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CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

02
Fev18

Agora já são 8 horas da noite!


pequenos nadas

 

 

Ao mesmo tempo que Sansão Coelho apresentava o meu livro Capitães do Fim… Uma Radiografia Estatística, no Café Santa Cruz, com o seu elevado grau comunicativo e o saber-saber que iam ajudando à compreensão clara do que era complexo e divergente, pela minha mente iam desfiando pedaços da minha vida enquanto Capitão do Fim. Lembrei-me do dia da chegada a Angola, a sensação de sentir o bafo inebriante do cheiro africano e de duas efemérides que mexeram comigo, marcantes, passadas na solidão da mata: a noite de consoada e a passagem de ano.

Saí dali e vá de procurar o meu diário amarelado e carcomido de quarenta e três anos de idade. Lá fui encontrar escritos meus, evocativos desses momentos e dessas datas que transbordam emoção, desespero e solidão.

"Chegado a Luanda. Um bafo quente me acolhe. Está um dia bonito, as águas da baía brilham sob a luz intensa do Sol. Aspiro o cheiro novo, o cheiro africano que inebria. Um cheiro que não é cravo nem canela, como diria o poeta. Também não é catinga. É maresia com cacau e café, marisco e cerveja, whisky e coca-cola, manga, banana e coco. Também o cheiro a pólvora longínquo. A terra é vermelha, não sei se será de sangue. Pelo menos cheira a entranhas.

Luanda é uma cidade bonita, cheia de contrastes. Baloiça entre opulência e miséria. As duas contradições convivem lado a lado, sem ressentimentos aparentes. Mas eles existem e fluem, difundem-se mais do que se pensa. Há nesta cidade uma animação falsa. A tropa enxameia tudo. Parece que a universalidade é tropa. Luanda são as Caraíbas do militar do mato, o seu centro de férias predilecto. Aí se extravasam os afectos e se põe em dia o sexo. A vida nocturna é trepidante e avassaladora.

Há também os musseques enormes, onde a pobreza, o analfabetismo e a prostituição dormem lado a lado. Luanda é também a cidade das crianças. Aí pululam centenas de pequenitos negros, nus ou mal vestidos, pedintes, engraxadores, meninos de rua.

Luanda traja a beleza avassaladora em redor da sua ilha dourada, a marginal bancária, o comércio fluorescente, a indústria que desponta, os hotéis onde os grandes fazendeiros fumam charutos nas poltronas, os bairros onde se ostentam, deliberadamente, os sinais de riqueza.

Luanda é uma cidade fardada. Daqui partem tropas. Aqui chegam tropas. É um movimento em permanência. Ouvem-se os boings a aterrar, talvez um seja militar. Se o for, traz novos guerreiros e leva os que chegaram ao fim da jornada de África.

Sentado numa das muitas esplanadas de Luanda, sou um observador atento. Bebe-se cerveja e comem-se os apetitosos caranguejos de Moçâmedes. Aí pode-se suspeitar quem chegou e quem parte. Nestes lugares de encontro está presente o movimento de embarque e desembarque. A rir estão os que se vão, sorumbáticos os que chegam. Só quando o álcool já abunda no sangue quente se parecem uns com os outros.

Afinal de que me importa tudo isto! Para mim, ainda não há regresso. Há só partida.

É tempo de iniciar o caminho para a guerra.

  • Agora já são 8 horas da noite, 24 de Dezembro de 1972. Estou cá fora, sentado debaixo de uma palmeira frondosa que existe na parada do aquartelamento. As horas desta noite têm mais segundos, estão a custar a passar… eu sei que, lá longe, do outro lado do Maiombe, a milhares de quilómetros, os meus avós, os meus pais, a minha mulher, a minha filha, puseram o meu prato na mesa, aguardando pela minha chegada. Cheguei, e agora só tenho de esperar que me sirvam. Levanto as mãos para o alto e caem nelas milhões de moléculas de água de cacimbo que transportam as filhós da minha avó, as batatas com bacalhau e as couves das Amoreiras, o indispensável tinto de Foz de Arouce e, também, o bolo rei, as rabanadas e o leite com chocolate.

Baixo as mãos e reparo que estão vazias de molhadas. Levanto-me e vou ao meu quarto celebrar o nada com uns copos. Fiquei empanturrado de tanto manjar a raiva de estar longe.

Também nesse momento, os meus soldados que estão na mata, abrem as rações de combate e comem-nas com molho de saudade.

  • Estamos no dia 31 de Dezembro de 1972, é meia-noite. Tocam já as badaladas nos corações dos soldados. É a ceia da passagem de ano. Vêm servir-nos numa grande terrina metálica já amolgada por estilhaços de granada. Lá dentro, muito fel e pouco mel. O gravemente sucedido é que não esqueceremos nunca mais!...

O vinho e o whisky correm gargantas abaixo. Fazem-se pedidos para 1973, não com passas, mas com as migalhas da mesa. Bebeu-se muito mais que a sede, para acalmar o tormento e acicatar a memória.

A noite fica mais clara com os vapores do álcool. Durante o crepúsculo a aragem é fria. O soldado sentinela embrulha-se no cobertor, senta-se com a G3 sobre os joelhos, põe os olhos lá longe onde o perigo espreita e diz, baixinho, com a voz já entorpecida, pai, mãe, Bom Ano Novo de 1973."

São memórias sempre sobrevivendo e que marcam, não é Sansão Coelho?

 

António Inácio Nogueira [ in Jornal o Despertar, Coimbra]

 

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