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CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

27
Fev18

Serra da Estrela


pequenos nadas

 

 

            Estamos a atravessar a época em que muito se fala da Serra da Estrela. A neve, que pinta de branco a sua paisagem de um rude granítico muito belo, com uma idade compreendida entre os 340 – 280 milhões de anos, faz o encantamento de todos os que a visitam. Para novos e velhos, aquele manto sereno que se deixa deitar nele, escorregar sobre ele, permitindo forjar novos imaginários e (re)criar brincadeiras, é inigualável - atiram-se «rebolos» de neve que logo se desfazem em farrapos níveos, fazem-se os bonecos imaculadamente brancos que, logo após, se desmoronam perecendo. Depois, no campo desportivo, as caminhadas e o ski prevalecem, e bem se conjugam com os aconchegados hotéis das Penhas da Saúde para o remanso merecido. Lá mais abaixo, a estética pousada, que foi sanatório dos ferroviários, assoma plena de memórias, como uma casa de cura da tuberculose que foi. O edificado de arquitectura branda acolheu, ao longo de mais de 40 anos, muitos milhares de doentes provenientes de todo o país que procuravam recuperar da tuberculose com os ares da Serra, ditos benéficos para a sua cura.

            Mas há muito mais para se ver nos seus planaltos alongados, sendo um deles o Planalto da Torre, onde se atinge a maior altitude de Portugal continental, a 1993 metros, o sítio a que todos querem aportar e olhar longe para vislumbrar uma paisagem virtuosa, quase alpina.

            Basta andar a pé da Torre até às Penhas da Saúde e depois ter coragem, ainda, para percorrer o vale glaciar que se alonga a caminho de Manteigas – percursos que só os mais corajosos fazem na época invernosa – para verificar a beleza diversa da Serra com uma fisionomia marcadamente natural, transmitida pelas suas zonas aplanadas, superfícies polidas, vales glaciários, moreias, circos, lagoas, e relvados húmidos, marcas evidentes das neves permanentes do passado. Tudo o que se vê comunica um ambiente adverso à laboração e presença humana.

            Nascentes e fios de água, brotam dos barrocos e pelos barrocos, cavando grutas ou distribuindo, pelas veredas, águas refrescantes para os verões quentes, alimentando fontes, matos diversos, zimbrais e carvalhais, prados, onde os pastores (ainda existem?) sobreviviam utilizando os relvados como alimento dos gados transumantes.

            Serra de medos e quimeras. Nela se forjaram imaginários sobre as suas lagoas, a Escura, onde viviam ninfas e sereias no Verão e monstros no Inverno que, abrindo a boca larga, faziam redemoinhar os ventos frios e as faúlhas de neve. A Serra medonha no Inverno, com poços do inferno e locais de onde nasciam rios que se esgueiravam pelas encostas depositando, mais além, as riquezas roubadas, clamando homens e mulheres a mourejar, a criar rebanhos, a por as mãos no seu leite, fazendo brotar as iguarias necessárias ao corpo e à alma, como o queijo da serra. Daí a nada, abrolham aldeias em granito, testemunhos da história dessa ocupação obreira e difícil.

            E logo depois vêm as cantigas, as lengalengas, os provérbios, as adivinhas e as lendas, produzidas oralmente pelas gentes, nas pausas do labor ou nas noites agrestes que a lareira suavizava. Hoje são os seus mitos, as suas memórias, o seu património.

            Numa dessas povoações ouvi uma lenda, narrada por uma velha sábia, exímia contadora de histórias, que tentarei reproduzir:

            Certo dia um rei muito antigo veio a saber pelo seu pajem que um determinado pastor no alto de uma serra, lá para os confins do reino, conversava todos os dias com uma estrela muito bela e grande. O rei mandou um grupo dos seus criados vasculhar todas as serras e deu ordens expressas para só regressarem quando trouxessem o tal pastor.

             Passados muitos meses o pastor foi encontrado e levado à presença do rei. Este perguntou-lhe se era verdade que falava com uma estrela bonita e grande O pastor disse que sim e logo o rei lhe propôs que lhe desse a estrela em troca de grandes riquezas e terras para os seus rebanhos pastarem nessa serra. O pastor disse que não e retorquiu ao rei que preferia continuar pobre e não perder a sua estrela companheira.

            O pastor regressou à serra e à sua cabana e logo a estrela apareceu, dizendo-lhe que teve medo que ele se deixasse levar pelas riquezas em sua troca. A estrela ficou muito contente, cintilou no ar e ficou mais luminosa ainda. Disse ao pastor que ficava muito, muito feliz para sempre.

            Então o pastor para mostrar à estrela o quanto estava lhe estava agradado, proclamou em voz alta: de hoje em diante, esta Serra vai chamar-se Estrela.

            E assim se apelidou até aos dias de hoje!... E quem subir ao alto das penedias, mais agrestes, em dias de Lua Cheia, enxergará, por entre milhões, uma estrela grande que brilha e tremeluz, mais do que as outras, a guiar seu pastor.

            E não é que uma noite, estando eu na Pousada dos Carvalhais, ao olhar para o céu, pejado de estrelas, me pareceu ver essa Estrela grande, de cintilação brilhante!

[in O Despertar, António Inácio Nogueira]

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