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CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

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CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

22
Fev18

Peripherein


pequenos nadas

 Peripherein

 

            Na época de fogos, ainda não esquecida, muito se ouviu falar de periferia, interior e desertificação, três palavras que para os habitantes das aldeias abraseadas, traduziam, unicamente, «longe de tudo, no meio do mato, das brasas e do nada». Os políticos, e, outros eruditos bem falantes, gostam de utilizar a palavra periferia (o verbo grego peripherein), porque mais sonante, dando-lhes o estatuto de sabedoria, embora, ignorando, alguns, o seu verdadeiro significado.

            Percorri o conteúdo de alguns jornais e revistas, de então, bem como relembrei os noticiários televisivos. Deparei-me com frases construídas a propósito pelos políticos do poder central e local, em que se vozeia e repisa a palavra da actualidade (periferia) que, tudo justifica ou maldiz. Ainda outras eclodem e impressionam, como, «subúrbios ultra periféricos», «o encontro com as periferias não é somente um ditame de magnanimidade», «na adversidade urge desenterrar as periferias como novo objectivo prioritário», etc., etc. Palavras que o vento, repetidamente, tem transportado ao longo da História.

            José Tolentino Mendonça (na última Revista Expresso, p. 92) ensina a todos eles o significado da tal palavra libertadora.

             Periferia, diz Tolentino, “significa traçar uma linha ou desenhar uma circunferência. Parece um gesto simples, trata-se, no entanto, de uma decisão antropológica e política da maior importância.” Palavras do autor. E, acrescenta: “ (…) quando traçamos uma fronteira decidimos o que está dentro e o que está de fora, estabelecemos o próximo e o distante, o prioritário e o acessório.”

             Peripherein, “fixa assim uma fronteira, uma imperturbável linha de sombra, e, com ela, o território geográfico, a paisagem das relações e a própria vida, actuando muitas vezes como se fosse legítimo descartar parte da humanidade.”

            Senhoras e Senhores políticos, de âmbito central e local, académicos, estudiosos: - quando pronunciarem a palavra para fora, murmurem-na também para dentro. Perguntem-se: alguma vez tracei ou ajudei a traçar a circunferência? E depois de a desenhar, o que fiz no terreiro da prática?

            A hora é miúda. O que agora foi, amanhã já não é. Voou. Esqueceu.

 

 

Inácio Nogueira, in Jornal O Despertar

 

 

 

 

 

 

 

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