Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

25
Mai18

Testemunhos. Desabafos Sentidos Sobre Coimbra.


pequenos nadas

 

 

            Deparei-me com um livro, sob o título 1914: Ano da eclosão da I Guerra do jornalista e escritor Ricardo Marques, editado em 2014 pela 0ficina do Livro.

            O autor faz um retrato abrangente de Portugal em 1914 ilustrado, com os factos, as curiosidades e as estatísticas mais relevantes da vida social, da ciência, das artes, da política, do desporto ou até do crime. Ricardo Marques revela-nos um país que, apesar das drásticas diferenças em relação à actualidade, já evidenciava muitas semelhanças com aquilo que é hoje.

            Na introdução diz-se que se pretende construir hoje uma história com as histórias de ontem. Perceber que a vida de hoje, tão diferente em tudo, é por vezes tão igual ao que era.

            Ao folhear o livro fui encontrando múltiplos acontecimentos sobre Coimbra nas áreas atrás descritas. Fiquei surpreendido com as inúmeras referências feitas à Nossa Terra, a dar luz à importância que a urbe tinha no quadro nacional, à época – o que hoje não se verifica! Tenho pena de dizer isto assim com esta crueldade. É um desabafo sentido, magoado.

            Como diz o escritor António Vilhena, “… Coimbra [pensa-se] … uma cidade especial, tem gente que sabe tudo, que tem opinião sobre tudo, que se julga especialista sobre todas as matérias, que gosta de fardas e de trajes, que funciona em circuito fechado, que tem a cabeça na torre da universidade, … Coimbra é uma cidade cheia de contradições …”. Redigo: a Coimbra que se julga ser, já não é o que pensa ser no panorama nacional. A Coimbra prestigiada do antes e do Estado Novo, com influência política na Capital do Império, e com uma Universidade possuidora do saber nacional, desapareceu e não se substituiu por nada. Hoje faz vassalagem a Lisboa (de todo inexplicável nalguns casos; recorde-se o ramal da Lousã e o Metro). Assim sendo mantém-se estática. Ultrapassa Lisboa no seu pior e está longe do seu melhor. Aveiro, Braga, Setúbal… onde já vão. Algumas outras cidades espreitam a oportunidade para a suplantar.

            A Coimbra dos afectos esvaiu-se, foi substituída por símbolos exteriores que não exigem atributos interiores e invisíveis que “são suporte de vida fora da efemeridade das aparências.” Os símbolos internos, ainda que se queiram adaptados à realidade actual, alguns deles de projecção nacional ou internacional, pouco se dão a conhecer.

            Coimbra perdeu a sua identidade e o sentido comunitário de pertença. Adoptou a globalização grotesca. Esvai-se ano a após ano. O património edificado e ambiental não recebe o trato conformado, o investimento industrial quase finou (“cerâmica”, “cervejas”, “ alimentar”… acabaram e foram substituídos por quê?), o cultural é pobre e mora sem animação e apoios, o desportivo retrata bem a decadência coimbrã. Dos clubes da cidade já pouco resta, quase tudo é Benfica, Sporting ou Porto. Exibem-se camisolas e cachecóis não da Académica ou União, mas dos clubes de Lisboa e Porto. Todas as outras modalidades já não têm representatividade. Eis a subserviência de uma cidade que soube fabricar uma cultura própria e a desbaratou inesperadamente.

            Poderão dizer que isto não importa nos dias que correm e numa sociedade aberta. Claro que interessa. Coimbra desaproveitou e olvidou a sua parecença, não soube conceber um futuro venturoso e de modernidade alicerçado nas memórias do passado e, por isso, vagueia sem produzir quase nada, – salvem-se escassas e reconhecidas excepções.

            E quem não se deixar embalar no enredo desta dança, sem ritmo, é apelidado de desusado!

            Coimbra deixou de se mostrar ao exterior. Enconchou-se em seu redor, pensando que o pensamento empreendedor antigo em redor da sua Universidade e de áreas de serviços, lhe dariam hoje a mesma projecção nacional e internacional. Enganou-se. Deixou-se invadir por organizações consumistas, grandes superfícies que se implantam como cogumelos, enormes pequenos «nadas» de crescimento, onde o reino é o do gastar e do trocar. À volta da Coimbra, outrora do Choupal, colhem-se frutos do intentar sério, criador de riqueza, muitas vezes, com os cérebros que produzimos cá dentro. Em redor temos diversos nichos de boas práticas, olhem só para Cantanhede!

            Ora! … Lograrão dizer alguns dos que continuam a privilegiar a cegueira: o autor destas palavras, o que quer é o regresso ao passado lúgubre. É um derrotista primário. Tem “A obsessão doentia pela tradição e pelo passado…um factor inibidor da modernização…” (veja-se Rui Bebiano no seu comentário “Coimbra em tempo de autárquicas” no Jornal As Beiras de 09. 09. 2017). Não, o que o feitor destas opiniões pretende é que se conheça o passado para, reflectidamente, sobre ele e com ele, se possa construir o futuro. Sem peias, não reverencial. Um porvir melhor, caros leitores.

            E já agora, em tempo de autárquicas, e «a talho de foice», pergunto: o que tem feito o poder local (de todos os partidos políticos), ao longo dos últimos anos, para inverter a situação? Cada qual que responda.

[ Jornal O Despertar, António Inácio Nogueira]

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D