Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

30
Jan19

TESTEMUNHOS. OS COMBOIOS


pequenos nadas

 

            O comboio é, às vezes, “um fascínio tranquilo, outras uma aventura imaginativa, outras uma melancolia da separação e do inatingível.” Com esta frase do Pedro Mexia, vêem-me à ideia as imagens dos comboios que via passar no cimo da serra, sentado na varanda da casa da minha avó: comboios correio, comboios de mercadorias, comboios da noite com as suas luzes fugidias. E como eu gostaria de ir naqueles comboios. Para mim, um impossível mito, um clima melodramático. Descobria naqueles comboios a “ viagem, fuga, fadiga, sob um ângulo de distracção e esquecimento”, ou “ sonos em movimento”, nas palavras de Agustina, através de cidades, bosques e descampados.           

            Recordo as viagens que fazia, desde muito pequeno, pela linha da Beira Alta, e, muito do que foi dito, estava lá, naqueles comboios. Os assentos em madeira sobre o comprido, as janelas toscas que eu abria, contra a vontade dos meus pais, para poder colocar a cabeça de fora e ver a máquina, lá à frente, a puxar, vagarosamente, todas as carruagens. O seu esforço fazia deitar aquele fumo intenso e negro e faúlhas que, ansiosamente, aguardava que me passassem perto. Tudo reminiscências imorredoras. As pontes altas, de meter medo, que o comboio tinha de atravessar, os túneis escurecendo a carruagem, a linha correndo por entre morros e barrancos, elevados e estreitos, estão bem sinalizados nas minhas memórias. Tudo isto me divertia, ou, arrepiava, durante a viagem, um misto de medos e de aventuras.

            A paragem em todas as estações e apeadeiros era, para mim, um mistério. Umas vezes rápidas, outras vezes mais morosas. No primeiro caso, serviam apenas para a subida e descida de passageiros, no segundo, para encher de água o depósito da máquina ou, então, carregar lenha para alimentar a sua fornalha.

            As pessoas entravam e saiam com os seus cabazes e malas ou as compras feitas nas feiras das redondezas da estação. Alguns faziam-se acompanhar das suas merendas comendo em cima dos joelhos, protegidos por um guardanapo branco, por vezes, de linho, a servir de toalha. O pão preto, como eu lhe chamava, por ser de centeio, o chouriço, o presunto, tudo cortado de forma genial com uma «navalhinha», azeitonas também e o indispensável garrafão de vinho ou uma garrafa, para os mais moderados, eram vulgata.

            Apreciava os pregões pronunciados nalgumas estações. Quase sempre mulheres, divulgavam produtos regionais e as janelas do comboio abriam-se para os comprar. A «apregoadora», por vezes, em correria louca, tentava durante o tempo da paragem vender o mais que pudesse. Ainda recordo, por exemplo, “Arrofadas de Coimbra e barricas de ovos-moles ” e “água do Luso fresquinha” que vinha em cantarinhas de barro.

            O homem da gaita e das bandeirinhas, dando a partida ou a chegada, recreava-me e tinha inveja do seu poder, – fazer parar e andar o comboio. Havia, ainda, outro enigma, o barulho cadenciado das rodas nos carris, que a sabedoria popular dizia significar “pouca terra pouca terra” – interminavelmente. Era uma melodia que se metia pelos ouvidos, como se fosse uma partitura de Verdi. E eu, atónito, perguntava, ao meu pai, porque era assim. Ele explicava que o nome foi assim posto porque o comboio andava devagar.

            Ficava com pena de sair do comboio, mas, salvava-me a alegria de abraçar os meus avós à espera na estação. No regresso, lá vinha a tristeza de me separar deles. Ficava “o intangível sono e sonho em movimento”.

            Mais tarde, jovem-adulto, voltei a frequentar estes comboios da linha da Beira Alta, pois estudava na Universidade de Coimbra e os meus familiares viviam na cidade da Guarda e arredores. O comboio continuou a fazer parte integrante da minha vida.

