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CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

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CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

20
Mai18

Testemunhos. A Esperança Média De Vida, Exultação ou Pesadelo


pequenos nadas

 

 

            Portugal é um dos países que mais ampliaram a esperança média de vida, conclusão de um estudo internacional publicado na revista britânica The Lancet. Também segundo o estudo Burdên of Disease 2016, a esperança média de vida em Portugal, em 2015, cifrava-se em 83, 9 anos para as mulheres e 77, 7 anos para os homens. Temos que nos congratular com estes valores que ultrapassam os da escala global, inclusive o de muitos países ditos desenvolvidos. E o porvir?

            Ao discorde de alguns países que têm idosos saudáveis, a geração dos actuais idosos foi, em grande parte, muito castigada pela pobreza, pelo trabalho precoce, penoso e duro, pela falta de cuidados de saúde, pela emigração onde o dia-a-dia era de miséria, a opressão do regime em que se vivia, a guerra… Por tudo isto, Pedro Marques da Silva, vice - presidente da Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia, é categórico ao afiançar que, além de velhos doentes, “temos ainda muitos idosos frágeis, incapazes de cuidar de si” e com pouca capacidade motora. Hoje, apesar das modificações profundas encetadas, a pobreza continua a imperar, os modos de vida e a disponibilidade familiar para os acompanhar diminuiu, o que agrava a situação. A solidão mata-os e deprime-os, mas as formas de vida, de tratamento e acompanhamento, não serão melhores, por motivos diversos, em muitos lares e casas de repouso.

             Daqui a 63 anos, Portugal terá 7,478 milhões de habitantes, 2,8 dos quais idosos, segundo as Projecções do Instituto Nacional de Estatística.

            Quem vai cuidar de 2,8 milhões de velhos?

            Está pensada alguma política prospectiva para o apoio a prestar aos velhos no domicílio e em casas de repouso ou lares?

            Que formação necessitam os profissionais que a vão por em prática, cada vez em maior número, por certo, e se requerem cada vez mais bem preparados?

             Hoje raramente é exigida formação cuidada e específica (para os desempenhos a praticar) aos profissionais que actuam em muitos locais de acolhimento (com salários baixos e contratos precários), uma situação rara no quadro europeu. Não nos esqueçamos que a tendência do estado de saúde das pessoas que aí vão aportar, dada a longevidade, será cada vez mais complicado, a exigir, por isso, recursos humanos e materiais apropriados.

            Haverá as pessoas necessárias para cuidar de todos eles, dado o decréscimo da população activa e o seu número a crescer exponencialmente (com a agravante de serem cada vez mais velhos, doentes, frágeis e já inabilitados para tratar de si)?

            E existirão geriatras, nutricionistas, fisioterapeutas, enfermeiros, psicólogos suficientes e sabedores, já que nos dias de hoje a formação para tal está tão desfasada da realidade? E o que será nos tempos tremendos que se avizinham se não se proceder à reestruturação dos seus saberes?

            E o que fazer com os cuidadores informais, familiares ou não, que pretendem que os seus velhos permaneçam em casa? Para cumprir o seu papel está prevista a flexibilidade laboral, direito a ter redução de horário sem prejuízo para o seu emprego, por exemplo?

            Que disponibilidade e políticas para a formação de redes de pessoas (familiares ou outros) dispostas a dar o seu tempo para ajudar os doentes e dependentes? Sem eles os hospitais serão um pandemónio, maior tornando-se imprescindível plantar uma casa de saúde, lar, casa de repouso, centro de dia, em cada esquina.

            E em relação às demências, depressões profundas e Alzheimer o que dizer e fazer?

            Leonor Paiva Watson, em 19 de Setembro de 2017, numa crónica incerta no Jornal de Notícias, reporta-se à cimeira internacional Alzheimer Global Summit e às suas conclusões, para nos dizer, citando, que um em cada nove portugueses com mais de 65 anos terá Alzheimer e a tendência é para piorar. Uma outra ideia, também daí retirada, é que a evolução da doença – que não tem merecido a devida atenção – pode ser bastante “retardada recorrendo a terapia não farmacológica”. O Alzheimer, bem como todas as outras demências, afirmou-se na conferência, será um dos nossos problemas maiores. Por esse facto, alertou António Leuschner, precisam-se de mais equipamentos e recursos para os pacientes e seus cuidadores. Urge prospectivar os tempos que se aproximam a passos largos.

            Foram apenas reflexões, porventura, achegas de quem prevê um futuro negro para as gerações próximas e futuras, se não existir uma viragem político social de fundo.

            É neste contexto complexo, e a necessitar de reflexão e acção, que pode entrar José Tolentino Mendonça, pois na Revista do Jornal Expresso escreveu um artigo, que intitulou o Verbo Milagrar, onde muito trata a velhice e seus problemas. A certa altura cita um provérbio norte-americano onde se afirma que ser velho não é divertido, dando propósito ao «milagrar» e afiançando que o adágio tem razão. Aproveita-o para produzir, de forma séria e muito lúcida, o conceito multifacetado do que é ser velho. O que mais me sensibilizou, podendo ser um alerta para os políticos e para todos os que pelos seus saberes podem construir um futuro melhor para todos eles, aqui vai reproduzido, com a devida vénia para o seu autor.

            Ser velho é lutar para estabelecer uma conversa com um quinto do vocabulário, ainda assim entrecortada por hesitações e esquecimentos, mas com os olhos a falarem cinquenta vezes mais, para quem os souber ouvir. Ser velho é sentir-se transferido para o interior de uma casa alheia e grande, desejando unicamente não se perder. Ser velho é não poder contar com ninguém a certas horas - horas longas que parecem não ter fim -procurando manter vivo, dentro dessa total incerteza, o inapagável fio do amor.”

            Obrigado José Tolentino por esta lição explicada e elucidativa.

[in O Despertar, António Inácio Nogueira]

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