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CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

09
Jan18

Não é o Fogo do Amor que Arde em Camões


pequenos nadas

 

 

            O fogo radiou enfurecido por entre pessoas, casas, pomares, vinhas, arvoredo, pinhais e eucaliptais, em redor de Pedrógão Grande e concelhos limítrofes.

            As chamas devoraram tudo à sua passagem, lançando foguetes luzentes que multiplicavam os focos de incêndio a distâncias consideráveis do lugar de partida. Eram labirintos luminosos que depressa se transformavam em línguas de fogo longas e devastadoras. Dizem ter sido a origem da catástrofe uma trovoada seca que afogueando o local, se alastrou sem controlo de imediato.

             E olhem as casas, quantas casas destruídas, culturas, animais, o sustento e o abrigo das famílias esvaído em segundos!

            Perscrutem os velhos que viram uma vida de trabalho destruída em segundos, já não sendo capazes de enfrentar a luta e o monstro, como outrora fizeram sem medo, quantas vezes, para sobreviver e cuidar dos filhos. No termo deste desalento são obrigados a abandonar o tecto onde desejavam morrer, não sabendo se o voltam a contemplar.

            Estradas de morte, onde perecem os que os que ainda possuem forças para fugir ao flagelo, apanhados pelo monstro que cospe chamas de sangue. Corpos que já transpiram de morte, carros destruídos qual cemitério de latas, onde no seu interior jazem famílias inteiras carbonizadas, que ainda tiveram tempo de se juntar num abraço final. Os filhos aconchegam-se aos pais, pedindo a protecção última que nunca lhes foi negada; os pais enlaçam os filhos num derradeiro gesto de resguardo. A família viajou junta para a eternidade.

            Aquela estrada da morte mostra-nos um espectáculo dantesco, onde só já restam latas amalgamadas e um imaginário de morte. É tudo preto em redor, uma das colorações da morte. Os velhos pais que nela perderam os filhos, vão ficar mais periféricos, mais isolados, mais pobres, mais desprotegidos.

            Servirá este martírio para alguma coisa? Para quê? Para os políticos nacionais e locais de todos os tempos fazerem melhor? Para a comunidade em geral ser mais preventiva com os seus haveres? Ou vem aí o esquecimento costumeiro de quem quer olhar o futuro sem aprender com o passado, em defesa de uma modernização sem nome e sem rosto. Estou certo de que será tudo improvisado na hora fatídica e pouco mudará.       Estão a chegar, como afirma Rui Tavares no Público de 21 de Junho de 2017, os especialistas instantâneos em incêndios…. Eu não sabia que eram tantos. Afinal para quê?

            Um dia se fará História sobre a floresta em Portugal, que devia ser centralidade de vida, mas foi, quase sempre, de morte. Afinal somos fogo, energia e vida. E se lêssemos poesia, porventura… rasgaríamos as normas e procederíamos mais.

Rasgo normas

Rasgo normas

Rasgo convenções

Não quero saber das formas

Só quero as emoções

Em que me transformas

Num universo de sensações.

 

Sinto um fogo a aquecer

O meu corpo, a minha pele

Não é o fogo da paixão

É o calor do sol a arder.

O fogo que queima meu corpo

Não é o fogo do Amor

Que arde em Camões

É o calor do aquecimento global.

É o resultado das queimadas, da poluição.

É o ser humano entrando em combustão.

 

(Marinalva da Silva Almada e Maria Sousa)

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