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CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

12
Abr18

TESTEMUNHOS. Desnorte do Norte


pequenos nadas

 

 

 

            A semana passada desloquei-me a casa do meu falecido pai, com o intuito de a preparar para arrendamento, e efectuar um inventário dos móveis e outros apetrechos lá existentes. A casa ia, presumivelmente, ser alugada, como de facto aconteceu, a um casal de húngaros, agora em Portugal, ele, ao serviço da Universidade de Coimbra.

            É certo que entrei naquela casa um pouco ansioso, o que acontece, quase sempre, não sabendo eu explicar porquê.

            Iniciei o trabalho, apontando, num «caderninho» preto, todo o material existente nos diversos compartimentos.

            Principiei pela cozinha onde, é óbvio, se encontram os mais diversos utensílios necessários à confecção das refeições, bem como à sua degustação.

            Comecei pelos pratos, que contei, mas ao tentar dizer o nome desses vulgares objectos, vejam bem (!), esqueci-me do seu nome, facto misterioso, dado tratar-se de um objecto com que iniciamos, todos, a interagir desde pequeninos, o que agrava a circunstância. Deixei o nome por preencher, no meu caderno e, seguidamente, dirigi-me aos copos. A cena repete-se, e não fui capaz de me recordar da palavra! E assim, sucessivamente, panelas, frigideiras, etc., etc., …O que mais me preocupava é que eram objectos do dia – a – dia. Desassossegado, tentei acalmar, e, disse para comigo: «António vai para outra divisão, e, tenta de novo». Caminhei para a sala, olhei para tudo à minha volta, e não fui capaz de me lembrar dos nomes. Vejam bem, por exemplo, mesas, candeeiros, televisão, prateleiras, cadeiras, etc. Nada assinalava pelo nome. As palavras voavam à minha frente, sem que as pudesse apanhar.

            Um estado de pânico apoderou-se de mim. Fui a correr para os quartos, e nada de me lembrar de nada (!) … mesinhas de cabeceira, camas, mesas, candeeiros, etc. Senti-me perdido no meio daquele amontoado de coisas que não sabia codificar. Supus-me desaparecido, a flutuar num espaço, aos meus olhos, de uma escuridão medonha. Cambaleando, arranjei forças para me dirigir a um sofá da sala, e, deitei-me. Eu que tenho dificuldade em adormecer, embalei-me, de imediato, nos braços de Orfeu. Acordei, mais tarde, aliviado; telefonei à minha mulher, contando o que me havia acontecido, de quem recebi aconselhamentos e ânimo.

            Recomecei a minha tarefa e à cozinha regressei. Na realidade, já me recordava do nome de muitos objectos, e os outros, não lembrados, ia substituindo por palavras que caracterizavam a sua função.

            É curioso constatar ter sido a primeira vez, há sempre uma primeira vez, que coloquei o pé numa inicial pegada a caminho do abismo,

            Fechei a porta da casa, meti-me no carro, aguardei um pouco no seu interior, aquietando. Iniciei a condução, devagar, devagarinho, e lá cheguei à minha residência, sem contratempos.

            Eu que havia estado na guerra, passando por situações de complicação extremas, de medos e incertezas, enfrentara, hoje, uma prova surpreendente, penosa, de desnorte total. Senti mais medo do que no meio de um tiroteio. Sofri, hoje, uma fuzilaria sem som, com lugar de partida incerto, escuro como breu.

            Por tudo isto, lembrei-me das pessoas que findam a sua vida enfrentando estádios de demência diversos, acicatados ao longo de caminhos sinuosos, cruéis, que os levam ao Alzheimer.

            Conhecemos ainda, muito pouco, dito por alguns cientistas do cérebro, o nosso órgão organizador da vida. Neste contexto, pergunta-se: o que «experienciarão» essas pessoas? Será que sofrem? Como sentem a amargura? Quando uma filha pergunta à sua mãe, com Alzheimer, – «Olha mãe, quem é esta que está aqui ao pé de mim?», e ela responde «é a minha mãe», já morta há muitos anos, sendo a pessoa que ela devia reconhecer a sua neta, o que se passará nos centros mais recônditos do seu sofrer e ser? Há algum padecimento ou nenhum? Há uma tortura, tamanha, para dentro? E isto, dias, após dias…, anos.

            Eu, levemente, tive a sensação de flutuar, de me afastar da realidade e tive medo. O que sentem eles, se sentem, deve ser o quê? Um poço elíptico, em rotação permanente, profundo, escuro, sem fundo?

            Tenho muito respeito pelas pessoas que nestas situações vivem. No começo da tormenta, sofredoramente, vendo cair na calçada, dia após dia, os já farrapos das suas vidas, por não se saberem já localizar no espaço-tempo, por quedarem, aos poucos, as suas relações de afectividade e de sociabilidade. No fim, o escuro que vem de dentro.

            O cinema, a literatura e o teatro, vão ensaiando e apresentando casos, tentando esclarecer as pessoas de como lidar com o caos.

            Veja-se, por exemplo, o filme sobre Alice, uma ilustre professora de linguística, uma mulher realizada na profissão e como pessoa. Aos poucos, começa a deslembrar certas palavras, a baralhar-se nas coisas mais simples do dia-a-dia, e, a desnortear-se pelas ruas de Manhattan. Aos 50 anos encontra-se num primeiro estádio de Alzheimer, como já demos a entender, “um tipo de demência que provoca uma deterioração progressiva e irreversível da memória, atenção, concentração, linguagem e pensamento.” Mulher informada e, por conseguinte, convicta do que o futuro lhe reserva, vai lutando sempre. Mas Alice sabe que, a curto prazo, a doença vai modificar, radicalmente, a forma como lê o mundo, – como o mundo a lê a ela e como vai arrastar-se pela orbe.

            A vida dramática desta mulher, corajosa, teve o apoio indispensável da literatura, sem a qual Alice e o seu padecimento não seriam conhecidos. Uma história dramática, imprescindível sob o ponto de vista pedagógico e «investigativo», que amolda o “best-seller” homónimo escrito em 2007 por Lisa Genova, professora da Universidade de Harvard e doutorada em Neurociência.

            Em português, também se começa a escrever sobre o assunto. Valério Romão escreveu, recentemente, Cair Para Dentro. Sim, é tombar no indistinto. Para dentro de quê? Do tal poço que é um buraco negro.

            E o teatro também contribui, às vezes, para toda essa aclaração, que urge fazer. O grupo de teatro os Controversos, apresentou na Capela da Santa Casa da Misericórdia de Coimbra, a peça O Corpo é a Casa do Mais Fundo Abismo,- a Rosa de Alzheimer , integrada na Semana Cultural da Universidade de Coimbra, que tem por tema unificador a criatividade «versejante» de Ruy Belo,

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quando diz, “Oh! As Casas, as Casas, as Casas”.

            Pois é: precisam-se de casas e famílias presentes, para que não se construam abismos, lá para os lados do Sol-posto. Também do Norte.

 

 [ in Jornal O DESPERTAR, do autor]

 

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