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CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

12
Jan18

Duas Mulheres: Adélia Pedrosa e Madalena Martins.


pequenos nadas

 

 

            Há mulheres e homens que me tocam e enlaçam por dentro para sempre. Às vezes não os conheço, mas basta-me a sua biografia, e o trabalho duro e honesto desenvolvido, para os ter como padrões de vida. São estas pessoas que me têm ajudado a viver e a ser quem sou. Não, de todo, os pseudo intelectuais de «meia tigela», os elitistas tacanhos, os protegidos de políticos e altas personalidades, feitos à medida para receber benesses e empregos, os produtos dos bastidores dos partidos que, ao longo da vida, nada produzem mas são bem falantes, pronunciados eruditos, bem vestidos, o bastante para se erguerem na classe social, os simpáticos que, por debaixo de uma capa de sorriso fácil, escondem muita hipocrisia e incompetência. Por último os de verbo fácil mas vazio de conteúdo.

            Em vez destes todos, prefiro a Adélia e a Madalena para exemplos de vida. Admiro as mulheres e os homens que produzem o seu destino.

 

Adélia Pedrosa

            Nasceu na Praia de Pedrógão em 1941, filha de Carlos Parracho e Maria José Pereira. Viveu e cresceu no meio da pobreza dos pescadores de então e sofreu na pele o frio dos invernos cavernosos. Seu pai era um desses pescadores e faleceu muito jovem, quando Adélia tinha apenas sete anos. Este facto fez com que a menina cedo começasse a trabalhar para coadjuvar a mãe nas finanças domésticas. Um dia disse adeus àquele infortúnio pardacento e, junto com os seus avôs adoptivos, viajou para o Brasil, ficando a residir no Rio de Janeiro. Aos dezassete anos fez a sua estreia no mundo do fado. Durante a sua vida gravou vários discos, tanto em Portugal como no Brasil, acompanhada pelos melhores músicos. Conheceu os fadistas célebres da altura e com eles cantou e gravou.

             Conheci a sua filha Adélia através dum blogue que possuía na internet. Foi por intermédio dela que fiquei a entender melhor o seu percurso biográfico e a ouvir e apreciar sua magnífica voz. Releva o seu reportório na interpretação do fado e de música folclórica portuguesa, fundamentalmente do Douro Litoral e Nazaré.

            Foi por intermédio de sua filha que lhe fiz chegar às mãos este poema É a minha homenagem à mulher que sofreu na carne as profundezas da miséria e soube dar a volta ao destino madraço que lhe haviam traçado. Intitulei-o Maria do Mar. Não sei se alguma vez foi cantado ou musicado. Pouco importa. Fica nele a mulher que admiro.

Maria do Mar

I

Pedrosa é nome que vem da Praia,

Maria nasceu do Mar.

Adélia é barco a vogar,

Na onda que se espraia,

E de azul desmaia,

Nos areais do Pedrógão pescador,

Outrora presente hoje mais distante.

Mas ó Maria, o distante bastante,

Para ainda o amares,

Nele pensares,

E também o cantares,

Com alma, memória e fervor.

II

E que cantas tu, Maria?

As vivências e as lembranças,

Das casas feitas de pobreza,

Que tu privavas, por dentro, sem surpresa?

Os homens e as mulheres tisnados pela maresia,

Lutando para sobreviver o dia-a-dia?

A beleza infinita dos areais sem par?

O vento sussurrante que entrava pelas ruas do lugar?

Pois é, Maria do Mar, tu cantas tudo: as esperanças,

E também as desesperanças.

Sabes, és como o pássaro dunar,

Que trilha a melodia do lar.

O ninho, pertença e lugar.

 

[Este poema foi recentemente escolhido para fazer parte da Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea, editada pela Chiado Editora]

 

Madalena Martins

            Madalena nasceu em Coimbra e tem 57 anos. É filha de gente humilde e pobre: - o pai «gasolineiro» e a mãe doméstica, para os seus e para os de fora, como mulher-a-dias. Viviam todos com pouco e honestamente, ou seja, com o que se podia. Montarroio era o lugar. A Madalena, antes e depois de se casar com o Jorge, era empregada de balcão de uma padaria/pastelaria. Em 1997 iniciou o trabalho na tabacaria, mister que nunca mais deixou.

            Antes de entrar no Café Santa Cruz, olha-se para o lado direito e enxerga-se um pequeno quiosque dedicado à venda de jornais, revistas nacionais e estrangeiras, e à prestação de serviços diversos, como a venda e carregamento de cartões e o pagamento de água e de luz.

            Desde que frequento aquele café de acolhimento diário, sempre me lembro de olhar e ver, no seu espaço minúsculo, a Madalena Martins, labutando no seu quiosque de amor.

            Aquele ar sorridente, acenando com a mão à minha entrada, a que eu correspondia, era o meu lenitivo matinal.

            A nossa amizade cimentou-se e, de manhã, quando ia comprar o jornal, sempre trocávamos algumas palavras sobre a vida que por vezes é madrasta e não ajuda os mais pobres e os que mais merecem pelo trabalho árduo e honesto que desenvolvem.

            Esta conversa alegrava-me a alma e dava-me alento para o resto da dia, numa altura em que andava doente e qualquer palavra sábia, como a sua, fazia correspondência a um medicamento milagroso.

            O seu estado de saúde também já não era dos melhores e veio a agudizar-se, quiçá resultado daquela vida árdua, permanentemente de pé numa área apertada, quer fizesse calor ou frio, durante anos a fio. Eu também tentei com algumas palavras, não tão sábias como as dela, dar-lhe o ânimo que às vezes é necessário comunicar a todas as pessoas, por mais fortes ou vulneráveis que sejam.

            Vi nela uma mulher de rara honestidade, humilde mas com um carácter indómito, mulher e mãe apaixonada, solidária com o desencanto de vida das pessoas mais necessitadas. Também a vi ser firme quando alguém beliscava o seu carácter ou a sua honestidade.

            Hoje passo, olho e sinto a falta daquele aceno. Vou comprar o jornal e, apesar da presença dos seus familiares de uma delicadeza tocante, tais como a filha Rita e o marido Jorge, sinto um vazio irregenerável.

            Aguardo o seu regresso como aguardo sempre o de quem me faz falta. Quero-a ver retornar firme como dantes; agradecida mas nunca serviente, por qualquer gesto ou acção que lhe façamos, ás vezes sem nos custar muito.

            Preciso do seu adeus. Sabem, caros leitores, há pequenas coisas, pequenos gestos, pequenos nadas que para mim, para alguns de nós, são grandes e inigualáveis, quando comparados com os aparatos fictícios e as simpáticas falsas de tanta gente que em meu redor enxameiam.

            Venha, a Baixa precisa de si e, o seu palácio revestido de jornais apela pela Lena todos os dias.

            Dirão, a Madalena é porventura, uma mulher igual a muitas outras. Que seja. É, no entanto, diferente de quase todas pelo seu espelho de alma.

[ Do autor do Blog, in O DESPERTAR, Jornal centenário de Coimbra]

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