinho é Santo protector de diversas profissões de entre as quais estão os alfaiates, cavaleiros, curtidores, homens da restauração, produtores de vinho e soldados. Os alcoólicos e os pedintes também têm o seu favor.

            Foi ainda um patrono dos exércitos, já que a sua capa era, múltiplas vezes, transportada à frente das colunas militares como pendão de guerra.

            Igualmente alguns animais têm a sua tutela, como por exemplo, os cavalos e os gansos. É orago de uma série infindável de localidades em todo o mundo. Quatro mil igrejas são-lhe dedicadas em França, e o seu nome dado a milhares de localidades, povoados e vilas em inúmeros países do mundo. Em Portugal, similarmente, passa-se o mesmo de Norte a Sul do país. Aqui bem ao lado de Coimbra, está uma deles, S. Martinho do Bispo.

            Alves de Oliveira na Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, vol. 13 (Editorial Verbo), assegura-nos que Martinho era filho de um oficial do Exército. Aos 16 anos entrou para o Exército, ainda que a sua vontade já o inclinasse a ser monge. Em Amiens, provavelmente em 338, durante uma ronda nocturna e num Inverno de enorme rigor, deparou-se com um pobre maltrapilho. Não tendo à mão nada para lhe acudir, dividiu ao meio, com a espada, a sua clâmide e repartiu-a com o pobre desconhecido.        Diz o ditado que naquele momento se fez Sol. O povo crente assevera que, desde esse dia, se chamou Verão de S. Martinho ao tempo solarengo e ameno ocorrido nos primeiros dias de Novembro.

            O reputado etnólogo Ernesto Veiga de Oliveira, já falecido, descreve de forma picaresca, no seu livro As Festas. Passeio pelo Calendário (Fundação Calouste Gulbenkian, 1987), como se comemorava o S. Martinho. Para o autor é “… sobretudo a festa do vinho, a data em que se inaugura o vinho novo, se atestam as pipas, celebrada em muitas partes com procissões de bêbados de licenciosidade autorizada, parodiando cortejos religiosos em versão báquica, que entram nas adegas, bebem e brincam livremente e são a glorificação das figuras destacadas da bebedice local constituída em burlescas irmandades…”

            Os adágios populares não deixam dúvidas:

“- Em dia de S. Martinho faz magusto e prova o vinho.

- Em dia de S. Martinho lume, castanhas e vinho.

- No dia de S. Martinho vai-se à adega e prova-se o vinho.

- Mais vale um castanheiro do que um saco com dinheiro.

- Pelo S. Martinho, todo o mosto é bom vinho.

- Quem bebe no S. Martinho, faz de velho e de menino.

- Queres pasmar o teu vizinho? Lavra e esterca p’lo S. Martinho.

- Se o Inverno não erra caminho, temo-lo pelo S. Martinho.

- Pelo S. Martinho, deixa a água pró moinho.

- Pelo S. Martinho, mata o teu porco e bebe o teu vinho.”

            Há diversas tradições festivas associadas a esta data e que se relacionam com um espírito de convívio e de solidariedade. Aliado aos festejos do dia de S. Martinho está o tradicional magusto em que as castanhas imperam.

            Consideradas, actualmente, como uma iguaria de época, as castanhas, em tempo idos, desde a Pré-História, constituíram um nutriente alimentar relevante e um substituto do pão. Cozidas, assadas ou transformadas em farinha, as castanhas sempre foram um alimento muito popular.

            No nosso País foram sustentáculo alimentar até ao século dezassete, conjuntamente com o centeio, a cevada e o trigo, fundamentalmente, nas regiões periféricas e pobres do Norte e Centro onde os soutos eram abundantes. A introdução do milho e da batata foram reduzindo a sua importância na alimentação da população.

            Os magustos começavam no dia 28 de Outubro, dia devoto a S. Simão, e duravam até ao S. Martinho. Nesse dia, acontecia o magusto familiar em redor da lareira onde era suspensa, pela «trempe», o assador cheio de castanhas. Em casa da minha avó, na Beira Alta e na aldeia de Amoreiras do Mondego, celebrava-se esse dia, pois, segundo rezava o adágio popular, no “Dia de S. Simão, só não assa castanhas, quem não é cristão.

            Os magustos realizavam-se em todo o Minho, em Trás-os-Montes, nas Beiras, no Douro e noutras regiões, por vezes em grandes terreiros, nos soutos ou no meio da rua. Em muitos sítios iniciavam-se à tarde e duravam até noite além. As castanhas assavam-se em fogueiras e o vinho ou a jeropiga, circulava em cântaros ou garrafões, aliviando a sede aos participantes.

            Recordo os magustos realizados há mais de cinquenta anos, andava eu no Liceu da Guarda, por altura de S. Martinho, organizados com outros amigos da turma. Em grupo, e em grande alarido, caminhava-se da cidade para a zona dos «soitos» existentes à sua volta, fundamentalmente para os lados da Estação, bem acompanhados da água-pé e da jeropiga que alguns traziam de casa. Estes «soitos» desapareceram, completamente, submergidos pela construção desenfreada e desorganizada.

            Aí chegados, tratava-se de colher as castanhas varejando os ouriços, suspensos nos castanheiros, que caíam e deixavam tombar profusamente o acepipe. Depois dava-se-lhes um pequeno golpe e distribuíam-se em círculo, bem espalhadas. Tapavam-se com caruma e o lume ateado fazia o resto. Quando estavam assadas, começava o ritual em redor, encarvoando-nos uns aos outros, cantando e dançando já que a água-pé e a jeropiga também davam ânimo à festa.

            Vem esta ideia à coacção pela importância que ainda é reservada à castanha na sociedade portuguesa actual, comprada nas lojas, mercados, festas e feiras por esse País além, ou aos típicos vendedores de rua.

            Assada ou cozida, eis os resquícios da memória e da história.

António Inácio Nogueira

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