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CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

10
Jan18

De Tanto Engolir Lágrimas, Afogo-me Em Angústia.


pequenos nadas

 

 

            O último dia da vida de uma mulher ou de um homem não existe. Fora dos livros que narram… ninguém tem direito a um último dia, somente a uma interrupção acidental de vida… (leia-se Bruno Vieira Amaral no seu magnífico livro “Hoje estarás comigo no paraíso”).

            É olhando esta perspectiva que encaro o fim dos meus familiares próximos e dos meus amigos de uma vida, poucos. Por isso, quando tal acontece, de tanto engolir lágrimas, afogo-me em angústia.

            Sento-me na solidão que recorda os momentos vividos em conjunto, os ensinamentos que obtive dessa vivência, do amor ou amizade que cultivámos e foi penetrando os laços apertados da alma. Mesmo os instantes de dificuldades relacionais são revividos naquele momento e, são lenitivos para dar razão aos que acreditam que o fim não é o fim. É por tudo isso que nesses ápices de isolamento acompanhado, alcanço transformar pensamentos e sentimentos em palavras sentidas que transfiguram o Fim em vida.

Estes sítios, que vou levar-vos a (re) visitar, já são para muitos moradias de espíritos, revelações de outros seres. Mas não são o Fim. Com estas palavras vou despertar antigos fantasmas. Convocar o que resiste e fazer do antigo novo. Vou dar vida ao passado.

 

No dia da morte da minha mãe fui o primeiro a chegar à casa funerária. Estava com ela deitada à minha frente, quieta e gélida. Peguei num papel que tinha no bolso, escrevi-lhe e deixei o escrito preso a um ramo de flores. Desejei-lhe boa viagem para o Fim que era o início de qualquer coisa.

 

“Minha mãe!...

Já agora…

Que vais de viagem,

Faz-me um último favor.

Carrega contigo,

Os cravos e as rosas

Do nosso descontentamento,

E o peso…

De muito amor.”

 

             No dia do enterro do meu pai ao chegar perto da cova funda, comecei a sentir passar à minha frente não a morte mas o fio da sua vida.

            «Sobe a rua da Urbanização da Quinta do Sobreiro vagarosamente, agora usa bengala para melhor se equilibrar. A subida é difícil, e ele só há pouco tempo começou a sentir o embaraço. Mais um pouco e lá chegaria. Esbaforido com as pernas doentes e magoadas, lá abeirou. Aquele velho alcançava sempre, para ele era preciso chegar sempre.»

            E ao cair de cada pazada de terra sobre o seu caixão as palavras brotavam às golfadas. Chegado a casa escrevi-as num papel que ainda hoje guardo:

 

            “Hoje ouvi cair em cima do teu caixão pazadas de terra agreste. Não era não, daquela terra que tu domavas e que fazia florescer os teus pomares!... Era outra terra, que eu bem vi: muito mais madrasta e que vai devorar o teu corpo!

Olha…, mas deixa lá!...

            Eu não vou esquecer a tua inteligência, a tua sagacidade, o teu engenho, a tua inventividade, e o amor que tinhas por mim, que tão bem sabias resguardar para que eu nunca o entendesse.

            Olha pai, já estou a ouvir as tuas músicas. O teu trompete toca sozinho e tão bem! Tudo isto de que te falo, ela não vai comer, não, porque está comigo, guardado nas minhas entranhas e memórias.

            Para sempre. Prometo-te.”

 

Uns anos mais tarde afoguei-me em angústia de tantas lágrimas engolir pelo meu neto. Um oceano revolto. Aquilo que eu sofri para dentro nesses vales interiores onde se fundiam os poentes! Sonhei então que nenhuma pessoa é só uma vida. Nenhum lugar é apenas um lugar.

            Sonhei o futuro e não a morte. E escrevi.

 

A flor que foi menino

Aquela flor em botão que eu vi murchar,

Na réstia dos meus anos, sempre vou zelar.

Todos os dias quinze, dos ventos a vou abrigar,

P’ ra suas pétalas ver desabrolhar.

 

E, depois, sempre cuidar,

Com elas conversar, brincar,

Histórias contar.

Intensamente cheirar,

P’ ra me perfumar.

À bola jogar;

P’ la Académica gritar;

P’ la Internet brigar;

P’ lo mandar estudar, amuar.

Mas sempre voltar, repetidamente, gostar.

 

A flor tornou-se criança,

O menino de sua mãe,

E meu também.

A dezasseis disse adeus e desapareceu...

Mas eu sei onde o encontrar,

Pois então!

No quarto das «tralhas», a jogar

Ao pião,

Aquele lugar escondido do meu coração.

 

            Já por diversas vezes escrevi num impulso, perante os meus amigos, aquele FIM que é o princípio de qualquer coisa. A família colocou aqueles papéis emoldurados junto à urna. Estou certo que lhes deu o alento da vida e não da morte.

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