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CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

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CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

11
Out18

Pelos próximos dias de Novembro


pequenos nadas

            Pelos próximos dias de Novembro, três palavras vão enchendo o nosso léxico: Martinho, magusto e castanhas. Ligadas a todas elas estão o magusto de S. Martinho, o dia de S. Martinho e o Verão de S. Martinho, que encerram costumes antigos perdidos nas sombras do tempo.

            No calendário litúrgico, o dia de S. Martinho celebra-se a 11 de Novembro, data em que este Santo, falecido no ano de 397, foi sepultado em França, mais concretamente em Tours. S. Martinho foi, seguramente, durante toda a Idade Média o Santo mais popular desse País. O seu túmulo encontra-se em Tours desde o séc. V, chegando a ser o maior centro de peregrinação de toda a Europa Ocidental. A sua generosidade e humildade, coligadas a uma enorme fama de fazer milagres, transformaram-no num dos santos mais benquistos do povo. Foi esta personagem, membro do Exército Romano, monge, professor, missionário e evangelizador, bispo e Santo Padroeiro.

            São Martinho é Santo protector de diversas profissões de entre as quais estão os alfaiates, cavaleiros, curtidores, homens da restauração, produtores de vinho e soldados. Os alcoólicos e os pedintes também têm o seu favor.

            Foi ainda um patrono dos exércitos, já que a sua capa era, múltiplas vezes, transportada à frente das colunas militares como pendão de guerra.

            Igualmente alguns animais têm a sua tutela, como por exemplo, os cavalos e os gansos. É orago de uma série infindável de localidades em todo o mundo. Quatro mil igrejas são-lhe dedicadas em França, e o seu nome dado a milhares de localidades, povoados e vilas em inúmeros países do mundo. Em Portugal, similarmente, passa-se o mesmo de Norte a Sul do país. Aqui bem ao lado de Coimbra, está uma deles, S. Martinho do Bispo.

            Alves de Oliveira na Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, vol. 13 (Editorial Verbo), assegura-nos que Martinho era filho de um oficial do Exército. Aos 16 anos entrou para o Exército, ainda que a sua vontade já o inclinasse a ser monge. Em Amiens, provavelmente em 338, durante uma ronda nocturna e num Inverno de enorme rigor, deparou-se com um pobre maltrapilho. Não tendo à mão nada para lhe acudir, dividiu ao meio, com a espada, a sua clâmide e repartiu-a com o pobre desconhecido.        Diz o ditado que naquele momento se fez Sol. O povo crente assevera que, desde esse dia, se chamou Verão de S. Martinho ao tempo solarengo e ameno ocorrido nos primeiros dias de Novembro.

            O reputado etnólogo Ernesto Veiga de Oliveira, já falecido, descreve de forma picaresca, no seu livro As Festas. Passeio pelo Calendário (Fundação Calouste Gulbenkian, 1987), como se comemorava o S. Martinho. Para o autor é “… sobretudo a festa do vinho, a data em que se inaugura o vinho novo, se atestam as pipas, celebrada em muitas partes com procissões de bêbados de licenciosidade autorizada, parodiando cortejos religiosos em versão báquica, que entram nas adegas, bebem e brincam livremente e são a glorificação das figuras destacadas da bebedice local constituída em burlescas irmandades…”

            Os adágios populares não deixam dúvidas:

“- Em dia de S. Martinho faz magusto e prova o vinho.

- Em dia de S. Martinho lume, castanhas e vinho.

- No dia de S. Martinho vai-se à adega e prova-se o vinho.

- Mais vale um castanheiro do que um saco com dinheiro.

- Pelo S. Martinho, todo o mosto é bom vinho.

- Quem bebe no S. Martinho, faz de velho e de menino.

- Queres pasmar o teu vizinho? Lavra e esterca p’lo S. Martinho.

- Se o Inverno não erra caminho, temo-lo pelo S. Martinho.

- Pelo S. Martinho, deixa a água pró moinho.

- Pelo S. Martinho, mata o teu porco e bebe o teu vinho.”

            Há diversas tradições festivas associadas a esta data e que se relacionam com um espírito de convívio e de solidariedade. Aliado aos festejos do dia de S. Martinho está o tradicional magusto em que as castanhas imperam.

            Consideradas, actualmente, como uma iguaria de época, as castanhas, em tempo idos, desde a Pré-História, constituíram um nutriente alimentar relevante e um substituto do pão. Cozidas, assadas ou transformadas em farinha, as castanhas sempre foram um alimento muito popular.

            No nosso País foram sustentáculo alimentar até ao século dezassete, conjuntamente com o centeio, a cevada e o trigo, fundamentalmente, nas regiões periféricas e pobres do Norte e Centro onde os soutos eram abundantes. A introdução do milho e da batata foram reduzindo a sua importância na alimentação da população.

            Os magustos começavam no dia 28 de Outubro, dia devoto a S. Simão, e duravam até ao S. Martinho. Nesse dia, acontecia o magusto familiar em redor da lareira onde era suspensa, pela «trempe», o assador cheio de castanhas. Em casa da minha avó, na Beira Alta e na aldeia de Amoreiras do Mondego, celebrava-se esse dia, pois, segundo rezava o adágio popular, no “Dia de S. Simão, só não assa castanhas, quem não é cristão.

            Os magustos realizavam-se em todo o Minho, em Trás-os-Montes, nas Beiras, no Douro e noutras regiões, por vezes em grandes terreiros, nos soutos ou no meio da rua. Em muitos sítios iniciavam-se à tarde e duravam até noite além. As castanhas assavam-se em fogueiras e o vinho ou a jeropiga, circulava em cântaros ou garrafões, aliviando a sede aos participantes.

            Recordo os magustos realizados há mais de cinquenta anos, andava eu no Liceu da Guarda, por altura de S. Martinho, organizados com outros amigos da turma. Em grupo, e em grande alarido, caminhava-se da cidade para a zona dos «soitos» existentes à sua volta, fundamentalmente para os lados da Estação, bem acompanhados da água-pé e da jeropiga que alguns traziam de casa. Estes «soitos» desapareceram, completamente, submergidos pela construção desenfreada e desorganizada.

            Aí chegados, tratava-se de colher as castanhas varejando os ouriços, suspensos nos castanheiros, que caíam e deixavam tombar profusamente o acepipe. Depois dava-se-lhes um pequeno golpe e distribuíam-se em círculo, bem espalhadas. Tapavam-se com caruma e o lume ateado fazia o resto. Quando estavam assadas, começava o ritual em redor, encarvoando-nos uns aos outros, cantando e dançando já que a água-pé e a jeropiga também davam ânimo à festa.

            Vem esta ideia à coacção pela importância que ainda é reservada à castanha na sociedade portuguesa actual, comprada nas lojas, mercados, festas e feiras por esse País além, ou aos típicos vendedores de rua.

            Assada ou cozida, eis os resquícios da memória e da história.

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