             No final das férias do Natal e Páscoa era o retorno a Coimbra de grande parte dos estudantes das Beiras para iniciar as aulas. Centenas utilizavam-no, tal como eu. Nesses dias o comboio tinha muito mais carruagens e enchia-se à medida que passava as estações. Eram dezenas de raparigas e rapazes que estavam em cada estação, esperando, carregados com as suas malas e sacos, neles acarretando alguns mantimentos que davam para os primeiros dias. Eram as guloseimas, preferidas de cada um, feitas com enlevo pela mãe ou pela avó. Na altura, aproveitava-se tudo o que vinha de casa. A vida era difícil e os pais, muitos deles, lavradores, trabalhavam de manhã ao por do sol, no amanho das terras, para poderem ter os filhos na Universidade e, mais tarde, serem «doutores».

            Era a entrada na Guarda, Celorico, Fornos, e tantas outras estações e apeadeiros, que apinhavam o comboio de juventude irreverente. Falava-se muito e de tudo, o barulho era ensurdecedor, era o reencontro. Os risos contagiantes: Contavam-se anedotas e as peripécias das férias. Alguns faziam previsões para o novo semestre e respectivos exames. Os mais cultos, discutiam a política do pais, chamavam nomes pouco abonáveis ao ditador, à PIDE e suas práticas. Muitos amigos se fizeram nessas entradas e saídas, quantas cumplicidades, quantos olhares se trocavam, namoros ali nasciam e casamentos floresciam.

            Como poderei esquecer os comboios. A sua vida faz parte da minha, das minhas memórias.

            Hoje, ainda, gosto muito de andar neles. Percorri quase todas as linhas icónicas deste país, por exemplo, a do Corgo, do Douro e do Tua.

            Entre o rio e as serras, a viagem torna-se inesquecível, mesmo que repetida mil vezes. A paisagem monumental dos vinhedos e olivais ou os alcantis ciclópicos que, aqui e ali, comprimem as margens multiplicam-se na infinidade de olhares e sensações que despertam em cada recanto. Uma paisagem assim envolve-nos os sentidos e a imaginação Correndo entre as fragas da encosta e o rio, o caminho-de-ferro desvenda a épica do lugar. Não é apenas o que os olhos vêm que nos surpreende. É a nossa própria meditação, embalada no rumor dos carris, que mistura sensações e memórias, busca a compreensão do que não se vê mas se imagina em cada trecho da paisagem. [adaptado de Gaspar Martins Pereira].

            Vá ver. Ande de comboio e sonhe.

António Inácio C. Nogueira [ in O Despertar]

 

25
Jan19

TESTEMUNHOS. As Micro Narrativas Para Um Ano Melhor


pequenos nadas

 

 A micro narrativa ficcional ou real é um género literário ainda pouco divulgado entre nós. Apela a uma grande capacidade de síntese para descrever situações importantes ou caracterizar reflexões prospectivas para a sociedade.

 Findou o ano de 2018. Aí está 2019.

Nos primeiros dias do Novo Ano escrevi 15 micro narrativas que traduziam acontecimentos que se passaram no ano acabado. Desejaria que não voltassem a acontecer. Fui eliminando narrativa a narrativa, após reflexão cuidada, e, remanesceram quatro – aquelas cujo contido fosse erradicado pelos homens que governam e habitam este Planeta.

Elas representam o desespero de muitos, o Natal que devia ser de todos e não é, as desigualdades sociais que se desenham, dia após dia, sem solução à vista, as catástrofes naturais que sobrevêm por culpa do homem descuidado em acabá-las.

            Poderão dizer: para que servem estas micro narrativas, com escrita tão inquietante!...

            Eu explico: há um desassossego em mim que leva á busca de algo. Só me sinto bem onde não estou, só quero ir para onde não vou. Possuo estas ânsias existenciais. Só tenho o que não tenho e gostava que os outros tivessem o que eu tenho. Escrevo deste modo para mitigar os alvoroços que me ocorrem.

Aqui ficam, pois, as quatro micro narrativas eleitas interpretes do meu querer.

Agora, cabe aos meus leitores fazer a sua interpretação e criarem também as suas, quer no discurso, quer na contribuição para sua prática, tornando 2019 um ano melhor.

Primeira

Estou sentado à borda do precipício. Baixo as mãos e reparo que estão vazias de nada. Hesito. Levanto-me e vou cambaleando, à beira do abismo, celebrando o nada com uma embriaguez imaginária. Fiquei empanturrado de tanto beber a raiva de não ser capaz. O pânico foi tudo. Hoje estou vivo por fora, mas findo por dentro.

