Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

25
Dez18

NATAL, NATAIS


pequenos nadas

 

       

DSC00249.JPG

 

   

  As memórias são um dos bálsamos da vida. A minha passagem pela Educação de Adultos, pela Animação Sociocultural e pala Sociologia, deram-me a certeza de que elas são fundamentais para assegurar e consolidar a coesão e a identidade dos povos. As memórias e o conjunto de cultos, que geralmente lhe estão associados, não ficam insensíveis no tempo. Antes evoluem e modernizam-se com novos elementos. Ajudam a dar pujança ao presente.

             As memórias, ao contrário do que muitos pensam, são um processo complexo de pensamento e acção. Não é só saudosismo ou retrocesso, é antes processo reflexivo. As memórias do Natal, por exemplo, estão em mim e na comunidade profundamente enraizadas. Apresentam-se como uma matriz complexa. Exprimem uma multiplicidade de valores sociais, culturais e económicos, como os da solidariedade e da paz. Da pobreza e da riqueza.

             Socorrendo-me de todas estas abordagens, as minhas memórias ajudam-me a compreender o que era e o que é, e porque era e é assim, e o que virá a ser. Desta forma, posso melhor fundamentar o presente e preparar o futuro. Por exemplo, questionar-me-ia se no meu tempo de menino havia o Natal dos pobres e o dos ricos. Tal como hoje, só que os pobres eram diferentes e os ricos também. Interrogar-me-ei, se no meu tempo de menino a solidariedade se exercia nesse dia e quase só nesse dia. Um dia chegava para aconchegar as consciências. Hoje tudo se repete, só que se exerce de outra maneira e utilizando outros instrumentos. Poder-se-ia perguntar se havia alguém, no meu tempo, celebrado no Natal, à volta da qual tudo se fazia. A resposta é afirmativa. E hoje? Também existe, construído pelo consumismo desenfreado. No meu tempo o Menino Jesus era o centro de tudo. Hoje é o Pai Natal.

            A consoada é de ontem e de hoje. Imutável no significado simbólico, com a complexidade dos vários tempos que acarreta. Ela joga um papel fundamental. É uma belíssima viagem aos torrões fantásticos da infância e à geografia afectiva dos lugares que guardamos como inatacáveis reservas de memória. Noite, geralmente fria, ontem e hoje, árvores despidas a altearem os ramos para o céu, campos, estradas, ruas, aldeias e cidades vazias, ontem e hoje. A consoada tem não sei quê de unção, de poesia, de inspiração, que a todos, faz reunir. Ontem e hoje.

             Mas há quem continue calcorreando caminhos sem destino, desertos. São os deserdados, os pobres e meninos de rua, os sem abrigo, os desalojados, um sem fim de seres humanos nesta Terra hipócrita e desigual. Ontem e hoje.

Por isso há NATAL e NATAIS.

            A todos dedico o poema que se segue. Aos que têm Natal, para que façam Natais todos os dias. Aos desprotegidos para que possam ter NATAL.

NATAL, NATAIS...

Não Haverá Natais Todos Iguais!...

 

O Natal, todos os Natais, embocam alegrados

Nos palácios dos abastados;

Nas habitações dos remediados;

Nas barracas dos deserdados.

E p’las ruas, sem portas, dos sem-abrigo,

Vagueia o Menino que lhes afaga o perigo.

 

Não há Natal, há Natais,

Pois não são todos iguais.

 

Há o Natal diletante;

Há o Natal abundante;

Há o Natal bastante;

Há o Natal humilhante.

E há o Natal do desventurado caminheiro,

Pr’a quem uma moeda é muito dinheiro.

 

Não há Natal, há Natais,

Pois não são todos iguais.

 

Há quem tenha prendas na árvore de Natal;

Há quem tenha uma árvore decorada menos-mal;

Há quem nela dependure apenas a vida tal e qual;

E há quem não tenha vida sequer para tal.

Farrapo solitário que se arrasta na desesperança,

À procura das migalhas que caem na roda-viva da dança.

 

Não há Natal, há Natais,

Pois não são todos iguais.

 

Há meninos que torvelinham em redor de presentes e iguarias;

Há meninos que têm um brinquedo e algumas outras alegrias;

Há meninos que se têm a si próprios e que degustam bugiarias;

Há meninos que adormecem cedo p’ra cearem sonhos e grosserias.

E, lá fora, os meninos de rua assomam às janelas do velho casario,

Enfarinhando na boca mancheias de nada, só vazio.

 

Não há Natal, há Natais,

Pois não são todos iguais.

 

Há velhos aconchegados com um Natal ameigado;

Há velhos sozinhos comendo a filhó do passado;

Há velhos desatados da vida p’ra quem está tudo acabado;

Há velhos desabrigados sorrindo à morte.

E por detrás de uma cortina e de uma réstia de luar,

Está o ancião e o Menino coando a noite a regelar.

 

Não há Natal, há Natais,

Pois não são todos iguais.

 

Natal, Natais,

Ouvi todos os vindouros Natais:

Enquanto a palavra estiver ao lado dos tais,

E as verdades e valores não forem sempre mais,

Jamais haverá Natais todos iguais!...

 

António Inácio Nogueira

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D