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CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

O meu quintal é a minha imaginação. Aí planto pequenos nadas.

CRÓNICAS DO MEU QUINTAL

05
Mar18

TESTEMUNHOS. Quem Olha Por Ti, Património Nosso


pequenos nadas

 

 

            Há uns dias, vi, num dos nossos canais televisivos, um programa, por acaso bem estruturado, sobre o estado de conservação em que se encontra algum do nosso património edificado com História e memória. Fiquei impressionado com o que vi, um verdadeiro tsunami cultural, um desastre imperdoável. O que aconteceu ao Forte de Santo António da Barra, um dos admiráveis complexos da barra do Tejo, e ao Mosteiro de São Dinis de Odivelas (ou, simplesmente, Mosteiro de Odivelas, como é mais conhecido), impressionaram-me. Quase verti lágrimas de desespero! Pieguice minha? Não.

            Pouco me importa saber, agora, quem deixou que se fizessem tais barbaridades. Sei que estes atentados são feridas que se abrem, e, dificilmente saram, crimes contra o património, – há que encontrar os seus autores.

            O Forte de Santo António da Barra era uma fortaleza militar de defesa da costa, mandado construir por Filipe I e, amplificado, por D. João IV em 1643. Tem uma arquitectura militar renascentista, estrelada, o que aumenta a sua beleza e a sua utilidade militar. Ergue-se num maciço rochoso, de onde se lobrigam vistas deslumbrantes e, contra o qual, as ondas se enovelam. Quem percorre a bela Marginal, na direcção de Cascais, vislumbra-o ao longe, imponente. Edifício cheio de história, por isso imóvel de Interesse Público. Foi durante muitos anos a residência de Verão e de férias de Salazar. Ali tombou, de uma cadeira de repouso, facto que levaria ao seu afastamento da governação. Em 1970 e fruto desta ocorrência morre. Foi a grande sapatada na ditadura.

 

            Hoje é um mundo de tudo e de nada. De portas escancaradas é, permanentemente, devassado, destruído, roubado, vandalizado, – só as imagens nos percepcionaram o seu estado. Hospedo de drogados, garrafas e seringas aos montes, grafittis por tudo o que são paredes, divisões conspurcadas e aviltadas. Os valiosos azulejos, que antes agasalhavam as paredes, cobrem agora o chão, estilhaçados. Muitos outros foram roubados. As portas dos compartimentos estão abertas e abatidas, os vidros partidos. Até a capela não escapa a este vendaval patrimonial. Do forte militar, soberbo, de outrora, já pouco resta. A mutilação de um espaço, com mais de 400 anos de História, está aí, à vista.

 

          O Mosteiro de São Dinis de Odivelas ou Mosteiro de Odivelas, da Ordem de Cister, foi outro dos monumentos cujo estado de não preservação me impressionou, como já supradito. Fundado em finais do século XIII, é, um agrupado de arquitectura religiosa, qualificado, desde 1910, Monumento Nacional. D. Dinis, o ergueu, também empenhado semeador de pinhais, do Pinhal do Rei, património natural, agora, destruído, devido a desmazelo afim.

            É, um monumento, de beleza impressionante, onde, o estilo gótico, manuelino, barroco e neoclássico se casam. Destaque-se, a antiga cozinha e o refeitório, bem como os claustros originais, quinhentistas, – Claustro da Moura, de dois andares, e Claustro Novo, ornado com azulejos do século XVII. Na capela absidial, do lado do Evangelho, localiza-se o túmulo de D. Dinis, da primeira metade do século XIV, importante monumento da tumularia medieval portuguesa (muito danificado pelo terramoto de 1755 e pelas invasões francesas).

               Muitas destas preciosidades patrimoniais, nunca é demais repeti-lo, estão hoje à mercê de mãos alheias, em estado muito precário de conservação, e, vandalizadas, com prejuízos e percas patrimoniais elevados.

            Esquecer é o verbo contrário de memoriar, e, o «presentismo» que se vive, leva muitos a descurar o passado, logo, a considerar coisa pouca esta degradação criminosa.

             Há hoje um ataque à memória; melhor que o presente não há, diz-se. O futuro, então, é a miríade de todas as coisas. Não se fala o património cultural como um elemento da identidade nacional. Esta racionalidade ainda não existe por cá, só assim se compreende esta ruína.

            Tratar o património material e imaterial, em diálogo com a criação contemporânea, é doutrina nas convenções do Conselho da Europa. Por aqui, «orelhas moucas».

[ in Jornal O Despertar de Coimbra, António Inácio Nogueira]

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