Segunda

            Noite, geralmente fria, ontem e hoje; árvores despidas a altearem os ramos para o céu; campos, estradas, ruas, aldeias e cidades vazias. Ontem e hoje. A consoada tem não sei quê de unção, de poesia, de inspiração, a todos faz reunir. Ontem e hoje.

            Terceira

            Ontem e hoje. Há quem continue calcorreando caminhos sem destino, vazios. São os deserdados, os pobres e meninos de rua, os sem abrigo, os desalojados, os migrantes, um sem fim de seres humanos açoitados nesta Terra hipócrita e desigual. Ontem e hoje.

            Quarta

 

            Estradas de morte, onde perecem os que ainda possuem forças para fugir ao flagelo, apanhados pelo monstro que cospe chamas de sangue. Corpos que já transpiram de morte, carros destruídos qual cemitério de latas, onde, no seu interior, jazem famílias inteiras carbonizadas, juntas num abraço final.

 

 

17
Jan19

Salgueiro Maia


pequenos nadas

P`lo INTERESSE DESPERTADO

COM A DEVIDA VÉNIA AO AUTOR de N` BIGORNA, DAVID MARTELO.

http://www.a-bigorna.pt

Salgueiro Maia.jpg

 

CRÓNICAS DOS FEITOS POR GUIDAGE OU OS DIFÍCEIS CAMINHOS DA LIBERDADE

 

