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CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

27
Jun18

Contadores de Histórias


pequenos nadas

Está muito frio em Coimbra. Eu vou de Monte Formoso, a pé, até à Baixa e sinto-o bem percorrendo o meu corpo; muito mais o sofro quando atravesso o emaranhado das suas ruas estreitas, onde nesta época do ano não assoma o Sol.

            Este frio faz-me lembrar o escano e os contadores de histórias da minha aldeia beirã. Para Luís Vale o escano estava associado à noite, ao Inverno e ao frio, aos ambientes interiores, ao espaço íntimo e privado das reuniões demoradas. Para o mesmo estudioso ele possuía uma vivência individual e grupal muito particular, de reunião e partilha, dizendo mais respeito em cada casa às relações de amizade, cooperação laboral e compadrio.

             Como diz Álvaro Campelo, a actualização do «dito» e do «acontecido» na palavra do emissor transformava o «palco» da lareira. Alexandre Parafita, realça a memória oral do povo como património valioso e inesgotável. Por tudo isto, o contador de histórias estava sempre presente. Era uma figura ancestral, preza ao imaginário de inúmeras gerações ao longo da História. As narrativas eram tecidas pela sua voz mágica, ao redor de lareiras que contribuíam para criar uma atmosfera de intensa magia.

            O contador de histórias não era um mero reprodutor de narrativas, ele também gerava os seus relatos. Conforme a disponibilidade ambiental, ele fantasiava e acrescentava os seus contos, tendo como principal ferramenta a palavra que detém o poder de metamorfosear o comportamento humano.

            É desta forma que vou ao encontro dos meus avós, já falecidos há muitos anos, mas sempre recordados por mim. A minha avó era uma exímia contadora de histórias e gostava do escano, principalmente nas noites frias e ventosas da serrania. Sentava-me à sua frente e ela começava, sempre, com a frase “era uma vez”… sei lá um lobo, um pai, um pássaro, uma fada, e tantas outras coisas. Havia narrações relatadas que já vinham de tempos de outrora, embora ela, dotada de uma criatividade imensa, as contasse sempre de uma forma diferente. Outras inventava na hora para fazer a vontade a quem estivesse no escano. Adorava ouvir a minha avó… Não contava histórias lendo (onde havia livros para tal?), tudo provinha da sua cultura oral desenvolvida. Não contava de forma passiva, retórica, sempre no mesmo tom. Ela era incomparável nas atitudes gestuais, nos sons que emitia, na imitação dos falares dos animais, das bruxas e das fadas. Era uma verdadeira animadora.

            Entusiasmava sozinha, não precisava de materiais outros para motivar… e lá vinha o pedido, «ó vozinha» só mais uma, só mais uma.

            Hoje contam-se histórias aos meninos, não me atrevo a dizer que não bem narradas, mas há sempre materiais didácticos de apoio. Existem técnicas para a animação da leitura que se estudam e treinam nos cursos de animadores culturais ou socioeducativos, quer seja para crianças ou adultos.

            A minha avó não tinha à sua disposição materiais de apoio, toda ela era tudo no escano!

           Recentemente a imagem do contador de histórias retoma-se e vitaliza-se. Procuram-se cursos e oficinas técnicas para aprender a contar. Segue-se na direcção da profissionalização. As escolas chegam a reservar um espaço no currícula para este acontecimento. Às vezes até mesmo docentes e bibliotecários são preparados para exercerem esta actividade. O bom contador de histórias está de volta, e é novamente apreciado. Ainda bem.

 

[in O Despertar, António Inácio Nogueira]

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