Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

04
Jun18

Futebolez» «e Pequenez


pequenos nadas

 

 

            Tinha um artigo em composição para apresentar esta semana, aos meus leitores. Fica na gaveta até próxima oportunidade. Hoje vou prestar a minha homenagem ao advogado, político, poeta e notável homem público, falecido recentemente –, António Arnaut.

            Homem corajoso, defensor acérrimo da democracia e dos direitos do homem. Possuía palavra arguta, e pronta, para denunciar abusos, tanto os cometidos pela sua família política, como os dos seus opositores, sempre que, sendo populistas, radicavam em promessas vãs e irrealistas ou ultrapassavam os ditames da ética política.

             Foi fundador do PS e era seu presidente honorário. Era poeta que eu apreciava, prezado autor de ficção, historiador, deixando, deste modo, legado na literatura portuguesa.

            Conheci-lhe muitos detractores, tanto da sua política como da sua vida pessoal e profissional, os tais navegantes do Restelo velho que ele combatia com a sua contra argumentação reflectida, sempre construída pelo seu saber – saber empenhado.

            Foi o compositor e fundador do SNS, saído da sua pena e da sua cabeça, talvez o maior conseguimento do após 25 Abril, porventura, o seu melhor poema, como se afirma no jornal Público. Por convicção, foi tratado e acolhido, durante a sua doença fatídica, numa instituição servidora do SNS.

            Era filho de um sapateiro, o tal homem do povo. Não provinha de famílias abastadas ou da burguesia vigente. Talvez por ter vivido essa experiência, aprendeu a ir à frente e para a frente, não retrocedia nas suas convicções, não esteve constrangido por pressões e interesses. Nunca se imiscuiu, nem tirou partido daquelas mordomias que a promiscuidade entre a política e o poder económico têm vindo a proporcionar a alguns. Era maçom, foi seu Grão-mestre e assumia esta condição com vaidade. Era um “agnóstico cristão”, na convicção de Alexandra Campos.

            Antes da sua doença, passava por este homem, quase todos os dias, na Baixa de Coimbra, e, devido a esses repetidos encontros, começámos a dizer «Bom Dia» ou «Boa Tarde» um ao outro, por cortesia. Trocávamos sorrisos e afáveis saudações. Sentia-me bem e reconfortado ao passar por esta personagem.

            Para além de escrever hoje em sua homenagem, dorido no corpo e na alma, pela sua perda, faço-o, também, porque a revolta se apoderou de mim. No dia da sua morte, o telejornal de um canal de televisão (o dos outros deveria ter seguido o mesmo alinhamento, calculo eu), iniciou a emissão com um quarto – de – hora dedicado aos problemas do Sporting, como se estes estremecessem o país e fossem de prioridade máxima, quase iminência de catástrofe. Ficou para lugar bem secundário, a referência à morte deste homem de coragem a quem o país muito deve. Eis emergente alguma da comunicação social que temos, onde o «futebolez» desesperadamente impera, à procura das audiências sôfregas e imbuídas de uma pequeneza cultural que dói. Por outro lado, revela-se um atrevimento incomodativo e uma cumplicidade, sem limites, com o «futebolez» (assim digo, porque o futebol joga-se nos campos com os artista da bola). E nem o Miguel Sousa Tavares, comentador do dia, se redimiu (com pena minha, pois nutro por ele admiração, pela sua capacidade intelectual, e por ter em comum com este homem que nos deixou, a coragem e o sem medo de dizer o que pensa e desafiar os poderosos), pois nada disse.

            A história o contemplará, e lhe fará justiça, espero. O «futobolez» e a pequenez sucumbirão.

            Até sempre e obrigado António Arnaut.

[ Jornal O Despertar, António Inácio Nogueira]

 

Comentar:

CorretorEmoji

Comentar via SAPO Blogs

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D