A acção decorre na Guiné no ano da graça de 1973, num Maio em fim de época de chuvas. A subunidade a que pertenço tem oficialmente a sua comissão terminada, está no que se chama “mata-bicho”. O dia 5 de Maio nasceu calmo; no entanto, cedo se notou uma azáfama anormal de meios aéreos. Pelas 07.00 ouviu-se forte tiroteio, pelo que, tendo-me dirigido ao rádio, ouvi grossa confusão de pedidos, de apoio aéreo, de apoio de artilharia, de evacuação, etc. Para cúmulo, tudo aquilo partia de um destacamento a cargo de um pelotão da minha companhia e sem eu ter conhecimento de qualquer acção das NT1 nessa zona. Face à confusão no rádio e ao desconhecimento do que se passava na zona, segui para o meu destacamento com o efectivo disponível, que era de cerca de 10 homens. No destacamento de C..., transformado em PC 2 avançado, amontoavam-se, sentados no chão, cerca de 150 homens que se encontravam de reserva; o ambiente era de nervosismo. Pouco depois de ter chegado, novo contacto do PAIGC com outro bigrupo das NT. Dos primeiros contactos resultaram 6 mortos para as NT, incluindo 3 milícias, vários feridos graves e o destroçar do bigrupo, que deixou no terreno os mortos com o respectivo material e equipamento, de que se salienta: 3 equipamentos completos, 1 metralhadora HK21 completa, 2 espingardas G 3, 1 emissor-receptor e outro material diverso. Os sobreviventes foram aparecendo no destacamento de C... cobertos pelos helicópteros e aviões que os foram sobrevoando até chegarem à estrada. Do segundo contacto, resultaram 1 morto e 3 feridos graves e a captura pelo PAIGC de um equipamento completo, 1 espingarda G 3 e um morteiro de 60. Ao contrário do primeiro contacto, os homens permaneceram no terreno, pois não sabiam como sair de lá, nem tão-pouco sabiam como garantir as evacuações dos mortos e feridos; pediam pela rádio para lhes acudirem. Face à situação, o comandante do batalhão manda avançar a companhia em reserva para acudir aos camaradas, mas, pura e simplesmente, a companhia recusa-se a avançar. Fico tão enojado com esta cena que, tendo como único pessoal sob o meu comando os 10 homens que tinham vindo comigo mais outra secção do destacamento de C..., disse-lhes que eu ia buscar os homens que estavam na mata, se houvesse mais alguém que não fosse cobarde podia ir comigo. As 2 secções minhas e mais 5 homens subiram comigo para 3 Unimogs 404 e, de imediato, fomos acompanhados por 2 autometralhadoras Panhard do esquadrão que actuava na zona e que, também voluntariamente, foram recuperar o pessoal que se encontrava perdido na mata. Para quem não conheceu a mata da Guiné, é difícil explicar como se consegue ir a corta-mato com viaturas tendo de encontrar passagem por entre as árvores, os arbustos, o capim alto, as ramagens com picos e, ao mesmo tempo, seguir uma direcção certa, rumo a cerca de 60 homens deitados no chão. Para fazer 7 km demorámos cerca de hora e meia, apesar de tentarmos ir o mais depressa possível. Depois de rotos pela vegetação e cansados de correr ao lado das viaturas, chegámos ao local de combate; ainda pairava no ar o cheiro adocicado das explosões; os homens tinham um ar alucinado, de náufrago que vê chegar a salvação, mas, em lugar de mostrarem a sua alegria, estão ainda na fase de não saber se é verdade ou não. 1 Abreviatura de «Nossas Tropas». 2 Abreviatura de «Posto de Comando». 2 Mando montar segurança à volta da zona; pergunto pelos feridos ao primeiro homem que encontro – tem um ar de miúdo grande a quem enfiaram uma farda muito maior que ele, parece de cera – olha-me como sem me ver e aponta-me com o braço. Sigo na direcção apontada, depressa vejo um bando de mosquitos e moscas, já sei que à minha frente tenho sangue fresco. Debaixo de uma árvore estão estendidos 5 homens; o capim está todo pisado; alguns dos homens estão em cima de panos de tenda; no chão estão várias compressas brancas empastadas de vermelho; o chão parece o de um matadouro, há sangue coalhado por todo o lado, a maioria do sangue vem de um dos homens que já está cheio de moscas. Dirijo-me para ele, está com cor de cera, está praticamente nu, olha-me como que em prece, ninguém geme, o silêncio é total. Trago comigo o furriel enfermeiro e um cabo maqueiro. Mando-os avançar assim como as macas. Dirijo-me ao ferido mais grave, o ferimento provém-lhe da perna, tem em cima dela várias compressas empastadas de sangue; tiro as compressas e vejo que o homem não tem garrote. Pergunto estupefacto porque é que lhe não fizeram um garrote. Alguém me respondeu que o enfermeiro está ferido. Começo a sentir raiva. Continuo a tirar as compressas, que foram postas a monte, sem sequer terem sido apertadas. O homem tem um estilhaço na zona da articulação do joelho. Vê-se a tíbia; toda a carne se encontra como que seca, envolvendo um buraco do tamanho duma laranja. Enquanto o enfermeiro lhe presta os primeiros socorros, quase 2 horas depois do ferimento, dou-lhe uma palmada no ombro e digo-lhe: «Já estás safo. Vamos evacuar-te», mas acreditando pouco no que estou a dizer. Os restantes feridos não são muito graves, para além de um que tem um buraco no peito e deve ter hemorragias internas. O dia começa a cair. Na zona não é possível fazer descer helicópteros. Resta a solução de, na caixa dos Unimogs, levar os feridos a saltarem, como fardos, em cada salto da viatura. Quando estamos para arrancar, ouvem-se várias explosões. Todo o mundo vai para o chão. Fico sem perceber, não ouço tiros de armas ligeiras. Na fracção de segundo em que, deitado no chão, tento perceber o que está a acontecer, começamos a ouvir como que o barulho de aviões a jacto. São os “jactos do povo”, foguetões de 122 mm que o PAIGC atira para a povoação, sede do batalhão. Como a guerra não é connosco, mando retirar. O ferido da perna é acondicionado com as roupas do morto e todos os panos disponíveis na caixa do Unimog. O cabo enfermeiro segue sentado a seu lado com um frasco de soro nas mãos. O morto é colocado ao lado, embrulhado num pano de tenda; tem o peito aberto, parece um porco no talho. Pouco depois de iniciar o regresso, o ferido na perna morre. Nunca falou ou gritou. Guardo dele uns olhos assustados a brilhar, numa pele branca e seca, a ficar vazia de vida porque, em 60 homens, ninguém sabia o mais elementar em primeiros socorros – fazer um garrote. Chego ao destacamento de C... Estão à minha espera uma coluna com ambulância para evacuar os feridos por terra, o médico do batalhão receita injecções e dá conselhos aos enfermeiros. Sigo no Unimog, que agora só tem cadáveres. Agradeço ao pessoal que saiu comigo a sua dedicação e digo-lhes que, mais que os agradecimentos, a nossa consciência nos recompensará. Mando preparar a minha secção para regressar ao meu destacamento. Enquanto se forma a coluna para Bissau e o meu pessoal se prepara, dou comigo a contemplar os mortos de olhos e boca aberta com aspecto de quem não compreende nada do que aconteceu. Mecanicamente, tiro os atacadores das 3 botas dos mortos, ato-lhes os queixos, as mãos em cruz, os pés juntos, com a água do cantil molho-lhes os olhos e fecho-lhos. Olho para a minha obra e também não entendo. Entretanto, os seus camaradas contemplam de longe mas não se acercam. Ainda agora, sempre que um Senhor General da Brigada do Reumático diz que «a guerra estava ganha», me vem à memória a morte estúpida daqueles homens e a vitória que eles ajudaram a reparar.

