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CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

14
Jul18

Subida Para as Nuvens


pequenos nadas

 

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Testemunhos: Acompanhei-os Até à Subida Para as Nuvens.

 

Há alguns dias atrás, encontrei o meu diário de campanha e dele reproduzi lembranças de guerra. De duas delas fiz a transcrição nas páginas deste jornal. Examinei-o até ao fim e encontrei outras narrativas. Não resisto a comungá-las com os meus leitores. A primeira descreve uma emboscada. Segue-se um ataque a um aquartelamento. A terceira conta, com emoção, a despedida aos meus soldados.

Prometo-lhes, caros leitores: - não voltarei a abordar temas de guerra.

I

Seguíamos tensos e em silêncio; sabíamos que a probabilidade de sermos emboscados era grande. Todos tinham os olhos nas bermas da estrada e na mata que as afaga. Ao chegar ao local designado por Matsanga, e estando a primeira viatura muito perto do aqueduto do rio Chinguissa, redobrou-se a atenção. Progredia-se pé ante pé, com o dedo trémulo no gatilho, sempre pronto para o uso a que já nos fomos habituando. Espreitávamos tudo, tentando descortinar algo que se mexesse e nos ameaçasse. Daí a instantes ouviu-se um estrondo junto à primeira viatura. Depois, uma rajada e, logo após, de um lado e outro da estrada, e numa extensão que nos parecia não ter fim, tiros, muitos tiros, uns que cantam outros que costuram e as granadas de RPG2 e de morteiro que silvam por cima das nossas cabeças. Agora são granadas de mão que nos enchem os olhos de pó e nos tiram a visão. Um tiroteio incrível que nos põe surdos e nos adormece a alma.

Mergulho num pedaço de tronco que encontro à mão e tento perceber o que se passa. Nesta guerra não é possível perceber nada. Não vejo quem dispara, não vejo o inimigo. Vejo apenas passarem, por cima da minha cabeça, balas e mais balas.

Não disse uma palavra. Não foi preciso dizer nada. Os meus homens, virados para a mata, disparam sem cessar, atiram granadas e dilagramas. As metralhadoras pesadas bailam em cima dos unimogues e as balas saem, floresta dentro, à procura do incerto.

Decorriam 5 minutos deste inferno em chamas, quando se ouviu o deflagrar de uma forte carga explosiva que destruiu o viaduto sobre o rio Chinguissa e abriu uma cratera de 7 metros de diâmetro. Estava obstruído, por completo, o itinerário de ligação a Miconge.

Pela minha cabeça passaram, à velocidade da luz, as hipóteses mais extravagantes. Tive medo. Vi o fantasma da morte em meu redor. Então, ficou bem claro para mim, que era preciso reagir mais, agora com mais intensidade, pois estávamos bloqueados.

Passados 7 minutos, o IN entra em debandada. Depois fica o silêncio. É um silêncio que dói. Um silêncio de vazios, de nadas. Vagueio de um lado para o outro, como um bêbado, e pergunto a todos se estão bem. Não há mortos nem feridos. Fico feliz e regresso a mim. Já não estou tão vazio, estou eufórico. Procuro ordenar o meu grupo e mantenho-o vigilante, dada a posição desfavorável em que nos encontramos. Disfarço, o melhor que posso, a luta interior que se passa dentro de mim. Apetecia-me abraçar todos esses homens. Eles são os heróis que a Pátria tão mal trata e a quem tão mal quer!...

II

Agora, fazemos o caminho para Miconge, que havia sido fortemente atacado. Chego à porta do aquartelamento e encontro um cenário dantesco. Um espectáculo de destruição, como nunca tinha observado. São chapas de zinco pelo chão, casernas destelhadas, edifícios sem paredes ou parte delas perfuradas por tiros e granadas. Soldados com mãos atadas e pés entrapados, fardas rasgadas.

Casernas onde o caos impera. Malas abertas, semi destruídas, com cartas íntimas das mães e namoradas espalhadas pelo chão, que ainda não houve tempo ou vontade para recolher e guardar.

Mas olhem para eles! Estão firmes como rochas os meus soldados, e eu pergunto-me onde vão buscar estes homens esta força, esta coragem!...

III

O dia da partida chegou e, no aeroporto, depois das despedidas, fico a ver os meus homens caminharem à procura da porta de saída e da liberdade. Tenho um sentimento de perda que não sei explicar.

Era de noite e nesse dia chovia. O ar estava carregado de lágrimas flutuantes, já que as gotas de água que caíam eram finas, imitando o cacimbo do Maiombe. Ele veio despedir-se dos guerreiros e acompanhá-los na subida para as nuvens. Fiquei algum tempo no aeroporto, vendo as luzinhas do Boing desaparecer, por entre milhões de pingos de saudade.

Volto e vou para a Ilha de Luanda. Sento-me numa esplanada. Fico em silêncio horas a fio, porque me apetece ficar com os meus pensamentos. Alguém me pergunta em que penso, mas permaneço abstracto como se não tivesse ouvido. Passado duas horas, levanto os olhos devagar, uns olhos que dizem mudar de cor conforme os dias, e à noite parecem de gato, de mel. Hoje são de fel. Nessas duas horas reconstruí uma história que não voltarei a contar, ou, quem sabe, talvez um dia, muito mais tarde, a (re) escreva para deixar aos meus netos.

A minha guerra quase findou. Agora vou ficar mais um mês, a cumprir a última missão de qualquer Capitão – a Comissão Liquidatária – com a qual se fecha a contenda, se fazem contas com a guerra e com a tropa.

Para regressar à Metrópole é preciso que dezenas de “quadradinhos” sejam assinados e carimbados pelas respectivas repartições. Quando os “quadradinhos” estiverem preenchidos, estou quites e posso regressar. Por fim, eis a última assinatura!...

A carta de alforria está na mão.

Já estou no aeroporto aguardando o embarque. É estranho como há pouco, quando recebi a notícia da partida, estava eufórico e alvoroçado, e agora não encontro em mim o mínimo eco emocional. Deixar Angola, depois de mais de dois anos de vida sem ser vivida, deveria constituir um alívio e uma libertação. No entanto, nada disso está a acontecer.

Subi para o avião, esperei que chegasse a hora da partida e vi as luzes de Luanda a afastarem-se, desaparecendo na escuridão das noites de África. Não tive aquele sentimento emotivo que me acompanhou à chegada. Parece ser estranha esta reacção, mas talvez não o seja. Pensei tantas vezes na partida, que se me tornou quase indiferente.. Deixar Angola não é tudo, mas chegar a Lisboa é já quase tudo.

Afinal, Luanda do ar pareceu-me muito mais pequena, exageradamente pequena. Miúda demais para tanto sacrifício. Esta convicção deu-me a certeza de que não valia a pena pensar no passado, meditar Angola.

[in Despertar, António Inácio Nogueira]

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