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CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

15
Jan18

Pinhal de Leiria: Do Imaginário Ao Inferno


pequenos nadas

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 [ A minha vénia ao SAPO pela fotografia]

 

No designado Pinhal de Leiria há mão apaixonada de D. Sancho I e D. Dinis, atingindo glória universal nos séculos XV e XVI com os Descobrimentos e a Expansão Marítima Portuguesa. Madeira e pez (alcatrão vegetal) construíram as caravelas que a tornaram possível.

Há uns anos tive oportunidade de conhecer a majestade do pinhal que engloba as matas do Urso, do Pedrógão e do Rei, com os seus arrifes, aceiros, talhões, e a cobertura predominante de pinheiro bravo (Pinus Pinaster).

Avistam-se, deslumbrantes, das torres de vigia (hoje desactivadas) para protecção de fogos florestais. Conheço uma situada junto à estrada Coimbrão-Pedrogão, e outra no designado morro do Ferreiro junto à Estrada da Lagoa da Ervedeira. Aos dois subi. O meu olhar perdeu-se no meio de uma bruma verde. Os pinheiros bravos, das matas do Pedrógão e do Urso, pareciam um mar verde infinito, silencioso e sem ondas alterosas. Ao longe, cheirava-se a brisa do mar que fazia ondular mansamente os pinheiros, dançando por entre fetos, rosmaninho, urzes brancas e rosadas, lentisco-bastardo e camarinhas. Estava perante um lugar emblemático, onde os odores a resina e a maresia se combinavam numa simbiose quase perfeita.

Este território de “flores do verde pinho”, onde D. Dinis sofreu de amores, todos o quiseram evocar e cantar. Até eu. O verde pinho, as ondas do mar, as águas das fontes e ribeiros, tudo respirava confidências de amor. Os suspiros do Rei Lavrador eram brisas que transportavam imaginários. O Rei foi “semeador de pinheiros e de amor”. Afonso Lopes Vieira chama a este pinhal “jardim” e “canção sem fim”. José Saramago também não resiste a esta mágica “dos cantares do verde pino”. Fernando Pessoa fala do “plantador das naus a haver” e no “rumor dos pinhais”, que levou o Rei-poeta a escrever o seu Cantar de Amigo.

No fatídico fim-de-semana que marcava a metade do mês de Outubro de 2017 quase todo ele sucumbiu, submergido pelas chamas ondulantes, ferozes e quentes que atravessaram o seu âmago. No dia 23 do referido mês fui ver o que sucedera ao «meu pinhal». Percorri as estradas que o atravessam e que tão bem conheço. Deparei-me de um lado e do outro e, a perder de vista, com uma paisagem dantesca, um inferno, um panorama negro de morte vestido, um holocausto personificado, um campo vasto de extinção. Os Pinus Pinaste escanifrados e encarvoados, milhares, mantinham-se erectos mas mortos. Pareciam batalhões de guardas fardados de óbito a provocarem a nossa incúria, o desprezo a que os votámos. Mas morreram de pé, eis a grande lição que nos deram.

O carro percorria devagar aquele antro de silêncio penoso. Silêncio negro. Depois uma tristeza tamanha me invadiu. Alguém, pensei para comigo, transportou do imaginário ao inferno o «meu pinhal». QUEM? Vamos todos procurar saber.

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