DE SALGUEIRO MAIA

 

11
Jan19

P`ra Memória Futura: O Centenário do Armistício de um Selvático Morticínio.


pequenos nadas

 

            “Quando falo em memória, penso principalmente em falta de memória”, afirma-o Rui Tavares. Eis um pensamento de alerta. Desencadear uma guerra é fácil, mas acabá-la é complicado. Assim aconteceu com a I Guerra Mundial.

            Como expressa o estribilho, por todos conhecido, a I Guerra Mundial acabou à décima primeira hora do décimo primeiro dia do décimo primeiro mês de 1918. O mundo emudeceu. Num ápice, o silêncio tomou conta dos que não pereceram. Estupefactos ficaram. Logo após, veio a festa. A festa feita com o pouco que restou. Quase nada.

            Os nossos soldados haviam lutado aguerridamente nas trincheiras da Flandres ou perto de Verdun, onde os ratos, a fome, o frio e a metralha, transformavam a vida em morte anunciada. Todos os dias. Se pudessem colocar o olho de fora das valas tenebrosas, observavam, em redor, uma devastação inenarrável salpicada de cadáveres mutilados com corações desapegados.

            Partiram de Portugal mais de 100 mil homens para as diversas frentes de guerra. Mal treinados, mal equipados, mal fardados. Com a marmita vazia.

Cerca de 53 mil chegaram a França em 1917, e, dos excedentes, a maioria embarcou em direcção a África. De acordo com vários historiadores credenciados, morreram em França 1935 militares.

            A I Guerra Mundial, foi um morticínio. O seu balanço final calamitoso. Em 4 anos de guerra, foram mobilizados mais de 70 milhões de soldados. Morreram 10 milhões de pessoas e mais de 20 milhões ficaram feridas. O conflito originou mais de 10 milhões de refugiados, foram contabilizados mais de 6 milhões de prisioneiros. O número de órfãos atingiu também os 6 milhões. A pobreza que se seguiu é inclassificável. A destruição das cidades, vilas e aldeias, fizeram chorar lágrimas de sangue. Restavam destroços. Ao olhá-los, os sobreviventes pensavam que tinham aportado ao Inferno. Também ao fim de todas as guerras. Afinal só chegaram ao Inferno. Foi tudo em vão, dali a uns anos, viveu-se a II Guerra Mundial. E a III pode estar à nossa beira incrivelmente veloz, acessível a todos, a qualquer hora e em qualquer lugar, basta os humanos não repensarem os seus modos de agir e cuidar.

            A xenofobia, o racismo, o nacionalismo, estão a florescer na Europa e noutras partes do globo. Aonde vai levar este ressurgimento? Eu sei que todas as guerras começaram por aqui. Tenho medo. Sinto a Europa e parte do resto do Mundo, a fechar-se ao outro. Aos refugiados, por exemplo, o que me atira para memórias extremamente cruéis. Não pretendo viver, os anos que me restam, numa Europa Fortaleza de que tanto falava Hitler.

             Tenho horror às pátrias fechadas e às fronteiras com muros. Tenho aversão às fortalezas de Trump. A III Guerra pode passar por aqui. Morrer será doutra forma: porventura, sem canhões. Possivelmente sem armas nenhumas, apenas com algoritmos e folhas de Exel.

             Mas morre-se e despenha-se tudo. Tudo o que foi construído, com tanta euforia e certezas p`ra ficar de pé. Na era da robotização e do ciberespaço morre-se, mas, vertiginosamente, Haverá muito sangue, sangue incolor computacional.

Observação Importante

Portugal na 1ª Guerra Mundial-Uma História Concisa. Vários autores, 1162 páginas, poderá ser gratuito a pedidos para cphistoriamilitar@defesa.pt

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D