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CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

17
Jan18

Futebol


pequenos nadas

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 Duas finais de Taças de Portugal. Em Cima Taça ganha. Em Baixo Taça perdida.

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 [ Com a devida vénia a SAPO.pt]

 

Hoje vamos falar de futebol. Não vou esconder que me dá prazer a modalidade. Não tenho preconceitos como alguns que consideram ser «fã» um acto de deficiência cultural. Contudo, escondidos no «sótão», longe das vistas, apreciam os «prélios» do seu clube favorito.

          Fui sempre um amante do desporto em geral. Quando muito jovem o andebol, voleibol e atletismo eram os meus preferidos, e todos eles executava com regularidade. Quando regressei a Coimbra (terra onde nasci e deixei com tenra idade) para frequentar a Universidade, o futebol e o basquetebol tomaram conta das minhas preferências, sem no entanto os praticar. Tornei-me um adepto fervoroso da Académica. O futebol da Briosa era para mim uma paixão e cada jogo uma alegria vivida, debaixo de um nervosismo permanente. No extinto Estádio Municipal assisti a emocionantes jogos e no Estádio do Jamor a duas finais de Taças de Portugal inesquecíveis.

          A Académica praticava, nesses tempos, um futebol de causas. Não me esqueço da solidariedade expressa e praticada pela equipa de futebol a quando das lutas académicas. Este facto, mais me amarrava àquele clube. As equipas dos anos Sessenta da Briosa praticavam um futebol bonito, entusiasmante, o futebol tic-tac. Alguns adversários observavam a bola circulando de jogador para jogador da Académica, durante largos minutos, sem a «cheirarem» como se dizia no vocabulário futebolístico. O Barcelona inventou o tic-tac? A mais redonda mentira - já havia sido inventado!

          Hoje essa mística desapareceu e a Académica, dita OAF, profissionalizada, arrasta-se pelos campos na mais completa agonia, longe dos estudantes e da cidade. Continuo, mesmo assim, a ser seu adepto incondicional, tal como sou da Académica SF, na esperança de que um dia próximo, através do diálogo, seja possível retirar esses acrónimos.

          Dou comigo a pensar por que razão a população de Coimbra, mas fundamentalmente os nascidos neste rincão, não apoiam os clubes da terra. Faltam méritos à componente futebolística de uma Associação velhinha de 129 anos? E o outro clube da terra, o União de Coimbra, meu adversário, mas nunca meu inimigo, repleto de história, que tanto prestigiou a cidade, porque está quase desaparecido, militando no distritais?

          Não aceito, nunca aprovarei, a falta de afeição do povo desportista coimbrão pelas suas equipas de futebol, para se deixar enlear pelo clubismo apaixonado virado ao trio do poder em Portugal: Benfica, Porto e Sporting. Não embarco na histeria colectiva que parece tripartir os conimbricenses e os portugueses em geral.

           É impreterível meditar sobre o que nos falta para remar contra esta maré. Difícil de vencer, já que para além de inúmeros factores sociológicos, existe uma convicção messiânica, sonho maior do que uma Nação. Também os media não permitiriam que fosse de outro modo e a barreira cultural instalada muito menos.

          Perderam-se as memórias e foram apanhados pelos exércitos do Império dos Três, curiosamente, dois de Lisboa e um do Porto, onde se concentram outros poderes.

          Gosto de futebol e do seu imprevisto permanente, do rendilhado tecido pelos actores com a bola, das corridas desordenadas, da finta que é uma tela pintada na relva, as pausas de circunstância, as estratégias e as tácticas (des) construídas com o decorrer do jogo e logo (re) construídas para evitar a derrota próxima e indesejável, os remates falhados que a lei da física não entende, a bola ao poste, a defesa impossível a evitar o golo, as palmas, os assobios, os ruídos indeterminados e únicos. Os cânticos.

          Abomino o espectáculo medíocre, jogado e apresentado por artistas com ordenados principescos e por uma miscelânea de nacionalidades que não conhecem, nem sentem, a história e as raízes do clube onde jogam. Nunca sofrerão com a derrota, porque ignoram a mística e as memórias da camisola que envergam.

          Detesto no futebol observar o vazio das bancadas desertas que destroem e corroem por dentro todos os mitos e ritos deste desporto. Com público elevado, só os jogos dos três donos do Império, monopolizadores do futebol em Portugal. Uma das consequências é a vulnerabilidade que leva à queda precipitada dos clubes históricos que ainda tinham público permanente.

           E de que vivem estes clubes sem público? Vivem das transmissões televisivas, dos dizeres das camisolas, dos conluios tantas vezes obscuros com empresários locais, e das estratégias, das técnicas e das tácticas dos seus treinadores, cada vez mais preparados e cultos, para enfrentar sem medo, e, por vezes com êxito, os três detentores do poder.

          Vítimas do ostracismo imperante, os pequenos e os velhos clubes plenos de tradição, história e causas sucumbem aos pés do Império.

          E para finalizar pergunta-se: eu não posso ter simpatia por um dos Três Grandes do Império? Claro que posso, e tenho. Mas não mais do que isso. Sou Briosa, nunca relegaria para segundo plano um dos clubes que representa a minha terra, o meu torrão.

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