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CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

10
Mai18

POESIA


pequenos nadas

 

            Nunca me atreveria a dissertar sobre qualquer assunto ligado à literatura. De poesia também não sei falar e, muito menos, sei dizer se ela tem algo a ver com literatura. Talvez esteja aquém e além dela, já que dificilmente se explica ou eu a sei decifrar.

            A poesia é para mim um mito e pouco sei da sua edificação linguística. Estou certo de que se levanta em cada palavra, como a nuvem electrónica arquitecta o átomo e nela há a probabilidade de encontrar um electrão. O átomo liberta ou absorve energia; a poesia liberta ou oprime. A poesia é um ritual efémero, ou uma construção perene, memorial.

            Dito de outra forma, talvez a poesia seja um modo de contar a vida, a vontade de viver ou não, as suas memórias, os imaginários, os estados de alma.

            A ideia poderá estar plasmada no primeiro verso, desenvolver-se depois e terminar no último, que pode ser uma revelação ou insignificância.

            O poeta para mim, o bom poeta, é um mágico, um dançarino que impõe um ritmo às palavras que escreve, em qualquer lugar, em qualquer momento, num papel amarrotado ou na palma da mão, por vezes nem ele entende porquê ali e agora.

            O poeta é um adivinho que, num acto repentista, exprime sentimentos, mágoas, alegrias. O poeta escreve impulsionado por alguém, por coisas, por tudo, por isso também, uma forma de meditação solitária e única, encantatória.

            Como viram não sei nada de poesia, apenas debito palavras, vazias de tudo ou nada. No entanto, para espanto de muitos, sou um «escrevinhador» de poesia, um não poeta.

            Rabisco em qualquer lugar, em qualquer suporte, quando o sentimento se empenha, ou a euforia e o seu contrário tomam conta de mim. Versejo por entre os dedos da poesia.

            Por exemplo: um dia, na Quinta de Santa Cruz, Entre-os-Rios, debrucei-me à janela do meu quarto, olhando o Douro que serpenteava, serenamente, ao fundo.

            Num pequeno papel fui escrevendo a contemplação.

 

Daqui te enxergo ó Douro,

Naquele teu incessante caminhar,

Sempre caminhante,

Que amanhece quem te olhar!

No teu silêncio desesperante,

Suportas sussurrante,

Muitas memórias ancestrais,

Desumanamente gestuais,

De homens e mulheres suando,

Nos teus «Comoros» enchadando.

 

Nas tuas margens e encostas,

Geometricamente bem compostas,

Florescem a vinha e o vinho, vivo e brando,

Que enxagua as mágoas dos oprimidos,

E anima as festas dos não sofridos.

 

Ao olhar-te agora, (de) repente,

Da Quinta de Santa Cruz,

O teu silêncio envolvente,

Faz-me regressar ao nascente,

E, esquecer, que estou quase velho e no poente.

 

            Estado de alma? Sim. Poesia? Porventura, um arremedo da sua arte.

 

            Gosto de Inês de Castro e de tudo o que enovelou a sua existência mítica e trágica. Da História que a circula. Da Quinta das Lágrimas. Dos barcos de papel que, por águas transparentes, transportavam mensagens de amores proibidos. Das histórias de amor e desamor, furtivas, escondidas. Da morte que a fez Rainha.

 

Castro mito,

Castro rito.

Castro prosa,

Castro formosa.

 

Castro poema,

Castro problema.

Castro paixão,

Castro devoção.

 

Castro tragédia,

Castro comédia.

Castro Pedro,

Castro segredo.

 

Castro morta,

Pedro revolta.

Castro sepultada,

Castro desenterrada.

 

Castro dos trovadores,

Castro dos cantores.

Castro apesar de morta,

Castro ainda importa.

 

Castro escrita,

Castro teatro e revista.

Castro mãe,

Dos bastardos do rei.

 

INÊS DE CASTRO,

Ainda és Castro.

No túmulo finda,

Foste RAINHA.

 

Canto mitos no meu «poetar». Serei eu um poeta inteiro? Jamais.

[ in Jornal O Despertar, António Inácio Nogueira]

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