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CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

07
Set18

Nada se passa em Agosto? Ai, passa, passa.


pequenos nadas

Testemunhos. Nada se passa em Agosto? Ai, passa, passa.

 

            Durante o mês, que no meu tempo se designava «de férias», hoje nem tanto assim, dei-me conta de acontecimentos, ocorrências ou notícias que me levaram a pegar na pena e a passar ao papel, aqueles que achei, repetidamente, caricatos, outros porque bateram à porta da minha sensibilidade afectiva, também os surpreendentes ou os que me angustiaram.

I

            Entre a política e a justiça esgrimiram-se as arma do poder. Os dirigentes sindicais de diversos sectores da justiça declamaram, e, porventura com razão, da falta de meios para poder executar as suas tarefas, com dignidade, ao serviço do povo. Mas, vai-se tornando recorrente a inclusão no rol de papel higiénico. Começo a achar caricata esta constatação. Papel higiénico? A gestão de stocks de consumíveis não é da competência dos órgãos de gestão de qualquer organização? Oh senhores gestores de comarca, comecem por aí que é prioritário, – comprem logo no princípio do ano resmas de papel higiénico. Fazem um bom negócio, com certeza, com descontos que dão para comprar algumas folhas para a impressora. Se não houver papel higiénico, ai, ai, ai «rabinho». Ponto.

II

                        O quiosque de jornais da D. Madalena e do Senhor Jorge, com quem comentava os frios da vida, e de onde levava os jornais para ler, fechou. No mesmo lugar encontra-se, hoje, outra actividade.

                        Ao entrar no Café Santa Cruz, olho para o meu lado direito, e, sofro um arrepio de desesperança, sinto-me despido, faltam-me aquelas figuras que cumprimentava todos os dias. Hoje, para dizer a verdade, nunca sei onde comprar os jornais, tal o devaneio. As personagens, aqueles rostos, entram na nossa vida, entranham-se, e, de repente, estão dentro de nós, para sempre. Consideramo-las insubstituíveis. Assim é, quando olho à direita, o que vejo? –, o nada, o vazio, a essência das coisas ditas importantes para mim. A outros, só interessa a modernidade.

 

III

            Foi inaugurado na Portagem um belo edifício. A frontaria é sóbria, mas imperial. Aí se encontram escritos os seguintes dizeres: “A Conserveira de Portugal, 1942, Comur.”

            Depois olha-se, da rua, para o seu interior, e temos ao nosso alcance um tecto arqueado, pintado com recortes que me pareceram ser da Biblioteca Joanina. (Confirmei esta minha probabilidade com um dos seus responsáveis, e, segundo ele, é uma homenagem a Coimbra, como cidade do saber). Das suas paredes emanam livros, nelas plantados, de tal forma, que alguns parece tombarem, a dizer a quem entra –, apanhai-me, pois aqui está a nossa sabedoria. Nos entremeios dos livros, deparamo-nos com uma variedade abundante de conservas –, cujo invólucro é primoroso a condizer com o restante cenário, de que se exalta a autoridade artística concentrada na parede frontal.

             O conteúdo das latas é variado, mas tudo da tradição portuguesa e “tentam homenagear o mar e os portugueses”. Diz um prospecto que me foi facilitado: “ …o mar que os portugueses um dia fizeram seu dá-nos hoje alguns dos mais maravilhosos sabores do mundo proporcionando experiencias gastronómicas únicas, possíveis pelos séculos de conhecimento que aqui se reúnem em torno de uma lata. Saberes e sabores seculares, abraçados numa maré histórica de reencontro do Mar com os seus heróis. Uma epopeia agora recontada pela Comur, a conserveira de Portugal.”

            E lá bem no cimo das paredes, descobrem-se bustos dos símbolos maiores da nossa cultua milenar: Bocage, Pessoa, Camões, Camilo, Eça, Saramago, Garrett.

            É entrar, contemplar, e, depois, comprar, pelo menos, uma lata, para apreciar o sabor das memórias e da sabedoria popular.

IV

            Muitas vezes tenho feito erguer a minha voz sobre o progressivo apagamento de Coimbra relativamente a outras cidades. Nunca me passou pela cabeça que tal facto pudesse arrastar consigo a minha Universidade. Pois foi o que aconteceu: a Universidade onde eu tirei o meu curso, deixou de estar incluída no club das 500 melhores universidades. Os resultados do ranking de Xangai assim o determinam, e, agora, pasme-se: -, Aveiro e Minho lá continuam. A surpresa foi Coimbra que ficou de fora. Triste estou.

 

V

            Gosto muito da Serra da Estrela, da sua paisagem soberba, onde sobressaiem os vales glaciares, lagoas, covões, as quedas de água corrente, gelada, cristalina que terminam em fontes. E que dizer dos barrocos notáveis que parecem ter sido cinzelados, criando ilusões de vida para além da morte, como, por exemplo, a «cabeça da velha». Por todos estes factos, não é estranho que, este ano, tenha ido passar, uns dias, à Pousada da Serra da Estrela.

             Deparei-me com um histórico hotel, projectado pelo arquitecto Cotinelli Telmo, na década de 20, construído a 1200 metro de altitude. É um emblemático edifício, considerado um dos mais notáveis do seu género na península ibérica para tratamento de tuberculosos. Foi durante muitos anos o sanatório dos ferroviários, incompreensivelmente, desprezado, pilhado, maltratado.

             Este edifício abandonado aos ratos e às cobras, com paredes desventradas por azulejos arrancados, e, um amontoado de banheiras e outros materiais de tratamento da tuberculose, quais pilhas de lixo, – foi por mim espreitado, boquiaberto, uma das vezes que por lá passei.

            Foi recuperado, agora, com assinatura do arquitecto Souto Moura, mantendo a sua traça genérica. Magnifico trabalho, comento eu!

            Há coisas que nos acontecem, em Agosto, surpreendentes.

VI

            Mal eu acabo de pensar assim, e olhem que irrompe o incêndio devorador de Monchique: abate hectares de floresta, causa vários feridos e destrói casas. Tudo quase idêntico aos casos anteriores. Afinal aprendemos pouco, só de vez em quando.

VII

            Faleceu Arethya Franklin, a rainha do canto. Que falta me faz esta minha contemporânea e que exemplos me deu!

             Logo a seguir, desapareceu Kofi Atta Annan, o primeiro Secretário de Estado das Nações Unidas negro. Deixa um trabalho invejável realizado em prol da paz e da segurança.

            O colapso da ponte de Génova, com mortes e muitos outros estragos, é a incúria da técnica e a vergonha da política.

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